Ele não é tão demoníaco assim

Acordo com batidas na porta do apartamento. Olho o relógio: sete e quinze. Visto uma roupa rápida e abro. Um homem de macacão azul, com o logo de uma oficina, está parado ao lado do meu carro, que agora parece bem mais apresentável.

— Bom dia. O senhor Whinches mandou rebocar e consertar ontem à noite. Está tudo em ordem. Só preciso que assine aqui.

Assino o papel, surpresa e aliviada. Entro no carro, giro a chave e o motor liga suave, sem aqueles cliques ruins. Dirijo até a mansão me sentindo mais leve. O carro responde bem melhor, o som está mais limpo e não treme tanto.

Chego pontualmente e a senhora Hargrove já tem uma lista extensa: limpar os vidros da estufa, trocar todas as toalhas dos banheiros, organizar a despensa e aspirar todos os tapetes do andar de cima. Começo o trabalho logo cedo.

Por volta das nove horas, Albert chega mais cedo que o normal. Ele passa pelo corredor vestindo roupa de treino e vai direto para a academia particular no final da ala leste. Minutos depois, enquanto arrumo um vaso no corredor próximo, a porta da academia fica entreaberta. Não consigo evitar olhar. Ele treina sem camisa, músculos bem definidos nos ombros, braços e abdômen marcado pelo esforço. O corpo dele é perfeito, forte e proporcional, brilhando levemente de suor. Fico parada por alguns segundos, extremamente admirada, sentindo o rosto esquentar.

Mais tarde, quando ele sai da academia já trocado, nos cruzamos no hall. Paro o que estou fazendo.

— Senhor… Albert. Queria agradecer pela carona ontem e pelo conserto do carro. Não precisava.

Ele para, com uma expressão tranquila.

— Não foi nada.

Não consigo deixar de reparar na aparência dele: cabelo ainda úmido do banho, camisa bem ajustada e o olhar calmo. Ele acena de leve e segue para o escritório.

Termino meu expediente por volta das seis, cansada mas satisfeita com o dia mais calmo. Estou na cozinha de serviço descansando um pouco com a senhora Hargrove quando ouvimos o barulho de saltos altos no hall. Uma mulher alta, loira, bem vestida, entra direto e sobe as escadas sem dizer nada, indo para o quarto dele.

A senhora Hargrove e eu trocamos um olhar. Ficamos em silêncio por alguns minutos, tomando um chá, até que os primeiros gemidos começam a ecoar do andar de cima. Baixos no começo, depois mais claros.

Olho para ela e não consigo segurar um sorriso. Ela também ri baixinho, balançando a cabeça.

— Pelo menos alguém está se divertindo hoje — murmura ela.

— Meu Deus, parece que estão gravando filme lá em cima — comento, rindo mais. — Será que ela sabe que a casa tem acústica boa?

A senhora Hargrove cobre a boca, rindo.

— Essa é a sexta este mês. Ele escolhe sempre as que fazem bastante barulho. Se continuar assim, vamos ter que colocar música alta na cozinha.

Começamos a rir juntas, tentando fazer o mínimo de barulho. Cada gemido mais alto faz a gente segurar o riso.

— Coitada da cama — digo, quase engasgando. — Deve estar pedindo socorro.

— E nós aqui descansando o corpo todo dolorido enquanto o patrão faz exercício diferente — responde ela, enxugando os olhos de tanto rir.

Ficamos ali mais uns minutos, rindo baixo dos comentários, o clima leve e engraçado pela primeira vez na mansão. Quando os sons diminuem, voltamos ao trabalho com o sorriso ainda no rosto, balançando a cabeça.

Horas depois, já quase no final do meu expediente, ouço a porta do quarto se abrir no andar de cima. A mulher loira desce as escadas arrumando o cabelo, com o rosto corado, e sai da mansão sem olhar para os lados. Pouco tempo depois, Albert desce e vai sozinho para a sala de jantar. Sento-me à mesa grande e come a refeição que a cozinheira deixou pronta, em silêncio.

A senhora Hargrove e eu estamos na cozinha de serviço, terminando de organizar algumas coisas. Ela se aproxima de mim, baixa a voz até quase um sussurro e fala bem perto do meu ouvido:

— Mas é só isso também. Ele nunca se envolve de verdade. É apenas sexo. Trabalho pra ele há dez anos e nunca vi o patrão se apaixonar por ninguém. Sempre a mesma coisa: elas vêm, passam a noite e vão embora. Ele mantém tudo muito controlado.

Murmuro de volta, também bem baixo:

— Sério? Dez anos assim? Ele parece tão… distante de tudo.

Ela assente, ainda sussurrando:

— Distante é a palavra. Bom patrão, paga em dia, mas emocionalmente… zero. Acho que nem ele sabe o que é se apaixonar.

Rimos baixinho mais uma vez, inclinando a cabeça uma para a outra para que o som não chegue até a sala de jantar. Continuamos murmurando:

— Coitadas das mulheres — comento. — Acham que vão ser a exceção.

— E nunca são — responde ela, cobrindo a boca. — Pelo menos ele é discreto.

Estamos ainda com os sorrisos contidos quando Albert aparece na porta da cozinha. Ele nos olha por um momento. Levanto-me rapidamente, sentindo o rosto esquentar.

— Está tudo bem por aqui? — pergunta ele, o tom calmo.

— Sim, senhor. Tudo bem — respondo, tentando manter a voz normal.

Ele me observa por um segundo.

— E o carro? Ficou bom?

— Ficou ótimo, na verdade. Liga de primeira agora e não faz mais aqueles barulhos estranhos. Obrigada de novo, de verdade. Foi muito gentil da sua parte.

Ele acena levemente com a cabeça, quase um sorriso discreto aparecendo no canto da boca.

— Que bom. Se precisar de mais alguma coisa, avise.

— Obrigada — repito.

Termino de organizar tudo e pego minha bolsa. O corredor está silencioso quando caminho em direção à porta principal. Estou quase saindo quando Albert aparece vindo da biblioteca, segurando um livro fechado na mão. Ele para ao me ver, como se não esperasse me encontrar ali exatamente agora.

— Ana — chama, a voz baixa ecoando no hall amplo.

Viro-me. Ele está com a camisa branca aberta nos primeiros botões, o cabelo ligeiramente despenteado e uma expressão que mistura cansaço e algo mais suave.

— Pensei que já tinha ido embora — digo, surpresa.

— Estava terminando de ler uma coisa. — Ele se aproxima um pouco, parando a uma distância confortável, mas próxima o suficiente para eu sentir o cheiro leve de seu perfume amadeirado. — O carro ainda está bom?

— Está excelente. Até estranhei hoje de manhã como ele anda suave. Obrigada de novo, de verdade. Você facilitou muito minha vida.

Ele sorri de lado, um sorriso lento que chega aos olhos.

— Fico feliz. Não gosto de ver você lutando com aquele carro velho depois de um dia inteiro aqui.

O comentário me pega desprevenida. Baixo o olhar por um segundo, sentindo o rosto aquecer.

— Você não precisava se preocupar com isso.

— Eu quis — responde ele simplesmente. Seus olhos verdes encontram os meus e ficam ali por um momento mais longo que o necessário. — Você trabalha duro, Ana. Mais do que a maioria. E… eu sei que nem sempre facilitei as coisas pra você.

Fico sem palavras por um instante. A sinceridade na voz dele é nova.

— É verdade que os primeiros dias foram difíceis — admito, com um sorriso tímido. — Mas estou me adaptando. E hoje… foi um bom dia.

Ele dá mais um passo, agora bem perto. A luz amarelada do lustre ilumina o rosto dele de forma bonita.

— Que bom. Gosto de saber que você não desistiu.

O ar entre nós fica mais denso, carregado de uma tensão boa. Nenhum dos dois parece querer encerrar a conversa. Olho para ele.

— Obrigada por ter mandado consertar o carro… Albert.

Pronunciar o nome dele ainda soa estranho, mas natural ao mesmo tempo. Ele nota e o canto da boca sobe levemente.

— Dirija com cuidado. E se precisar de qualquer coisa… me avise. Não precisa ser só sobre trabalho.

Meu coração dá um salto discreto. Sorrio, sentindo uma mistura de nervosismo e algo quente no peito.

— Vou me lembrar disso. Boa noite, Albert.

— Boa noite, Ana.

Ele fica parado na porta enquanto caminho até o carro. Antes de entrar, olho para trás uma última vez. Ele ainda está lá, mãos nos bolsos, me observando com aquele olhar calmo e atento. Aceno de leve, entro no carro e saio da mansão.

Ele não é tão demoníaco assim.

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