Mundo de ficçãoIniciar sessãoÉ sábado à tarde e a mansão está surpreendentemente calma. A senhora Hargrove tirou o dia de folga e Albert passou a manhã toda trancado no escritório. Aproveito o silêncio para limpar a biblioteca com mais calma. O sol entra pelas janelas altas, iluminando as estantes de madeira escura.
Estou em cima da escada de madeira, esticando o braço para alcançar a última prateleira, quando ouço passos. Albert entra na biblioteca vestindo uma camisa preta simples e calça de moletom, algo raro nele. Para ao me ver. — Não precisa subir tanto — diz ele, aproximando-se. — Eu alcanço pra você. Desço um degrau, mas ele já está ao lado da escada. Estende o braço e pega os livros que eu tentava alcançar. Seu corpo fica perto do meu, o suficiente para eu sentir o calor dele e o cheiro suave de seu perfume. Entrego os livros que já limpei e, por um instante, nossos dedos se tocam. Nenhum dos dois puxa a mão imediatamente. — Obrigada — murmuro, descendo da escada. Ele coloca os livros na mesa e se vira para mim. Estamos próximos, separados apenas por meio metro. O ar parece mais denso. — Você trabalha até nos finais de semana sem reclamar — comenta ele, a voz baixa. — Por que não pediu folga? Olho para ele, sustentando o olhar. Pra você me demitir? não mesmo. — Preciso do dinheiro. E… sinceramente, hoje está mais tranquilo. Gosto quando a casa fica silenciosa. Albert assente devagar, sem desviar os olhos dos meus. — Eu também. O silêncio ajuda a pensar. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Ele olha para os meus lábios por um breve momento antes de voltar para os meus olhos. Sinto o coração acelerar, mas não me afasto. — Você parece diferente hoje — digo, quase sem pensar. — Diferente como? — Mais autêntico. Um sorriso discreto aparece no canto da boca dele. — Talvez seja porque você está aqui. A frase sai simples, mas o tom rouco faz minha pele arrepiar. Ele dá meio passo à frente. Agora estamos realmente perto. Posso ver os detalhes dos seus olhos verdes, a linha do maxilar, o leve movimento da respiração dele. — Estou aqui todos os dias, senhor. — começo, sem saber exatamente o que dizer. Ele levanta a mão devagar e, com o polegar, tira um pequeno fiapo de poeira do meu ombro. O toque é leve, quase uma carícia. Seus dedos demoram um segundo a mais do que o necessário. — Você me deixa curioso, Ana — confessa ele, a voz ainda mais baixa. — Foi a primeira vez que uma empregada me confrontou é isso me deixou fascinado. Meu coração b**e forte. Quero responder, mas as palavras ficam presas. Apenas olho para ele, sentindo a tensão crescer entre nós, quente e silenciosa. Ele se inclina um pouco mais, o rosto agora muito perto do meu. Por um segundo, acho que vai me beijar. Mas ele para, como se esperasse minha reação. — Eu não quero complicar as coisas pra você — murmura. — Pra tudo tem uma primeira vez... Nossos olhares ficam presos. O ar está carregado. Nenhum dos dois se move. Albert respira fundo e dá um passo atrás, respeitando meu espaço. — Eu sei — diz ele, com um sorriso pequeno e sincero. — E é exatamente por isso que você me deixou intrigado. — Que bom então, senhor. Ele fica mais um instante me olhando, depois se vira e sai da biblioteca. Homem doido. ... À noite, Lívia e eu nos arrumamos no meu apartamento. Escolho um jeans justo, uma blusa preta simples e deixo o cabelo solto. Ela está linda de vestido vermelho curto. Tiramos selfies no espelho do quarto, fazendo caretas e poses engraçadas, e rimos muito antes mesmo de sair. No táxi, Lívia liga o som do celular e cantamos alto uma música antiga. Quando chegamos ao bar do Cláudio, o lugar já está animado. Pedimos drinks e começamos a tirar várias fotos: no balcão, dançando, fazendo bico, abraçadas. Posto algumas no I*******m com a legenda “Noite merecida com minha pessoa favorita 💃”. Enquanto estamos na pista, meu celular vibra. Albert Whinches pediu para seguir você. Aceito o pedido quase sem pensar, e desligo a tela. A noite segue divertida. Cantamos karaokê de novo (dessa vez “Vermelho” da Gloria Groove, gritando o refrão), dançamos juntas, rimos de Cláudio tentando dançar e bebemos mais dois drinks. Estou me divertindo tanto que quase esqueço o dia. De repente, quando volto do banheiro, paro no meio do caminho. Albert está encostado no balcão, de camisa escura e jeans, parecendo completamente deslocado no bar simples. Ele me vê e levanta uma sobrancelha, com um meio sorriso. Assombração. Caminho até ele, ainda surpresa. — Isso só pode ser brincadeira… — digo, parando na frente dele. — Coincidência — responde ele, com um tom leve e divertido. — Vim encontrar um amigo que mora perto. Não esperava te ver aqui. — Coincidência? — cruzo os braços, sorrindo. — Um bilionário no Queens? Isso é estranho até pra você. Ele ri baixinho, um som raro e gostoso. — Pode ser estranho, mas a cerveja daqui é gelada. E a música é melhor que nos lugares que eu costumo ir. Olho para ele, ainda achando graça da situação. — Sério? Você podia estar em qualquer rooftop chique de Manhattan agora e veio