Mundo de ficçãoIniciar sessãoDurante cinco anos, Helena foi o cérebro escondido por trás do sucesso de Augusto Ferraz. Enquanto ele era o rosto do império, ela era quem evitava o colapso. Mas, na noite em que ela decide revelar seu valor, descobre que o marido a trocou por uma secretária e planeja descartá-la como um objeto sem uso. Ele não sabe de uma coisa: o império só se mantém de pé porque Helena permitiu. Agora, ela está pronta para derrubá-lo, peça por peça.
Ler maisA chuva batia forte no vidro da cobertura. O barulho lá fora era alto, mas aqui dentro o silêncio era pior. Helena empurrou a porta de entrada com a pasta azul apertada contra o peito. O voo tinha sido antecipado e ela queria fazer uma surpresa. Fazia cinco anos que ela e Augusto estavam juntos, e o jantar de aniversário era a oportunidade perfeita para colocar um ponto final na omissão.
Ela trouxe o parecer sobre o Cais Norte. Era a prova final de que o terreno estava contaminado e que a construtora deles, a Ferraz Urbanismo, estava prestes a cair em um buraco financeiro sem volta. Ela precisava que ele parasse de ignorar os riscos. A luz do escritório estava acesa. Helena caminhou pelo corredor de mármore, mas parou antes de chegar à porta. Uma risada feminina veio lá de dentro. Não era a risada de uma secretária em horário de expediente. Era íntima. — Você é muito mais esperta do que ela, Lívia. O relatório de hoje estava impecável. A Helena levava semanas para entender metade disso — a voz de Augusto era clara. Helena congelou. O ar sumiu. Ela encostou na parede, o coração batendo forte demais. Pela fresta da porta, ela viu. Augusto estava sentado na cadeira de couro. Lívia, a secretária, estava ali também, muito perto. O robe de seda azul que Helena tinha deixado na cama estava nos ombros dela. — Ela é básica demais, Augusto — Lívia respondeu, com um sorriso de quem já se sentia dona do lugar. — Ela serve para manter a casa organizada e usar o sobrenome que você precisa. Mas ela não tem ambição nenhuma. Eu sou a pessoa que vai te levar para o topo. Eles se beijaram. Sem pressa. Com a certeza de quem não teme ser pego. Helena sentiu o estômago revirar. O divórcio que ela tanto tentou evitar estava sendo desenhado ali, na frente dela, enquanto Augusto roubava o crédito pelo trabalho que ela, na verdade, tinha feito na calada da noite. Ela chutou a porta. O baque ecoou pela cobertura. Augusto pulou da cadeira, pálido. Lívia, porém, não se moveu. Ficou ali, envolta no robe de Helena, me encarando com um deboche que ardia mais que o próprio flagrante. — Helena? O que você está fazendo aqui? — Augusto gaguejou, irritado. Ela caminhou até a mesa e jogou a pasta azul no meio de tudo. — O parecer do Cais Norte. Aquele que você me pediu para revisar — ela disse, a voz saindo mais firme do que ela esperia. Augusto deu uma risada de desprezo e jogou o relatório de Lívia por cima da pasta dela. — Esquece isso. A Lívia já resolveu. Os investidores adoraram. Você está vivendo no passado, Helena. Brincando de analista enquanto a gente está fechando o maior contrato da história da construtora. Helena apontou para o erro de digitação na página sete. O erro que ela mesma tinha corrigido à mão. Lívia tinha copiado tudo, até a sua falha. — Você nem leu o que ela te entregou, Augusto. Esse terreno tem um embargo ambiental vindo. Se fechar esse contrato, a Ferraz quebra. — Chega de drama! — ele gritou. — Você não é a estrategista aqui. Você é só a esposa. Vai para o seu lugar. Helena olhou para Lívia. Ela não ia pedir desculpas. Ela não ia implorar. — Lívia, sai do meu quarto agora — Helena ordenou. — E Augusto, olha para mim. Repete, olhando nos meus olhos, que você escolheu essa traição sabendo que estava descartando a única pessoa que mantinha essa empresa funcionando. Augusto não sustentou o olhar. Ele preferiu a arrogância de sempre para esconder o pânico. Helena girou nos calcanhares e foi direto para o cofre. Ela precisava das provas. Dos documentos originais. Ela digitou a senha. O cofre abriu. Estava vazio. Não havia relatórios. Não havia contratos. Só um bilhete impresso, frio e direto. Helena pegou o papel. “Amanhã, às nove. Vamos discutir as condições da sua saída.” O chão pareceu ceder. Ele não a estava apenas traindo; ele a estava apagando. Ela olhou para a aliança no dedo e, pela primeira vez, sentiu nojo. O jogo tinha virado.Augusto caminhava pelas ruas do centro financeiro, um lugar que, até quarenta e oito horas atrás, ele dominava como um rei. Agora, cada rosto que passava parecia carregar um julgamento silencioso. Ele não estava acostumado a ser um homem comum, a ter que olhar para os dois lados antes de atravessar a rua ou a esperar o sinal abrir como qualquer outro pedestre. A humilhação de ter sido escoltado para fora de seu próprio prédio ainda queimava em sua pele como uma queimadura de segundo grau. Ele entrou em um café pequeno e sem luxo, buscando um lugar onde não fosse reconhecido. O celular, que ele mantinha desligado para evitar as notificações constantes dos advogados da Aurora Capital, vibrou na mesa. Era um número bloqueado. Ele sabia que era uma questão de tempo até que a imprensa começasse a farejar a queda da Ferraz Urbanismo. As notícias de que a empresa estava sob investigação por fraude financeira começavam a circular em blogs de negócios e colunas de bastidores.
