Gentileza

Chego ao final do expediente, já escurecendo lá fora. Estou terminando de guardar os materiais de limpeza quando ouço passos no corredor. Levanto o olhar e vejo o senhor Albert Whinches se aproximando. Ele parece diferente: os ombros ligeiramente curvados, uma mão no bolso e o olhar um pouco evasivo. Para na porta da sala de serviço e fala com voz mais baixa que o normal, quase tímida.

— Ana… você pode por favor limpar a mesa da minha sala? Sem querer derramei whisky nela.

Fico surpresa com o “por favor” e com o tom. É a primeira vez que ele fala comigo assim.

— Sim, senhor. Vou agora.

Caminhamos juntos pelo corredor silencioso até o escritório dele. Entro atrás dele. A mesa grande de carvalho tem uma mancha escura e úmida de whisky, com o copo vazio ao lado. O cheiro suave da bebida ainda paira no ar. Ele fica de lado, observando enquanto pego o pano apropriado e o spray de limpeza.

Começo a limpar com movimentos circulares, removendo o líquido com cuidado para não danificar a madeira. Ele não sai do lugar. Depois de um momento, fala baixinho:

— Foi um dia longo.

— Sim, foi — respondo, sem parar o que estou fazendo. — A madeira absorveu um pouco, mas está saindo.

Ele assente lentamente, cruzando os braços.

— Você trabalha bem quando não está… nervosa.

Levanto o olhar por um segundo e continuo:

— Tento fazer o melhor possível, senhor.

O silêncio volta por alguns instantes. Termino de limpar, seco a superfície com um pano seco e passo a mão para verificar se ficou lisa. A atmosfera na sala está estranha, mais leve que o habitual. Ele parece querer dizer algo, mas mantém poucas palavras.

— Pronto — digo, dobrando o pano. — Mais alguma coisa, senhor?

Ele me olha diretamente por um momento. Seus olhos verdes parecem menos frios que de costume.

— Não, obrigado.

Agradeço com um aceno curto de cabeça, pego os materiais e me viro para sair. É estranho ouvir “obrigado” dele. A primeira vez em três dias. Sinto um leve calor no rosto ao caminhar pelo corredor de volta para a área de serviço. Guardo tudo, troco de roupa e saio da mansão carregando essa sensação nova e confusa. O dia terminou de forma inesperada. Entro no carro velho e dirijo para casa, pensando na mudança repentina no tom dele.

...

Chego ao estacionamento lateral da mansão já tarde da noite. O ar está mais fresco e silencioso. Entro no meu carro velho, giro a chave e… nada. O motor faz um clique fraco e morre. Tento de novo. Clique. Clique. Nada.

— Porra! — grito, batendo as mãos no volante. — Seu lixo desgraçado, agora não? Logo hoje?

Saio do carro batendo a porta com força. Chuto o pneu da frente várias vezes, sentindo a raiva subir.

— Caralho! Filho da puta! Eu te consertei semana passada, sua merda!

Abro o capô com um puxão raivoso e chuto o motor, o radiador, tudo que vejo pela frente. Dou mais um chute na roda traseira, xingando baixo e alto, o suor escorrendo na testa apesar do frio.

— Vai tomar no cu! Lixo do caralho!

Estou ofegante, com as mãos na cintura, quando ouço passos atrás de mim. Viro e vejo Albert Whinches se aproximando, ainda de camisa social, mas sem gravata.

— O que está acontecendo? — pergunta ele, olhando o capô aberto e meu estado.

— Esse lixo do carro resolveu parar de pegar justo agora — respondo, ainda irritada, limpando as mãos na calça. — Desculpe o barulho.

Ele observa o carro por um momento.

— Quer que eu te deixe em casa?

— Não precisa se incomodar, senhor. Vou pedir um táxi.

— Está tarde — diz ele, calmamente. — Posso te levar. Espere aqui.

Ele volta para dentro e, poucos minutos depois, sai dirigindo um Mercedes-Benz S-Class preto, elegante, com linhas suaves e faróis que cortam a escuridão. O carro brilha sob as luzes do jardim. Entro no banco do passageiro, sentindo o couro macio e o cheiro de carro novo. Fecho a porta com cuidado.

— Obrigada! — murmuro.

Ele assente e começa a dirigir. O motor ronca baixo e suave. Saímos pelos portões e pegamos a estrada em direção ao meu bairro.

No começo o silêncio é leve. Depois ele puxa conversa, o tom baixo e natural.

— Você mora longe?

— Não muito. No Queens.

Ele faz uma curva suave.

— E a faculdade? Lívia comentou que você estuda medicina.

— Sim. Estou no último ano. Acabei de entregar o TCC. Foi por isso que aceitei o emprego de verão, para pagar as últimas parcelas. Meus pais morreram há alguns anos, então sou só eu mesma. Lívia é praticamente minha família.

Ele escuta atentamente, olhando para a frente.

— Deve ser difícil conciliar tudo.

— É. Às vezes cansativo. Mas vale a pena. E o senhor? Trabalha até tarde sempre?

— Quase sempre — responde ele, com um leve sorriso de lado. — O trabalho não acaba. Mas hoje… resolvi parar mais cedo.

O silêncio volta, mas não é desconfortável. Ele pergunta mais coisas simples e eu respondo com sinceridade.

— O que você quer fazer depois da faculdade?

— Quero trabalhar em um hospital bom, talvez pediatria. Gosto de crianças. E você? Sempre foi… isso tudo? — pergunto, gesticulando levemente para o carro luxuoso.

Ele ri baixinho, um som raro.

— Nem sempre. Comecei do zero, mas demorou. Agora é só manter as coisas funcionando.

Conversamos mais um pouco sobre coisas leves: o trânsito de Nova York, uma música que toca baixinho no rádio, e ele me conta brevemente que gosta de ler à noite para desligar a cabeça. Sinto uma química tranquila, natural, sem forçar. Ele é educado, ouve de verdade e responde com poucas palavras, mas atentas.

Chegamos ao meu bairro simples, com prédios mais antigos, ruas estreitas e luzes amareladas. Paro em frente ao meu prédio de quatro andares, com fachada desgastada.

— É aqui — digo, apontando. — Obrigada pela carona, senhor. De verdade.

— Albert — corrige ele, baixinho. — E de nada.

Saio do carro, fecho a porta com cuidado e entro no prédio.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP