Mundo de ficçãoIniciar sessãoAos 24 anos, Hazel Brooks acabou de queimar os navios do seu próprio passado. Sem rumo após abandonar a faculdade de literatura, ela busca um recomeço na charmosa e histórica cidade de Jim Thorpe, na Pensilvânia, onde herdou a Lumen Books — a decadente e poética livraria vitoriana de sua falecida tia Vivienne. Mas o que parecia um refúgio logo se revela uma bomba-relógio: a herança carrega uma dívida avassaladora prestes a vencer e um inquilino temporário que ela nunca concordou em abrigar. Julian Vance Black é o escritor mais lido da atualidade. Escondido sob as iniciais J. V. Black, ele se sente uma farsa sufocada pelo próprio sucesso comercial. Enfrentando o pior bloqueio criativo de sua carreira e fugindo dos holofotes, ele se isola no andar superior da livraria. O silêncio que ele tanto procurava é quebrado pela chegada de Hazel, que não faz a menor ideia de quem ele é. Obrigados a dividir o mesmo teto em meio à poeira de livros esquecidos, a antipatia mútua e uma eletricidade inegável começam a ditar as regras. Porém, quando uma misteriosa chave deixada no testamento de Vivienne abre um segredo que conecta o passado de Julian ao destino da livraria, os dois percebem que estão presos a uma história muito mais perigosa do que qualquer ficção.
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Já era a quarta ligação que eu recusara. Minha mãe provavelmente não iria parar de ligar até que eu desse alguma satisfação, mas sinceramente não estou com cabeça para falar com ela agora. O momento é, na verdade, perfeito. O fato de que acabo de chegar numa cidade nova, onde ninguém me conhece, me obriga a ficar no anonimato. A essas alturas, ou minha mãe pensa que eu sumi em algum bar perto da faculdade, ou já leu a carta que escrevi, e quer saber o que tenho na cabeça pra deixar tudo pra trás, e vir viver meu sonho.
Concordo que viver meu sonho talvez seja um exagero, mas não deixa de ser um começo. Às vezes a maior distância entre nós e nossos sonhos é um único primeiro passo, dado sem pensar. Quando finalmente comecei na faculdade de literatura, depois de alguns anos longe de uma sala de aula, eu pude ver minha vida inteira, se desenhando diante dos meus olhos… Estudos, bolsas e programas literários, o primeiro livro publicado antes do diploma. Porém a realidade não foi tão gentil. Quando minha bolsa parou de cobrir os custos com livros, alimentação, transporte e tive que me humilhar para pedir a minha mãe, tudo desandou.
Minha mãe não é uma pessoa ruim, é só, tradicional demais. Ela não acredita nesse negócio de ser escritora e conseguir reconhecimento, dinheiro, uma vida estável. Para ela, isso não é profissão, é apenas um sonho bobo que não me levará a lugar nenhum. Só que todos nós temos limites, e nessa bola de neve de dívidas, brigas e pressão acadêmica, posso dizer que encontrei a válvula de escape perfeita. Por mais estranho que isso possa parecer, dos cinco irmãos que minha mãe tem, eu sou a única neta na família. Talvez fosse algo genético, e meu avô ter trabalhado numa fábrica de cigarros por muitos anos colocou um certo limite na família Brooks, mas ser a única herdeira numa família, mesmo que seu patrimônio seja consideravelmente pouco, ainda é uma grande vantagem. Sempre fui paparicada por meus tios, principalmente pela tia Vivienne, a única que era tão apaixonada por livros quanto eu.
Ela se mudou para um distrito pequeno da Pensilvânia chamado Jim Thorpe, onde abriu a própria livraria e viveu até o último de seus dias cercada pelo seu grande amor. Quando ela foi encontrada morta em seu apartamento pensei que não fosse aguentar tanta tristeza, minha tia favorita, minha única parente que me entendia, se foi para sempre. Estaria mentindo se dissesse que não esperava herdar a livraria carinhosamente chamada de Brooks and Books, só não esperava que fosse tão cedo, no auge dos meus 24 anos.
A ideia fervilhou na minha mente por muitos dias, e depois do que minha mãe me disse, na última sexta feira, decidi fazer o que é provavelmente a maior loucura da minha vida. E cá estou eu, como a tia Vivienne. Cidade nova, novas expectativas, novos medos, me deixando levar pela emoção do desconhecido e de um futuro que posso ou não conquistar. Trago comigo somente três malas, alguns livros na mochila e o testamento que confirma que a livraria e o pequeno apartamento em cima dela, agora pertencem a mim.
A sensação que a cidade me passava é que a cidade havia parado no tempo. Tudo nela era aconchegante, parecia que eu havia acabado de voltar para o século XX. É o tipo de lugar onde apesar do turismo, todos se conhecem, você pode ir para qualquer lugar sem precisar de um táxi, e definitivamente qualquer aspirante a escritor morreria para morar num lugar como aquele. A estação ferroviária no centro da cidade estava agitada, e ainda que não fosse pouco mais que quatro horas, o sol já começava a se esconder.