O escritório de Augusto Ferraz, que antes transpirava poder e sucesso, agora cheirava a desespero. As luzes estavam todas acesas, mas o ambiente parecia mergulhado em uma sombra permanente. Papéis estavam espalhados pelo chão, restos de tentativas inúteis de reconstruir um cronograma de pagamentos que não fazia mais sentido. Augusto observava a cidade pela vidraça, o reflexo de seu rosto mostrando olheiras profundas e uma linha de tensão que ele não conseguia disfarçar.Lívia não estava mais ali. O RH, sob a nova supervisão do conselho indicado pela Aurora Capital, tinha feito questão de escoltá-la para fora do prédio antes mesmo do almoço. Augusto estava, pela primeira vez em cinco anos, completamente sozinho.Seu celular tocou. Ele atendeu na esperança de ser algum investidor disposto a renegociar, mas a voz do outro lado era a de seu advogado criminalista, um homem que ele pagava caro para nunca ter que atender.— Augusto, o Ministério Público acaba de abrir um inquér
O apartamento da avó, no bairro dos Jardins, era um santuário de silêncio e história. Helena, no entanto, não conseguia encontrar paz. Espalhou os relatórios enviados pelo investigador sobre a mesa de mogno da biblioteca. O que ela encontrou ali fez o sangue gelar. Não se tratava apenas de má gestão ou de uma traição sentimental; era uma teia complexa de evasão de divisas e lavagem de dinheiro via empresas de fachada nas Ilhas Cayman.Augusto não estava apenas construindo o Cais Norte; ele estava usando o projeto como uma lavanderia de alto luxo para capitais de origem obscura. Helena cobriu a boca com a mão. Como ela não percebeu? Por cinco anos, ela revisou contratos, otimizou processos e fechou números, mas Augusto sempre a mantinha isolada das contas de offshore. Ele a usava para validar a parte legítima da empresa, enquanto o lado sujo corria em paralelo, nas sombras que ela nunca teve acesso.O celular tocou. Era Sofia.— Helena, você viu os arquivos que enviei? Não é só fraude
O lobby do edifício corporativo era de um mármore frio que parecia refletir a instabilidade do momento. Helena mal tinha pisado fora da sala de reuniões quando seu celular disparou. Eram os investidores da Aurora. Eles não pediam; eles convocavam. Helena respirou fundo. O ambiente que antes a fazia sentir-se pequena quando acompanhava Augusto agora parecia o palco onde ela finalmente exercia o papel de protagonista.Enquanto caminhava para o elevador privativo, ela passou por Augusto, que estava encostado na parede, o rosto transtornado. Ele tentou impedi-la novamente, mas Dante, que mantinha uma distância profissional, deu um passo à frente, bloqueando o caminho com uma cortesia ameaçadora.— Deixe a Sra. Helena passar, Augusto. Ela está em horário de trabalho — a voz de Dante era calma, mas o recado era claro.Augusto rosnou, frustrado. — Você não vai conseguir isso, Helena! A Ferraz tem contratos, tem parceiros que dependem de mim. Eles não vão deixar você derrubar tudo só por caus
Último capítulo