༺ Tamara Silva ༻
A luz do sol cortava as cortinas de linho pesado com a precisão de uma lâmina, desenhando linhas douradas sobre o teto de gesso trabalhado. Eu não reconhecia aquele teto.
O aroma suave de um perfume amadeirado, caro e intimidadoramente masculino impregnava o ar, fixando-se na minha pele de um jeito que fazia meu peito contrair em um misto de torpor e pânico.
Tentei me mover. O lençol de seda egípcia deslizou pelo meu corpo nu, e o choque térmico do ambiente climatizado me trouxe de volta à realidade como um balde de água fria.
Eu estava sem nada. Sozinha em uma cama monumental.
Do outro lado da suíte, o som abafado da água ecoava atrás da porta de vidro fosco do banheiro. Havia alguém ali. Alguém que havia passado a noite comigo.
Levei os dedos trêmulos aos lábios, sentindo-os levemente inchados. Minha mente era um borrão caótico. Dez anos. Eu passei dez anos da minha vida orbitando Pedro, aceitando suas migalhas, alimentando uma obsessão doentia mascarada de amor, jurando que me guardaria para ele.
Mas bastou uma única noite de rejeição definitiva, um porre no bar de um hotel cinco estrelas e um par de olhos intensos para que toda aquela fortaleza de promessas vazias desmoronasse.
Fechei os olhos com força, tentando pescar os fragmentos da madrugada.
Luzes e o gosto amargo do gim. Uma risada rouca. Mãos firmes que me seguraram pela cintura antes que eu caísse do banquinho do bar. E depois... calor. Um calor avassalador, urgente, que havia apagado qualquer rastro de Pedro da minha mente.
O barulho da água cessou.
Vejo o vapor começou a escapar pela fresta da porta, e meu coração bateu contra as costelas, em um ritmo frenético. A silhueta imponente se moveu através da névoa.
Quando a porta se abriu por completo, o ar faltou nos meus pulmões.
Malik eu lembrava do nome dele. Mesmo com toda aquela ressaca de uma noite de bebedeira.
Ele vestia apenas uma toalha escura presa criticamente na altura dos quadris. A pele bronzeada contrastava com as linhas escuras de tatuagens abstratas que subiam pelo seu abdômen definido, sumindo no peitoral largo.
Não parecia um homem que acabou de acordar; mas uma força da natureza perfeitamente esculpida. Seu olhar azul cinzento, gélido e absurdamente focado fixou-se em mim. Um sorriso minimalista, quase imperceptível, ensaiou-se no canto de seus lábios.
— Bom dia — a voz dele era um barítono grave que vibrou direto na minha espinha. — Como se sente?
Limpei a garganta, segurando o lençol contra o peito como se fosse uma armadura barata.
— Bem. Um pouco... dolorida. Mas bem.
Malik caminhou com uma elegância predatória e natural. Ele não pediu licença. Sentou-se na borda do colchão, inclinando seu corpo na minha direção. O aroma de sabonete e do seu próprio magnetismo me encurralou.
Ele estendeu a mão, tocando meu rosto com o dorso dos dedos. O contraste de sua pele fria com as minhas bochechas em chamas me fez estremecer.
— Me desculpe se fui intenso demais — ele murmurou, os olhos escaneando cada milímetro das minhas reações. — A empolgação dominou os dois.
Flashbacks nítidos e violentos me atingiram: a boca dele na minha linha de cintura, meus dedos cravados em seus ombros largos, os sussurros dele no meu ouvido exigindo que eu esquecesse o resto do mundo. Eu tinha me entregado por inteiro a um desconhecido.
— Preciso... usar o banheiro — balbuciei, precisando urgentemente de espaço para respirar.
Recuei, tentando puxar o lençol comigo para me cobrir, mas o movimento brusco expôs o centro do colchão de linho claro.Uma mancha carmesim, perfeitamente nítida, manchava o tecido.
O tempo pareceu parar. Minha respiração travou na garganta, e uma onda de vergonha escaldante subiu pelo meu pescoço. Tentei cobrir a marca freneticamente, mas o olhar de Malik já havia descido até ali.
Seus olhos dele se estreitaram. A expressão impassível e enigmática vacilou por um milésimo de segundo, substituída por um lampejo de pura surpresa.
— Merda, Tamara... — ele soltou o ar devagar, sua voz descendo uma oitava. — Você era virgem?
— Não se preocupe com isso — interrompi rápido demais, entregando meu desespero. — A bebida ajudou. Eu nem... nem senti tanto. Está tudo bem.
Malik não recuou. Pelo contrário. Ele se aproximou ainda mais, segurando meu queixo com uma firmeza possessiva que me impediu de desviar os olhos. A intensidade do seu olhar era quase dolorosa.
— Não minta para mim — ele disse, com uma suavidade que contrastava com seu tamanho. — Prometo ser mais delicado na próxima vez.
Meu cérebro entrou em curto-circuito. “Próxima vez?”
— Não precisa fazer isso — reagi, tentando me desvencilhar de seu toque, com o orgulho ferido. — Não há necessidade de assumir nenhuma responsabilidade por mim. Sou adulta. Eu passei anos esperando por alguém que nunca me notou, Malik. Não vou me prender a você por causa de um erro ou por obrigação.
