Mundo ficciónIniciar sesión༺ Tamara Silva ༻
A porta do carro se abre, e o ar da noite atinge meu rosto com uma mistura de perfume caro, música distante e aquela expectativa que faz o estômago revirar. Salto para a calçada ao lado de Estela, que observa a entrada da boate com os olhos brilhando de empolgação. — A fachada é lindíssima — comento, olhando para as luzes modernas que contornam a entrada. — E por dentro é ainda melhor — Estela responde, animada. — O dono caprichou em cada canto. Vi as fotos nas redes sociais e fiquei impressionada. Parece cenário de filme. Entramos logo em seguida. O interior consegue ser ainda mais impressionante. Lustres enormes refletem cores suaves, o piso brilha como se tivesse sido polido agora há pouco e a iluminação baixa deixa tudo com um clima muito elegante. A música tem uma batida envolvente, forte o suficiente para animar, mas sem ensurdecer. Seguimos direto para o balcão do bar. Estela pede um drink de limão, e eu escolho o de morango, meu preferido de sempre. Enquanto o barman prepara os copos, olho ao redor, tentando disfarçar a ansiedade que aperta meu peito. — Onde está o seu irmão? — pergunto, tentando parecer casual. Estela revira os olhos, sabendo que essa pergunta era inevitável. — Vamos nos divertir um pouco antes, Tamara. Ele deve estar enfiado na área VIP. — Ela pega o copo dela e puxa minha mão. — Vem, vamos para a pista. Respiro fundo e tento entrar no ritmo. A pista está cheia, mas o espaço é bem organizado. Estela se j**a na dança, completamente entregue. Tento relaxar, mas meu corpo parece travado. Alguns rapazes tentam puxar assunto, mas recuso todos. Não estou aqui para conhecer ninguém; meu pensamento ainda está preso no passado. Depois de alguns minutos, Estela toca meu ombro. — Vamos subir. Acho que ele está lá em cima. O frio na barriga volta com tudo, mas concordo. Subimos a escada iluminada que leva ao segundo andar. Quando pisamos na área VIP, avisto o grupo reunido em um dos sofás. No centro, como sempre, está Pedro. Sempre o impacto de ver ele me paralisa por um segundo. O cabelo preto está perfeitamente penteado para trás. A barba bem aparada destaca o rosto marcante. Os olhos castanhos parecem ainda mais claros sob as luzes do camarote. Ele veste uma camisa social preta que se ajusta muito bem ao corpo. Parece um modelo de comercial de TV. Ao lado dele, estão duas mulheres. Uma ruiva com um vestido colado e uma loira que não para de cochichar no ouvido dele. Elas estão perto demais, íntimas demais. Sinto uma pontada forte de ciúme e aperto minhas próprias mãos, engolindo o seco. Odeio ver outras mulheres perto dele, mas sei que não tenho o direito de reclamar. Assim que nos aproximamos, Pedro nota nossa presença e revira os olhos com uma impaciência que me machuca. Os amigos dele trocam olhares maldosos e alguns dão risadas abafadas, como se nossa chegada fosse uma piada. Finjo que não percebo. O sentimento que tenho por ele me faz aguentar esses papéis ridículos só para conseguir ficar por perto. Sentamos no sofá da frente. Pedro dá um gole na bebida dele e solta: — Não achei que vocês fossem aparecer. Essa festa não é para crianças. — Ah, cala a boca, Pedro — Estela rebate, irritada. — Eu tenho vinte e quatro anos e a Tamara tem vinte e cinco. Nós crescemos, sabia? Ele solta uma risada debochada. — É verdade. Já estão ficando velhas e eu nem notei. Ajeito meu cabelo em um gesto automático, tentando parecer segura. Pedro me encara por alguns segundos, o que é um milagre vindo dele. — Você está diferente hoje, Tamara. Meu coração dispara. — Acha? — sinto minhas bochechas esquentarem. — Sim. Talvez seja a maquiagem, ou o cabelo. Digamos que você está... apresentável. A palavra cai como um balde de água fria. "Apresentável". Como se eu tivesse apenas atingido a nota mínima para não passar vergonha ao lado dele. Mesmo assim, um sorriso bobo e involuntário surge no meu rosto. — Obrigada — murmuro. Pedro pega outra garrafa e serve mais um copo. — Vamos beber, que a noite está animada. Fico observando ele conversar com os amigos, e um incômodo pesado começa a crescer dentro de mim. A cada risada dele e o toque casual que ele dá nas garotas ao lado, sinto algo se partir no meu peito. Estela tenta puxar assunto sobre a boate, mas Pedro somente ergue a sobrancelha, cheio de si. E então, ele faz o que sempre faz. — Tamara, pega mais gelo para mim. E traz outra garrafa de uísque ali do bar. Engulo o seco. É sempre assim. Uma ordem disfarçada de pedido, sem um pingo de consideração. Estela se revolta na hora: — Você é muito folgado, Pedro! Chama um garçom. Por acaso ela é sua empregada? Ele nem se abala, apenas j**a o corpo para trás com