༺ Tamara Silva ༻
O mar brilha como se tivesse sido polido durante a madrugada, e o iate de Malik parece um cenário retirado de um filme luxuoso.
Aceitei o convite sem hesitar. Sinto a sensação de leveza me acompanha desde que deixamos o hotel, como se um ciclo inteiro tivesse finalmente se quebrado dentro de mim.
Escolhi um biquíni verde na loja do píer. O tom destaca minhas curvas de um modo que sempre achei exagerado, até porque ouvi tantas vezes que realçar meu próprio corpo era “vulgar”.
A antiga versão de mim teria devolvido o modelo na arara e optado por algo recatado. Hoje não. Hoje quero experimentar outra liberdade.
Quando subo a bordo, encontro Malik conversando com o capitão. A camisa branca cai sobre os ombros dele de maneira displicente, até que a retira com um movimento lento e seguro.
Fica apenas com uma sunga escura que valoriza o porte atlético, e o sol intensifica o bronzeado impecável.
O olhar percorre meu corpo sem qualquer constrangimento. É um toque quente, mesmo à distância.
— Você está maravilhosa — afirma com um sorriso que provoca um frio na boca do estômago.
Corro os dedos pela alça do biquíni e tento disfarçar o rubor.
— Que exagero — murmuro.
— Não exagero. Só digo a verdade — rebate com tranquilidade. — Está linda… e muito atraente.
Uma risada escapa de mim.
— Malik, você é terrível.
— Talvez — pisca de forma provocante. — Mas completamente irresistível.
Ele Vira-se e pega duas taças de champanhe que um dos funcionários acaba de trazer. Aproxima-se com um charme natural, como se controlasse a atmosfera ao redor. Estende uma das taças para mim e encosta a própria na minha, produzindo um leve tilintar.
— Ao nosso dia — comenta.
O champanhe desce suave, refrescante. Caminhamos até a proa, onde o vento sopra com força, cintilando sobre o mar aberto. Sentar ali me dá uma sensação de poder que nunca experimentei.
— Você deveria registrar isso — diz ele. — Está deslumbrante.
Pegou meu celular respondendo.
— Tem razão. Tire uma foto para mim.
Ajeito o corpo, arqueio um pouco a coluna, deixo o cabelo cair sobre os ombros. Posso sentir o olhar atento dele acompanhando cada detalhe da pose. O clique soa. Recupero o aparelho e observo o resultado.
O reflexo no visor me surpreende. Não pareço a garota que passou anos se diminuindo por alguém incapaz de me valorizar. Pareço alguém viva.
— Estou linda — comento, maravilhada. — Vou postar no meu I*******m.
— Ótimo. Serei o primeiro a curtir — afirma, aproximando-se até meu perfume misturar com o dele.
Um beijo pousa na minha boca com naturalidade, como se já fosse hábito de um casal que vivem anos juntos. O gesto é breve, mas a intensidade o transforma em promessa.
Seleciono a foto, ajusto a luz e escrevo a legenda que surge quase sozinha, como se meu coração quisesse se manifestar:
“Se a vida te der limões, então faça como eu: vá lá e prepare uma limonada me amando de agora em diante.”
Posto. Malik observa o gesto com um sorriso satisfeito, como se estivesse assistindo a minha metamorfose bem diante dos olhos.
— Assim — diz baixinho — todo mundo verá a mulher incrível que existe aqui.
Sua mão toca minha cintura. O calor se espalha pela pele. O vento agita meu cabelo. Pela primeira vez, sinto que pertenço exatamente ao lugar que escolhi estar.
E o dia apenas começou.
O vento suave toca meus ombros enquanto o iate desliza sobre a água azulada como se o mar abrisse caminho só para mim. As ondas refletem pontos de luz que piscam como diamantes espalhados pelos céus.
Quando o cheiro salgado envolve meus sentidos e deixa tudo ainda mais vívido. Apoio o quadril no corrimão e observo Malik conversando com o capitão sobre a rota. A postura imponente chama atenção; uma elegância natural que não se força em momento nenhum.
