Precisamos conversar

No final de semana seguinte, Cláudio aparece lá em casa com uma sacola cheia de carne. Lívia e eu já tínhamos comprado carvão, cerveja gelada e salada. Montamos um churrasquinho improvisado na pequena área externa do prédio.

Cláudio liga o som no volume máximo, tocando funk e sertanejo misturado. O cheiro de carne na grelha sobe rápido.

— Olha só esse cheiro! — diz Cláudio, virando as carnes com orgulho. — Isso aqui é churrasco raiz, não aquela coisa gourmet que o seu patrão bilionário deve comer.

— Nem me fala do bilionário — respondo, rindo enquanto abro uma cerveja. — Tô tentando esquecer ele esse final de semana.

Lívia dança ao som da música, já de short e chinelo.

— Esquecer nada! Ele tá na sua cabeça 24 horas por dia. Ontem você até falou o nome dele dormindo.

— Mentira sua! — grito, jogando um pedaço de pão nela.

Cláudio ri alto.

— Caralho, Ana. Você tá apaixonada pelo patrão? Isso é filme da Sessão da Tarde.

— Não tô apaixonada! O homem quase me beijou essa semana. Completamente doido.

Cláudio quase derruba a pinça.

— Sério isso?! E você ainda tá aqui com a gente? Vai lá tomar uma surra de rico, vai!

Nós três caímos na gargalhada. Lívia pega o celular e tira uma foto nossa: eu com uma cerveja na mão, Cláudio fazendo careta com a espátula e Lívia no meio fazendo coração com as mãos. Ela posta no I*******m e me marca.

Não passa nem cinco minutos e meu celular vibra. Mensagem de Albert:

**Albert:** Quem é o cara da foto?

Respondo rápido:

**Eu:** Não é da sua conta.

Ele digita e responde quase imediatamente:

**Albert:** Não gostei do seu tom.

Sorrio e respondo:

**Eu:** Que pena. Estou ocupada.

Bloqueio a tela e volto para o churrasco. Não dou a mínima.

— Era ele, né? — pergunta Lívia, rindo.

— Era. Perguntou quem era o Cláudio. Mandei ele pastar.

Cláudio levanta a cerveja:

— Esse é o espírito! Hoje é dia de pobre se divertir. Nada de rico controlando.

Comemos, bebemos, cantamos alto junto com o som. Cláudio imita Albert com voz grossa:

— “Ana, você deixou uma marca de dedo no lustre. Isso é inaceitável.”

Lívia entra na brincadeira:

— E você: “Desculpe, senhor. Vou lamber até ficar brilhando!”

Caímos na gargalhada de novo. Dançamos, contamos histórias ridículas da faculdade e da oficina, e rimos até a barriga doer. O churrasco dura horas. É simples, bagunçado, barulhento e perfeito.

Já é quase meia-noite quando ouço batidas firmes na porta do apartamento. Abro, ainda rindo de algo que Cláudio falou, e congelo.

Albert Whinches está parado no corredor, sério, vestindo camisa escura e calça jeans.

— Como meu porteiro te deixou entrar? — pergunto, surpresa.

Ele entra sem esperar convite, fechando a porta atrás de si.

— Chantageei ele com dinheiro.

Fico parada, sem reação. Do sofá, Lívia e Cláudio olham a cena boquiabertos.

Albert olha ao redor, vendo as latas de cerveja, os pratos sujos e o som ainda tocando baixo. Depois volta o olhar para mim.

— Precisamos conversar.

Albert fica parado no meio da sala, olhando para mim com uma intensidade que me desestabiliza. Lívia e Cláudio percebem a tensão e rapidamente se levantam.

— Vamos dar um passeio lá embaixo — diz Lívia, puxando Cláudio pelo braço. Eles saem e fecham a porta, nos deixando sozinhos.

Albert passa a mão no cabelo, visivelmente desconfortável, como se não soubesse muito bem o que fazer com as próprias emoções.

— Eu não sei explicar direito isso… — começa ele, a voz baixa. — Mas não gostei de te ver com outro homem naquela foto. Não gostei nem um pouco.

Olho para ele, ainda com o cheiro de churrasco nas roupas.

— Mas quem disse que isso é problema meu?

Ele dá um passo à frente.

— Ana. Toda vez que eu me aproximo, você foge. Me deixa confuso pra caralho. Você mexe com meus sentimentos de um jeito que ninguém nunca mexeu. Eu não consigo parar de pensar em você. Isso nunca aconteceu comigo antes.

Fico em silêncio por um momento, absorvendo as palavras. Balanço a cabeça.

— Entendo o que você sente, Albert. Ou pelo menos acho que entendo. Mas não acredito. E coloca na sua cabeça: eu não vou ser só mais uma que você leva pra cama e esquece no dia seguinte. Eu não sou assim.

