Mundo ficciónIniciar sesión༺ Tamara Silva ༻
Pela primeira vez em muitos anos, acordei sem pensar no Pedro. A sensação era estranha. Leve. Quase como se alguém tivesse arrancado um peso que eu carregava havia uma década. Algumas horas depois, eu estava embarcando no iate de Malik Stavani, deixando o hotel para trás enquanto a cidade desaparecia lentamente no horizonte. O mar brilhava tanto que parecia ter sido polido durante a madrugada... Sinto uma leveza que não experimentava há muito tempo, como se um peso enorme tivesse saído das minhas costas desde que deixamos o hotel. Escolhi um biquíni verde na loja do píer. O modelo destaca bem as minhas curvas, do jeito que eu sempre achei exagerado, até porque passei anos ouvindo que valorizar o meu próprio corpo era "vulgar". A antiga Tamara teria devolvido a peça para a arara na mesma hora e escolhido algo bem recatado. Hoje não. Hoje eu quero experimentar uma nova liberdade. Quando subo no barco, encontro o Malik conversando com o capitão. Ele veste uma camisa branca de um jeito bem despojado, mas logo a tira com um movimento calmo e seguro. Ele fica apenas com uma sunga escura que valoriza o corpo atlético, e o sol deixa a pele dele ainda mais bronzeada. O olhar dele percorre o meu corpo sem disfarçar. É um toque quente, mesmo de longe. — Você está maravilhosa — ele diz, com um sorriso que me dá um frio na barriga. Passo os dedos pela alça do biquíni, tentando disfarçar que estou sem jeito. — Que exagero. — Não é exagero, só estou dizendo a verdade — ele rebate, tranquilo. — Você está linda... e muito atraente. Solto uma risada. — Malik, você não existe. — Talvez — ele dá uma piscada provocante. — Mas sou irresistível. Ele se vira e pega duas taças de champanhe que um funcionário acabou de trazer. Chega perto com aquele charme natural dele, parecendo o dono do lugar. Ele me entrega uma das taças e brinda com a dele, fazendo o vidro estalar de leve. — Ao nosso dia. O champanhe desce gelado e refrescante. Caminhamos até a frente do barco, onde o vento b**e com mais força, fazendo a água do mar aberto brilhar. Sentar ali me dá uma sensação de poder incrível. — Você devia tirar uma foto — ele sugere. — Está deslumbrante. Entrego o meu celular para ele. — Tem razão. Tira uma foto minha. Ajeito a postura, dou uma leve empinada na coluna e deixo o cabelo cair de lado. Consigo sentir a atenção dele em cada detalhe da minha pose. Escuto o clique do aparelho. Pego o celular de volta para ver o resultado. Fico surpresa com o que vejo no visor. Eu não pareço em nada aquela garota que passou anos se diminuindo por causa de um cara que não valia nada. Eu pareço uma mulher cheia de vida. — Fiquei linda — comento, boba com a imagem. — Vou postar no I*******m. — Ótimo. Vou ser o primeiro a curtir — ele diz, chegando tão perto que o perfume dele se mistura com o meu. Ele me dá um beijo calmo, um gesto que parece o de um casal que já está junto há muito tempo. É rápido, mas deixa uma promessa no ar. Escolho a foto, mexo um pouco na luz e escrevo a legenda que vem direto do coração: “Se a vida te der limões, faça como eu: mude de rumo e comece a se amar em primeiro lugar.” Posto. O Malik olha para a tela com um sorriso de satisfação, como se estivesse assistindo a minha transformação de camarote. — Isso aí — ele fala baixinho. — Agora todo mundo vai ver a mulher incrível que você é. A mão dele segura a minha cintura, espalhando calor pela minha pele. O vento balança o meu cabelo. Pela primeira vez na vida, sinto que estou exatamente onde eu escolhi estar. E o dia está só começando. O vento suave b**e nos meus ombros enquanto o iate desliza pela água azul, parecendo que o mar está abrindo caminho para nós. As ondas refletem a luz do sol como se fossem diamantes espalhados. O cheiro da água