Um aviso vibra no meu celular surge. Depois outro. E mais outro. As notificações se acumulam como uma tempestade estranha.
A tela acende sem parar, e o brilho me cega por segundos. Sigo vendo a água cintilante, fingindo que não noto nada. Até que o som de várias mensagens explode de vez.
Estela manda o primeiro comentário.
“ Olha isso! O que está acontecendo por aí, meu amor? Esse biquíni saiu de onde?"
Célia entra em seguida:
“ Tá explicado por que sumiu! Até escondida nesse corpo maravilhoso, hein? Minha Nossa!”
Sorrio de leve e respondo abaixo.
“ Novo recomeçar exige novas mudanças, minhas gatas!”
O celular vibra de novo. A tela ilumina meu rosto.
Pedro chamando.
Revirei os olhos, o toque insistente invade o silêncio do barco, contrastando com o balanço tranquilo da água.
Não atendo.
A ligação cai; outra começa imediatamente.
Recuso sem nem olhar.
Malik se aproxima. A sombra dele se projeta sobre meus pés. A mão pousa suave no corrimão ao meu lado.
— O aparelho não descansa — diz com aquele sotaque leve e profundo que vibra no meu peito.
— Deixa tocar.
— Vejo que alguém tenta contato desesperadamente.
Dou de ombros.
— O mundo pode ruir. Nada disso me interessa. Ele que se exploda!
O olhar de Malik percorre meu rosto e depois desliza pelo mar, como se entendesse detalhes que ninguém mais vê.
— Sabe… — começa, usando uma pausa lenta — Quem liga sem parar carrega ansiedade dentro do peito. Ansiedade vira desespero. E desespero anuncia perda.
A frase me corta em algum lugar sensível.
Perda.
Sim.
Pedro me perdeu.
E talvez nem tenha notado ainda. Porém, quando a ficha dele cair será tarde para arrependimentos.
Malik mantém o olhar fixo no horizonte.
— E a pessoa que tenta se agarrar ao que perdeu costuma agir com impulsividade.
Meu celular vibra de novo.
Abro a tela.
Uma enxurrada de mensagens aparece:
“ Você realmente está me evitando? Quem você pensa que é?"
“ Depois não vem atrás de mim pedindo perdão.”
“Vai continuar fingindo que não me vê?”
“Não gostei do seu comportamento.”
“Estou avisando: isso não termina bem.”
“Não vou relevar.”
“Atenda.”
“Não vou te perdoar.”
Começo a rir. Me divertido, porém carregado de libertação. Aperto a tela com delicadeza, como se estivesse tocando um vidro que guarda um passado ridículo.
— Impressionante, não? — comento, entregando o celular para Malik ver. — Parece que alguém surtando sozinho.
Ele lê algumas notificações. O cenho se franze devagar.
— Isso ultrapassa o limite entre orgulho e obsessão — comenta, devolvendo o celular com cuidado. — Tom cuidadoso, palavras vulgares, necessidade de controle mascarada de importância própria. Sinal de insegurança colossal.
— Insegurança define bem — digo, apoiando a mão na cintura. — Passei anos acreditando que havia um homem digno dentro disso tudo. Tolice pura.
— Tolice acaba quando a verdade risca a superfície — responde Malik, afastando uma mecha do meu cabelo para trás da orelha. — Quando alguém desperta, não retorna para a escuridão.
A sinceridade dele toca profundamente. Fecho os olhos por um segundo, absorvendo aquele gesto tranquilo.
O celular vibra outra vez.
Recuso de novo.
— Vai rejeitar todas as mensagens? — pergunta com um sorriso sereno.
— Até cansar. Não pretendo responder nada. Pedro que se foda…
— Boa escolha.
Caminhamos até a parte frontal do iate. O sol aquece meus ombros e deixa a pele tingida de dourado. O momento está perfeito ao lado de Malik e nada vai estragar isso.