Ele me olha fixamente, como se tentasse ler minha expressão.

— Por que não pode ser assim? — pergunta, a voz mais baixa. — O que te impede?

— Porque eu me respeito e não quero ser feita de marmita. — respondo com firmeza. — Porque já perdi muita coisa na vida e não vou perder minha dignidade por causa de um homem que nunca se envolveu de verdade com ninguém. Eu mereço mais que uma noite.

Albert fica quieto. Ele me observa por longos segundos, como se estivesse processando cada palavra. Depois suspira e passa a mão no rosto.

— Tudo bem — diz ele, finalmente. — Eu vou embora.

Ele caminha até a porta, para por um instante como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas desiste. Abre a porta e sai sem olhar para trás.

Fecho a porta atrás dele e encosto a testa na madeira, respirando fundo. Meu coração ainda está acelerado.

Minutos depois, Lívia e Cláudio voltam. Assim que entro na sala, Lívia já começa:

— E aí? Ele veio cobrar exclusividade ou o quê?

— Quase isso — respondo, caindo no sofá. — Disse que não gostou de me ver com outro homem e que eu mexo com os sentimentos dele. Eu falei que não vou ser só mais uma na lista dele.

Cláudio assobia.

— Caralho. O homem veio até aqui, de madrugada, pra confessar isso? Isso aí já tá fora da curva dele.

Lívia ri.

— E você mandou ele embora mesmo assim? Orgulho nível hard. Tô orgulhosa.

— Tô tremendo até agora — admito, rindo nervosa. — Mas não vou ceder fácil. Sujeito abusado, todo dia come uma mulher diferente e agora quer até a empregada.

Ficamos os três conversando mais um pouco sobre a cena surreal que acabou de acontecer.

...

No dia seguinte, a senhora Hargrove está de folga, foi visitar a família no interior. Albert contratou uma nova empregada chamada Sofia para ajudar temporariamente. Ela é simpática, tem uns 28 anos e está claramente nervosa no primeiro dia.

Passo a manhã ensinando o básico para ela: como organizar a prataria, o jeito certo de limpar os vidros sem deixar marca, e as regras da casa. Conversamos bastante enquanto trabalhamos. Ela me conta que precisa do emprego para pagar as contas do filho pequeno. Eu conto um pouco sobre a faculdade. O dia está mais leve com a governanta ausente.

No final do expediente, Sofia some de repente. Estou terminando de guardar os materiais quando escuto gemidos altos vindos do escritório de Albert. Altos demais. Escandalosos.

Fico constrangida, olhando para os lados para ter certeza de que ninguém mais está vendo. Não me controlo: pego o celular, entro no escritório de serviço e gravo uns 15 segundos do barulho (os gemidos estão bem claros). Mando direto no grupo com Lívia e Cláudio.

**Eu:** [vídeo gravado]

Não demora nem um minuto para as respostas chegarem:

**Lívia:** KKKKKKKKKK MEU DEUS ANA, ISSO É O ALBERT??? A MULHER TÁ PARECENDO QUE TÁ PARINDO!!!

**Cláudio:** Caralho, parece que ele tá operando uma furadeira lá dentro. O homem não tem piedade da mobília não?

**Lívia:** A nova empregada já foi pro abate no primeiro dia kkkkkkkk coitada da menina, deve tá achando que ganhou na loteria

**Cláudio:** Ele já tá pegando a empregada recém-contratada, o cara é uma máquina. Respeito total. O pau dele deve ter vida própria, juro.

**Lívia:** “Bem-vinda à mansão, Sofia. Aqui o bônus é diferente” KKKKKKK

Não me controlo. Começo a rir sozinha no corredor, tentando abafar o som com a mão. Bloqueio a tela do celular e volto a trabalhar, ainda com o riso preso na garganta.

De repente, Albert aparece no corredor. Ele me olha sério, com a expressão fechada.

— Ana, sobe até minha sala.

Sigo ele em silêncio. Quando entro no escritório, o cheiro de sexo está forte no ar. Ele aponta para a mesa e o sofá.

— Limpe aqui.

Ele sai logo em seguida, me deixando sozinha. Assim que a porta fecha, não consigo me segurar:

— Nossa, que fedor… — murmuro alto o suficiente para que ele ouça se ainda estiver perto.

Começo a limpar a sala, abrindo as janelas para arejar. Balanço a cabeça, ainda achando graça da situação toda, mas com uma pontinha de irritação no peito.

A nova empregada sai do banheiro do corredor um tempo depois, ajustando a blusa e o cabelo, com o rosto vermelho. Ela me vê e desvia o olhar, envergonhada.

Suspiro e continuo meu trabalho, pensando que a mansão nunca deixa de ser um circo.

Ele usa o mesmo discurso que usou comigo com todas as outras.

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