Recolhi minha bagagem e procurei a cafeteria mais próxima. Não tinha fome, apenas queria organizar as ideias. Encontrei um Pub e pedi uma água com gás. retirei meu diário pessoal da mochila e procurei pelas anotações que fizera da cidade, pelo que pesquisei. O endereço do apartamento era: Apartamento 73 ー Broadway, Jim Thorpe, PA 18229. Pesquisei no G****e Maps e eu estava a incríveis 500 metros da minha nova casa. Aquilo me tranquilizou, eu pedi uma cerveja e pude observar o Pub ficar movimentado aos poucos, típico de um domingo.
Conferi minha conta bancária e tenho pouco mais de 300 dólares. Incluindo as contas mensais que logo vão chegar, alimentação e uma possível pequena reforma na livraria, esse dinheiro é praticamente nada. Jim Thorpe é maravilhosa, mas é uma cidade turística, o custo de vida aqui é altíssimo, mesmo sendo um lugar pacato. Eu não tenho ideia de como tocar um negócio de livros, tudo que fiz até hoje foi somente ler e escrever uma ou outra ideia para futuros livros. Não quero me enganar, estou ferrada, talvez essa mudança tenha sido uma completa loucura.
Fecho os olhos e bebo até a metade da minha cerveja. Não é hora de ter medo, nem de me desesperar. Já estou aqui. As coisas já estão acontecendo. Amanhã cedo já começo a trabalhar na livraria, e provavelmente terei no apartamento tudo que preciso, exceto comida. Olho para meu caderno com o endereço e uma foto do lugar e penso em escrever alguma coisa, registrar esse momento, esse dia, essa nova vida. Mas nada me vem à mente, cansaço talvez, muita coisa para um dia só. Meu celular toca e vejo que é mais uma chamada da minha mãe. Espero até cair na caixa postal e enviar uma mensagem: Depois conversamos, mas não se preocupe, eu estou bem! E desligo o celular. Aquela era uma mentira deslavada, não estou exatamente bem, mas não quero falar com ninguém sobre isso, principalmente minha mãe.
A melhor coisa que posso fazer agora é ir pra casa, tomar um bom banho e quem sabe planejar o dia de amanhã. Posso pedir uma pizza e tomar um vinho enquanto faço isso. E viver um dia de cada vez. Sempre dei um jeito, pra tudo, agora não será diferente. Pago a conta e rumo ao meu novo endereço. No caminho encontrei uma loja de conveniência e decidi comprar a pizza e o vinho ali mesmo. Um absurdo o preço, mas preciso comer, infelizmente para mim, meu dia não acabou.
Tento observar o máximo que posso da cidade. Mesmo estando no outono, já posso sentir o ar gelado. Regiões montanhosas sempre são mais frias, e eu até que gosto, por sorte, já vim preparada para esse clima. Um morro alto me espera para poder chegar no centro, e enfim, casa. Olho para cima e vejo a imponente Asa Packer Mansion, uma mansão vitoriana gigante que fica no topo da colina, vigiando a cidade inteira lá de cima como um fantasma do passado industrial. Parecia que eu estava num sonho. Um sonho aterrorizante, mas lindo, do tipo que nunca sonhei.
Confiro a foto no caderno, olho para rua. Finalmente cheguei. A essas alturas o cansaço começa a bater, depois de um morro desses carregando três malas. Tento olhar para dentro da livraria, mas é um verdadeiro breu, tudo que posso observar é a silhueta de um caixa perto da janela, e inúmeras estantes de livros, se escondendo no escuro ainda mais escuro. O apartamento fica no segundo andar. Só preciso subir mais dois lances de escadas então: Banho. Vinho. Pizza. Banho. Vinho. Pizza. Esse era o meu mantra até finalmente chegar no número 73 escrito na porta. Havia uma luz fraca vindo pela fresta da porta, mas talvez só fosse uma janela aberta. Ainda não eram 17H30 e o sol mal havia dado lugar para a lua.
Enfio a chave na maçaneta, abro com cuidado e observo. O apartamento não era grande, não era luxuoso, mas era perfeito. A sala era composta por um sofá em couro escuro, com um tapete e uma mesinha de centro, uma pequena estante com uma TV antiga que provavelmente nem funciona mais. Algumas plantas mortas, uma estante com um metro de altura e um aquário vazio em cima, cheia de livros embaixo. Uma poltrona fechava o ambiente. E quadros, muitos quadros, minha tia era, definitivamente, uma amante da arte.
