Saí do quarto antes que meu bom senso resolvesse tirar férias. Peguei a bolsa, o laptop e uma dignidade amassada, deixei Enzo plantado ao lado da mesa e caminhei até a porta. Ele não me segurou. Não dessa vez. Ainda senti o calor da mão dele na minha nuca, o quase-beijo nas bordas da boca, a frase que ficou reverberando nos meus ossos: eu lembro. Ótimo. Eu também lembrava. O problema era tudo o que vinha anexado a essa lembrança.
O corredor estava gelado e claro demais. Apertei o botão do elevador três vezes, porque repetir comandos assemelha-se a ter controle (mentira, mas meu cérebro aprecia ficções reconfortantes). Na recepção, respirei duas vezes e vesti minha voz de CEO.
— Boa noite. Preciso de outro quarto. Agora.
A recepcionista, solícita e pálida.
— Senhora Navarro, ontem houve um erro no sistema. Hoje… — pausa dramática, olhar na tela — tenho um single no 12º andar. Vista para o parque. Se a senhora não se importar com… — empurrou discretamente um cartão de acesso — …um upgra