Mundo ficciónIniciar sesiónVolto à mansão na segunda-feira com a cabeça ainda cheia da noite de sábado. A casa está tranquila pela manhã. Estou limpando o corredor do segundo andar quando Albert aparece vindo da academia, só de calça de moletom e toalha no ombro. O corpo definido ainda brilha de suor. Ele para ao me ver.
— Bom dia, Ana. — Bom dia, senhor. Ele se aproxima devagar, parando a poucos passos de mim. O corredor parece menor. — Sobre sábado… — começa ele. — Não precisa explicar nada — interrompo, sentindo o coração acelerar. — Foi só uma noite divertida. Albert dá mais um passo. Agora estamos muito perto. Ele olha para mim com intensidade. — Foi mais do que isso. E você sabe. O ar fica pesado. Seus olhos descem para minha boca por um segundo. Sinto um arrepio. Ele levanta a mão lentamente, como se fosse tocar meu rosto, mas para no meio do caminho. — Albert… — murmuro, quase sem voz. Ele se inclina um pouco. Nossos rostos ficam perigosamente próximos. Posso sentir o calor do corpo dele. A tensão é tão forte que quase dói. Por um instante, acho que ele vai me beijar. Recuo um passo, o peito subindo e descendo rápido. — Eu… tenho que voltar ao trabalho. Viro-me rapidamente e sigo pelo corredor, o coração martelando. Ouço ele soltar um suspiro baixo atrás de mim, mas não me chama. Horas mais tarde, estou na cozinha de serviço descansando com a senhora Hargrove quando uma mulher morena, muito bonita e bem vestida, entra na mansão e sobe direto para o quarto de Albert. A governanta e eu nos entreolhamos. — Lá vamos nós de novo — murmura ela. Não demora muito. Os gemidos começam, altos e sem vergonha. Olhamos uma para a outra e começamos a rir baixinho. — Meu Deus, parece que estão matando alguém lá em cima — comento, cobrindo a boca. — Essa aí é barulhenta. A loira da semana passada era pior. Parecia que estava filmando filme pornô — responde a senhora Hargrove, rindo. — Coitada da cama. Deve estar pedindo arrego. Aposto que amanhã ele vai pedir pra trocar o colchão. Rimos mais, tentando fazer silêncio. — O homem tem energia, hein? — digo, balançando a cabeça. — Trabalha o dia inteiro e ainda sobra pra isso. — E nós aqui esfregando chão — completa ela, rindo. — A vida não é justa. Estamos ainda fazendo piadas baixas quando os gemidos finalmente param. No final do expediente, estou guardando os materiais quando Albert aparece na porta da cozinha. — Ana, jante comigo hoje. Fico surpresa. — Acho melhor não, senhor. Não é apropriado. — É só um jantar. Não tem ninguém aqui além de nós. A senhora Hargrove já vai embora. Resisto mais um pouco, mas ele insiste com aquele olhar calmo e firme. Acabo cedendo. — Tudo bem. Sento-me à mesa grande da sala de jantar, me sentindo estranha com o uniforme enquanto ele está de camisa social. A cozinheira serve salmão grelhado, legumes e um vinho branco. O silêncio inicial é um pouco desconfortável. Albert me serve uma taça de vinho e pergunta, com tom suave: — Como você decidiu estudar medicina? — Sempre quis ajudar as pessoas. Depois que meus pais morreram, percebi que a vida é curta. Quero fazer diferença, mesmo que seja pequena. Ele me ouve atentamente. — E gosta muito? — Bastante. — admito. — Vale a pena. Lívia me ajuda muito. Ela é a única família que eu tenho. Albert assente, olhando para mim por cima da taça. — Você é mais forte do que parece. — E você? — pergunto, arriscando. — Por que mora sozinho nessa casa enorme? Ele fica em silêncio por um momento, como se decidisse quanto revelar. — Porque é mais fácil não precisar de ninguém. A resposta fica no ar entre nós. Comemos em silêncio por alguns instantes, mas o clima não é ruim. É íntimo. Ele me observa de um jeito diferente, quase