parar aqui? — Talvez eu tenha visto suas fotos no I*******m e tenha ficado curioso. — admite ele, com um olhar malicioso. — Mentiroso. Você disse que era coincidência. — As duas coisas podem ser verdade. — responde, dando de ombros com um sorriso charmoso. — E você? Cantando de novo hoje? — Pode apostar. Quer me ver destruindo alguma música no karaokê? Albert ri e se aproxima um pouco mais, falando mais baixo: — Eu pagaria para ver isso. — Não precisa pagar. Mas se eu te chamar pra cantar comigo, você vai? Ele finge pensar, inclinando a cabeça. — Depende da música. Não faço rap nem funk brasileiro. — Covarde. — provoco, rindo. Ficamos conversando, o bar barulhento ao nosso redor parecendo distante. A química está de volta, leve, divertida e cheia de olhares. Lívia me vê de longe, arregala os olhos e faz uma cara engraçada, mas não se aproxima. Albert olha para mim com um brilho diferente nos olhos. — Você está bem bonita. Sinto o rosto aquecer, mas mantenho o tom brincalhão: — Cuidado, senhor Whinches. Aqui não tem regras da mansão. Posso te responder o que eu quiser. Mas... — Do um sorriso com sinceridade — Obrigada! — E eu estou ansioso pra ouvir. — responde ele, sustentando meu olhar. A noite, que já estava boa, acaba de ficar muito mais interessante. Albert continua encostado no balcão, com aquele meio sorriso que desarma qualquer pessoa. Lívia me lança um olhar do outro lado do bar, tipo “que diabos é isso?”, mas continua dançando com Cláudio. — Então… — digo, cruzando os braços e tentando parecer séria. — Você realmente veio atrás das minhas fotos no I*******m? Ele ri, balançando a cabeça. — Eu não disse isso. Eu disse que vi as fotos. Tem diferença. — Ah, claro. Diferença enorme. Você, o homem que mal sorri na mansão, de repente resolve vir parar no bar mais barulhento do Queens só por curiosidade? — Exatamente. E confesso que estou impressionado. Você canta muito melhor do que limpa lustres. Abro a boca, fingindo indignação. — Ei! Eu limpo lustres muito bem! — Você deixa marcas de dedo — provoca ele, com um brilho divertido nos olhos. — Isso foi uma vez... ou duas não sei! E você estava sendo insuportável naqueles dias. Albert ri alto, um riso genuíno que faz algumas pessoas olharem para nós. — Justo. Mereci. Cláudio aparece com dois shots e oferece um para cada. Albert olha para o copo pequeno como se fosse algo alienígena. — O que é isso? — Tequila. Não vai me dizer que o grande Albert Whinches nunca tomou um shot de tequila — provoco. — Eu prefiro whisky de vinte anos. — Claro que prefere. Mas hoje você vai tomar tequila como gente normal. Vamos. Entrego o copo para ele. Albert me olha, aceita o desafio e nós brindamos. Tomamos juntos. Ele faz uma careta engraçada logo depois. — Meu Deus… isso desce queimando. — Bem-vindo ao mundo real — rio, batendo no ombro dele. Ele se aproxima um pouco mais, falando perto do meu ouvido por causa da música alta: — Sabe o que é estranho? Eu passo o dia inteiro cercado de gente que só diz sim pra mim. E você… você me responde, me provoca e ainda me faz beber tequila. Isso é perigoso. Olho para ele, sentindo o coração acelerar. — Perigoso pra quem? — Pra mim — responde, sustentando meu olhar. — Porque eu estou gostando demais. A intensidade volta. Ficamos nos encarando por um segundo longo, o barulho do bar parecendo distante. Ele levanta a mão e ajeita uma mecha do meu cabelo que caiu no rosto. O toque é leve, mas demorado. Lívia aparece do nada, interrompendo o momento: — Ana! Vem cantar comigo! — Ela olha para Albert e sorri. — Você também, bilionário. Topa? Albert levanta as sobrancelhas. — Eu avisei que não canto. — Tá com medo. — provoco novamente. Ele suspira, fingindo derrota. — Só porque é você. Subimos no pequeno palco. Lívia escolhe “Shallow” e me empurra o microfone. Canto a parte feminina e, para minha surpresa, Albert pega o microfone masculino e canta junto — com uma voz grave e até afinada. Ele erra algumas palavras de propósito, me fazendo rir no meio da música. No refrão, cantamos juntos olhando um para o outro. A química está no ar, forte e divertida. Quando a música termina, o bar aplaude. Descemos do palco rindo. — Você mentiu — acuso, dando um tapa leve no braço dele. — Canta bem pra caramba. — Eu disse que não canto. Não que não consigo — responde ele, com um sorriso convencido. Ficamos perto do balcão de novo. A noite segue com mais drinks, provocações e olhares. Em determinado momento, ele se inclina perto do meu ouvido: — Você sabe que amanhã vai ser difícil fingir que nada aconteceu, né? — Eu finjo muito bem — respondo, virando o rosto para ele. Nossos rostos ficam perigosamente próximos. — O problema é você. Albert sorri, olhando para minha boca. — Eu estou começando a achar que não quero fingir. Nenhum de nós diz mais nada por alguns segundos, só sentindo a tensão boa entre nós. Lívia volta e me puxa para dançar mais uma música, mas eu olho para trás e vejo Albert me observando com um olhar intenso, como se estivesse pensando em algo muito sério. Ainda bem que ela me tirou dali.