salgada deixa tudo ainda mais real. Apoio o quadril no corrimão e fico olhando o Malik combinar a rota com o capitão. A postura dele chama atenção, uma elegância que ele não precisa fazer o menor esforço para ter. De repente, o meu celular vibra. Depois vibra de novo. E mais uma vez. As notificações começam a acumular na tela sem parar, brilhando direto no meu rosto. Continuo olhando para a água, fingindo que não estou ligando, até que o som de várias mensagens seguidas entrega o jogo. A Estela manda a primeira: “Olha só! O que está acontecendo por aí, amiga? De onde saiu esse biquíni maravilhoso?” A Célia manda logo em seguida: “Tá explicado por que sumiu! Estava escondendo esse corpo deusa, é? Minha nossa!” Dou um sorriso bobo e respondo no grupo delas: “Um novo recomeço exige novas mudanças, meninas!” O celular vibra outra vez. A tela acende. É o Pedro ligando. Respiro fundo e reviro os olhos. O toque insistente quebra o silêncio e o clima gostoso do barco. Eu não atendo. A ligação cai e ele começa a ligar de novo na mesma hora. Recuso a chamada sem pensar duas vezes. Malik caminha até mim. A sombra dele cobre os meus pés e ele apoia a mão no corrimão, bem do meu lado. — O telefone não para, hein? — Deixa tocar. — Pelo visto, tem alguém bem desesperado querendo falar com você. Dou de ombros. — O mundo pode cair. Não estou nem aí. Ele que se exploda. Malik fica me olhando e depois vira o rosto para o mar, parecendo entender tudo o que está acontecendo na minha cabeça. — Sabe... — ele começa, falando com calma — quem liga desse jeito está morrendo de ansiedade. E a ansiedade logo vira desespero. O desespero é o sinal de quem sabe que já perdeu. A frase b**e forte em mim. Perda. Sim, o Pedro me perdeu. E ele provavelmente nem entendeu isso ainda. Mas quando a ficha dele finalmente cair, vai ser tarde demais para qualquer arrependimento. O Malik continua com os olhos fixos no horizonte. — E quando a pessoa percebe o que perdeu, costuma agir sem pensar. Meu celular vibra de novo. Abro a tela e vejo uma enxurrada de mensagens do Pedro: “Você está me ignorando de verdade? Quem você pensa que é?” “Depois não vem atrás de mim pedindo desculpas.” “Vai continuar fingindo que não está vendo?” “Não gostei desse seu comportamento hoje.” “Estou te avisando: isso não vai terminar bem.” “Eu não vou deixar passar.” “Atende essa merda.” “Eu não vou te perdoar.” Começo a rir alto. É uma risada gostosa, cheia de alívio e libertação. Olho para a tela sabendo que aquele passado ridículo não me toca mais. — É inacreditável, não é? — comento, virando o celular para o Malik ver. — Parece um louco surtando sozinho. Ele lê as mensagens e muda a expressão, ficando sério. — Isso já passou do orgulho faz tempo, virou obsessão — ele diz, me devolvendo o aparelho com cuidado. — São palavras baixas, uma necessidade de controle disfarçada de orgulho. Isso aí é o sinal de um homem totalmente inseguro. — Inseguro é apelido — concordo, colocando a mão na cintura. — Passei anos achando que existia alguém que prestava por trás disso tudo. Que burrice a minha. — A burrice acaba quando a gente enxerga a verdade — o Malik responde, usando os dedos para colocar uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. — Depois que você acorda, não tem como voltar para o escuro. O jeito sincero dele falar mexe comigo. Fecho os olhos por um segundo, aproveitando o carinho. O celular vibra mais uma vez. Recuso de novo. — Vai ficar rejeitando tudo? — ele pergunta, achando graça. — Até ele cansar. Não vou responder nada. O Pedro que vá para o inferno. — Melhor assim. Caminhamos juntos até a parte da frente do iate. O sol esquenta a minha pele, deixando tudo dourado. O momento com o Malik está perfeito e nenhum fantasma do passado vai conseguir estragar isso.






