— Calma — digo, baixo, instintivo, como se o direito de a proteger jamais tivesse me sido tirado.
Ela respira fundo, a outra mão indo direto para a barriga, como um escudo. O tecido do vestido sobe um pouco no movimento. A visão da vulnerabilidade dela me desmonta.
— Foi só a caixa — ela murmura, a voz ainda embargada. — Esqueci que ainda estava aí.
A caixa aberta no chão. Coisas do bebê. As roupinhas lavadas e para guardar. E com certeza ela quer fazer essa tarefa sozinha.
— Você não chegou a cair — digo, constatando o fato.
— Não. Graças a Deus — ela confirma. — Mas quase.
Ainda estou segurando o braço dela.
Percebo tarde demais.
Ela também percebe.
O toque que deveria durar segundos se prolonga, carregado de meses de silêncio. Meu polegar sente a pele quente. Viva. Real. O braço dela é mais forte do que eu lembrava. Ou talvez eu é que tenha esquecido como era segurar algo que realmente importa.
— Ricardo… — ela começa, mas a frase se desfaz em sua garganta.
O bebê se mexe.
Dessa ve