desdém. — Cala a boca, Estela. Ela sempre faz o que eu peço. Não vai ser diferente hoje. Sinto meu orgulho machucado, mas a verdade é que eu não consigo dizer não. Sei que vou levantar e buscar. Esse amor doentio sempre fala mais alto que a minha dignidade. Pedro me encara com um sorriso convencido no rosto. — E então... vai lá fazer isso? Antes que Estela comece outra briga, seguro o braço dela. — Deixa, Estela. Eu vou. Pedro sorri, satisfeito. Caminho em direção ao bar com as risadas dos amigos dele ecoando nas minhas costas. Respiro fundo para não chorar ali mesmo. Quando volto com o balde de gelo e a garrafa, escuto o final da conversa do grupo. Eles nem percebem minha aproximação. — Você abusa da boa vontade dela, Pedro — Augusto comenta, parecendo incomodado. Pedro dá de ombros, sem se importar. — E daí? Ela faz tudo o que eu quero. A ruiva cruza as pernas, olhando para ele com desdém. — Não sei não... você exagera. E se ela se cansar de você? Pedro solta uma gargalhada alta, cheia de arrogância. — Cansar? Nunca. Se eu mandar a Tamara ajoelhar aqui e me adorar, ela adora. Aquela garota vive por mim. As palavras entram como facadas no meu peito. Minhas mãos tremem tanto que quase derrubo o balde. A loira estala a língua, soltando uma risada. — Deus me livre ser uma idiota desse nível. César entra na conversa, rindo alto: — Você lembra, Pedro? Quando você pediu para a Tamara organizar o aniversário daquela outra garota que você estava pegando? Ela preparou tudo. E ainda arrumou a suíte onde você passou a noite com a menina. Meu pulso lateja de tanta raiva. Aperto a garrafa de uísque com força. Pedro continua, destilando crueldade: — Eu estou falando! Ela faz qualquer negócio. Beija meus pés se eu pedir. Ficou toda boba achando que estava me ajudando, enquanto eu estava... Não aguento mais ouvir. Algo dentro de mim se quebra de forma definitiva. Avanço com fúria e jogo o balde com força no centro do camarote. O gelo voa para todos os lados, atingindo o grupo. Em seguida, arremesso a garrafa de uísque direto no chão. O vidro estoura em mil pedaços, espalhando bebida e um cheiro forte pelo piso. Todos travam, assustados. — Então é isso que você pensa de mim? — a pergunta sai da minha boca carregada de uma dor que eu não consigo mais esconder. Pedro se levanta devagar, com aquela postura nojenta e prepotente. — E eu estou mentindo? Você sempre correu atrás. É bom você baixar esse tom, porque se eu decidir te ignorar por um mês, você vai ficar chorando no meu pé. Como sempre faz. Olho para o chão por dois segundos, tentando encontrar forças para respirar. Quando levanto a cabeça para encarar Pedro, vejo o mesmo deboche de sempre. O homem que passei dez anos idealizando não passa de um egoísta mimado. — Escuta bem, Pedro — falo, e embora meu corpo inteiro treme, mantenho a postura firme. — Essa foi a última vez que cheguei perto de você. Acaba aqui. Até eu tenho limite. Ele solta um riso irônico, achando que é blefe. — Olha só, ficou corajosa agora? Está me testando? Se eu perder a paciência com você... Dou uma risada amarga, sentindo uma vergonha imensa de mim mesma. — Meu Deus... como eu fui cega. Dez anos, Pedro. Dez anos jogados no lixo acreditando que você valia alguma coisa. Dez anos que você tirou de mim. — Eu nunca te prometi nada, Tamara — ele rebate, na defensiva. — Você ficou correndo atrás porque quis. — Sim... — concordo em um sussurro. — Quem criou a ilusão fui eu. Mas você adorava alimentar esse joguinho para inflar seu ego. Só que o estoque acabou. Não quero ser sua amiga, não quero te ver, e muito menos quero nada que venha de você. Seu nojento… Pedro ergue o queixo, totalmente seguro de si. — Ah, conta outra. Daqui a meia hora você me liga chorando e pedindo desculpas. Você sempre faz isso. Uma onda de calor e revolta sobe pelo meu corpo. — Vai se foder, Pedro. Você acha mesmo que pode pisar nas pessoas para sempre e ninguém vai acordar? Pois se prepara. Eu acordei. E nunca mais na minha vida vou rastejar por você. Nunca mais. Espero que você não se arrependa das suas palavras cruéis essa noite. Você é um lixo de homem… Viro de costas antes que ele possa abrir a boca. Saio pisando fundo, atravessando a área VIP enquanto meu coração b**e dolorido, como se agulhas estivessem espetando meu peito a cada movimento. O amor sabe como destruir uma pessoa. Perdi uma década inteira correndo atrás de um homem que só sabia me diminuir. Dez anos que eu poderia ter sido feliz, vivido outras histórias e construído uma versão melhor de mim mesma. Mas acabou. A mulher que aceitava tudo de Pedro Albuquerque morre aqui. E a mulher que finalmente abre os olhos para a realidade assume o controle agora.