O silêncio dele foi pesado, quase palpável. Malik continuou segurando meu queixo, seus olhos sério nos meus, decifrando pensamentos que eu mesma mal compreendia. O canto de sua boca se elevou em um sorriso frio, carregado de um significado oculto.
— Você fala demais, Tamara. E tira conclusões erradas rápido demais.
— Do que você está falando? — perguntei, sentindo um arrepio na nuca. — Nós mal nos conhecemos.
Ele inclinou o rosto, aproximando os lábios da minha orelha. Sua respiração quente roçou minha pele.
— Você não me conhece — ele sussurrou, a voz enigmática enviando um comando silencioso para todo o meu corpo. — Mas eu conheço você. Há muito mais tempo do que você imagina.
Antes que eu pudesse processar a frase, Malik selou nossos lábios em um beijo breve, mas absurdamente dominante, que drenou qualquer capacidade de raciocínio que me restava. Ele se afastou com a mesma calma irritante, levantando-se da cama.
— Vá tomar seu banho. Vou pedir o café.
Me fechei no banheiro, apoiando as costas contra a porta trancada, tentando acalmar o ritmo cardíaco que parecia saído de controle. Olhei para o espelho. Minhas bochechas estavam coradas, meus olhos brilhavam de um jeito que eu nunca tinha visto antes.
Sob o chuveiro, a água quente caindo pelo meu corpo parecia reativar a memória de suas mãos. Eu estava assustada. Pela primeira vez em dez anos, Pedro não passava de uma sombra pálida e distante. Malik Stavani tinha ocupado todo o espaço.
Quando saí, vestindo um roupão de plush branco do hotel, encontrei o ambiente transformado. Uma mesa de centro exibia uma banquete impecável: frutas frescas, croissants e duas xícaras de café fumegando.
Malik já estava vestido. Calça de alfaiataria escura, camisa cinza com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os antebraços, revelando um relógio que custava mais do que tudo o que eu possuía.
Ele estava de pé junto à janela, olhando a paisagem da cidade, mas virou-se no instante em que meus pés descalços tocaram o tapete.
— Sente-se — ele comandou, puxando uma cadeira com elegância sutil. — Precisa comer.
Sentei-me em silêncio, o peso do olhar dele sobre mim tornando o ambiente denso. Cada movimento que eu fazia com os talheres parecia ser minuciosamente calculado por ele.
— Se continuar me olhando assim, vou acabar quebrando alguma coisa — confessei, tentando usar o sarcasmo para disfarçar o nervosismo.
Malik tomou um gole de seu café preto, os olhos cinzentos brilhando na penumbra.
— É um direito meu. A visão de você acordando na minha cama é algo que pretendo manter na memória por um bom tempo.
Engoli em seco, o calor subindo pelo meu rosto outra vez.
— Eu não sei como agir com você. Você fala como se existisse algo entre nós... alguma história que eu esqueci.
Malik permaneceu em silêncio por alguns instantes, levando a xícara de café aos lábios como se tivesse todo o tempo do mundo.
Eu, ao contrário, mal conseguia respirar.
— Malik... quem é você de verdade?
Ele não respondeu de imediato.
Seus olhos azuis permaneceram sobre mim, analisando cada pequena reação do meu rosto. Havia algo inquietante naquele olhar. Não era curiosidade. Era reconhecimento.
Ele apoiou a xícara sobre o pires com um leve som de porcelana.
— Essa pergunta ainda não é a mais importante.
Franzi a testa.
— Então qual é?
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— A pergunta certa é... por que o destino fez questão de cruzar nossos caminhos justamente ontem?
Meu coração acelerou.
— Você está falando em enigmas.
— Estou evitando estragar o momento.
O silêncio voltou a ocupar a suíte.
Tentei comer um pedaço do croissant, mas o nervosismo fechava minha garganta. Malik, por outro lado, parecia completamente à vontade, como se aquele café da manhã fosse apenas mais um entre muitos.
Aquilo me irritava.
— Você sempre age desse jeito?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Desse jeito como?
— Como se soubesse alguma coisa que ninguém mais sabe.
O sorriso dele aumentou apenas um pouco.
— Talvez eu saiba.
— Malik...
Ele levantou a mão, interrompendo-me com delicadeza.
— Não tenha pressa. Algumas respostas perdem o valor quando chegam cedo demais.
Respirei fundo, frustrada.
— Você está fazendo isso de propósito.
— Estou.
Pela primeira vez, ele admitiu sem rodeios.
Levantou-se da cama, caminhou até a janela e observou a cidade alguns segundos antes de voltar os olhos para mim.
— Só quero que você faça uma coisa.
— O quê?
— Pare de olhar para trás.
Fiquei imóvel.
— Porque, quando finalmente olhar para frente...
Ele sustentou meu olhar por um longo instante.
— Vai perceber que algumas pessoas estiveram muito mais perto de você do que jamais imaginou.
Meu coração disparou.
Antes que eu conseguisse perguntar qualquer coisa, o celular dele vibrou sobre o criado-mudo.
Malik olhou rapidamente para a tela. A expressão permaneceu impassível.
Bloqueou o aparelho sem atender.
Depois voltou a olhar para mim.
— Tome seu café, Tamara.
— Ainda temos muito tempo pela frente.
E foi nesse instante que percebi uma verdade inquietante.
Eu não fazia ideia de quem esse homem realmente era.
Mas, de alguma forma...
Ele parecia saber exatamente quem eu era desde muito antes daquela noite.