Havia ainda um corredor que dava acesso ao banheiro, o quarto principal, uma outra porta que eu não sabia que cômodo era, e a cozinha. Lar doce lar. Coloco minhas malas na sala e tranco a porta. Decido ir na cozinha colocar o vinho na geladeira e a pizza no congelador, e o mais estranho era que o fogão estava aceso, com uma água fervendo. Observo aquilo sem entender e, levando provavelmente o maior susto da minha vida, um homem pouco mais velho que eu, de um metro e oitenta e cabelos escuros me olha com uma expressão séria, de quem notoriamente está incomodado.
ー Quem é você? ー O homem me pergunta, e a única coisa que consigo pensar, além do fato dele ser lindo, é que eu o conheço, de algum lugar.
Julian Entro no apartamento e vou direto para o banheiro, abri o chuveiro e entrei, de roupa de tudo. Não sei se pensei que a água seria capaz de limpar meus sentimentos, mas a verdade é que quase me fez bem. Quase. Nunca acreditei que isso fosse possível, a não ser em filme, mas eu conseguia ouvir a voz de Hazel como se ela estivesse no banheiro comigo, me dizendo todas as verdades que eu acreditei que fosse capaz de fugir, principalmente aqui em Jim Thorpe. O tempo que fiquei embaixo do chuveiro como um verdadeiro maluco eu não sei dizer. Pareceu minutos, mas pode ter sido horas, ou o inverso. Retiro minhas roupas e aproveito para tomar um banho de verdade. A voz de Hazel ainda se fazia presente em mim. É difícil ignorar algo que você sabe ser a verdade, ainda mais quando ela é dita sob a perspectiva de outra pessoa. É claro que eu sei que meus livros não passam de um apelo comercial, assim como tudo em mim. O primeiro livro que escrevi e que me fez ser publicado era exatamente c
Hazel A última coisa que me faltava era aquele homem daquele tamanho ser fã de romances juvenis e eu ter ofendido o ídolo dele. Julian ainda estava de costas para mim, mas era possível sentir a tensão no ar, como se ele estivesse prestes a me dizer a coisa mais importante, ou a coisa mais estúpida. ー Vocês, acadêmicos, são todos iguais. Estudam algo por uns meses e já acreditam ser doutores no assunto. Mas sabe, ninguém nem imagina como é de verdade a indústria literária, tem-se a ilusão de que ela, por se tratar de um dos maiores objetos de cultura da humanidade, é, de alguma forma, menos capitalista. ー Ele desabafa, ainda de costas para mim. ー Mas do que é que você está falando? ー Com licença. ー Julian diz, pega uma caixa qualquer que estava em cima da mesa e passa por mim, sem nem me olhar nos olhos. Porque minhas palavras o deixaram tão chateado? Será que ele queria ser escritor e acabou ficando frustrado por não conseguir? Ou conhece J. V. Black? Afinal, quem é o Julian? E p
Julian Pequena parte de mim quer rir nesse momento. A mesma moça que há menos de uma hora jogou todo o café fora num ato de rebeldia e infantilidade, é a mesma que agora está gritando e verdadeiramente assustada. Meu primeiro pensamento foi protegê-la, seja lá do que. Então eu a erguei, e nossos rostos estão próximos. Próximos demais. Ela é tão bonita, seus olhos parecem esconder uma história que caberia em muitos livros, e que vai muito além de uma menina impulsiva. ー Está tudo bem? ー No momento em que perguntei, seus olhos se umedeceram. Ela está fazendo um esforço muito grande para não chorar. Delicadamente eu a coloco no chão, e vou até o corredor de onde ela veio, mas não encontro nada, provavelmente foi uma aranha ou um rato. Quando voltei, ela está no exato lugar que eu a deixei. Coloco a mão em seu ombro, e ela me olha. Seus olhos ainda estão úmidos e ela parece uma criança que precisa de colo. ー Você ainda não comeu. Vem, vamos tomar o café lá em cima, aqui está com um che
Hazel Foda-se a minha fome. Foda-se a pizza. Foda-se o planejamento de amanhã. Foda-se tudo! Não posso dizer que eu tinha certeza absoluta de que minha vida seria um conto de fadas. Mas dormir num quartinho que mais é um escritório dentro da minha própria casa, também já é demais. Eu perdi completamente a vontade de fazer qualquer coisa, pois até o momento, absolutamente nada saiu como eu planejei, e a pior parte é saber que não posso fazer nada para mudar, pelo menos não agora. Tudo que eu posso fazer é descansar, ou tentar pelo menos. Não sei se meus pensamentos vão desacelerar. Ouço Julian trancar a porta do quarto no fim do corredor e volto até a sala para pegar minhas malas. Minha cama, se é que posso chamar assim, não tem nem lençol, e eu sequer lembrei de trazer algum. Ótima primeira noite. E tudo ainda fica melhor quando lembro que Julian vai dormir feito um lorde na minha cama, da minha casa! Ele é tão estranho. Tão arrogante. Tão bonito… Não não, só estranho e arrogante.
Último capítulo