carinhoso. Terminamos o jantar com uma conversa leve sobre Nova York e livros. Quando me levanto para sair, ele fala baixo: — Obrigado por aceitar. — Obrigada pelo jantar. ... No dia seguinte, termino de limpar a sala de estar quando Albert aparece, vestindo uma camisa branca com as mangas dobradas. Ele fecha a porta dupla atrás de si, isolando-nos do resto da casa. — Ana. A forma como ele pronuncia meu nome já faz meu estômago revirar. Paro com o pano na mão. — Senhor… — Albert — corrige ele, aproximando-se devagar. — Para de me chamar de senhor quando estamos sozinhos. Ele para bem perto. Perto demais. Consigo sentir o calor do corpo dele e o cheiro familiar de seu perfume. Seus olhos descem para minha boca, depois voltam para os meus. — Eu não consigo parar de pensar em você — confessa, a voz baixa e rouca. — No sábado, ontem à noite… você está me tirando do sério. Deixa de mentira, você só quer me comer. Meu coração b**e descontrolado. Ele levanta a mão e passa os dedos de leve pelo meu braço, subindo devagar até o ombro. O toque é suave, mas carrega eletricidade. — Albert… isso não é uma boa ideia — sussurro, mas não me afasto. — Eu sei. Mas eu quero mesmo assim. Ele se inclina lentamente. Seus lábios param a centímetros dos meus. Sinto sua respiração quente. A tensão é tão forte que minhas pernas ficam fracas. Por um segundo, fecho os olhos, quase cedendo. De repente, recobro o controle. Dou um passo rápido para trás, o peito subindo e descendo. — Eu não posso — digo, quase sem ar. — Não vou ser só mais uma. Viro-me e saio da sala quase correndo, o coração martelando. Ouço ele chamar meu nome uma vez, mas não paro. Termino meu expediente mais cedo, inventando uma dor de cabeça, e vou embora. Chego em casa ainda agitada. Lívia está no sofá comendo pipoca quando entro. Assim que fecho a porta, desabo ao lado dela. — Lívia, eu vou surtar. Ela para com a mão na boca, cheia de pipoca. — O que aconteceu? Conta agora! — Ele quase me beijou. ! Hoje esse maluco me encurralou na sala de estar, falou que não consegue parar de pensar em mim, tocou meu braço… Nossa, o homem tem um cheiro bom demais. Eu quase caí. Literalmente quase caí. Aí eu corri dele como uma idiota e saí da mansão. Lívia explode em gargalhadas, quase engasgando com a pipoca. — Espera… o bilionário frio te encurralou e você fugiu? Ana, você é doida! — Eu sou! — reclamo, rindo também. — Mas o que eu faço? Ele é perigoso, Lívia. Olhar dele, voz dele… Eu quase traí todos os meus princípios ali. — Traiu os princípios nada, você só tá com tesão acumulado — diz ela, morrendo de rir. — Imagina a cena: o homem mais rico de Nova York tentando te beijar e você saindo correndo igual novela mexicana. “Não, senhor Whinches, eu tenho dignidade!” Começo a rir junto, jogando uma almofada nela. — Para! Foi exatamente assim. Eu falei “eu não posso” e saí quase tropeçando. Amanhã vou ter que olhar na cara dele. Vou morrer de vergonha. Lívia limpa as lágrimas de tanto rir. — Olha, amiga… se ele te beijar de verdade, você vai derreter. Eu já tô até imaginando a cena: você toda “sou forte, não vou cair nessa” e depois “Albert, me pega aqui na mesa da sala de jantar”. — Lívia! — grito, rindo e cobrindo o rosto. — Para de imaginar coisa suja! — É que você merece uma cena quente, vai. Depois de tanto esfregar chão e ouvir gemidos alheios, tá na hora de fazer os seus. — Eu odeio você — digo, ainda rindo — Mas é sério, não quero ser só mais uma. Você sabe que quando me envolvo é para compromisso sério. — Você me ama. E amanhã, se ele tentar de novo, você corre… ou não. Eu apoio qualquer decisão. Menos fugir de novo, porque isso é piada. Conversamos mais um tempo, rindo da minha desventura, até eu me sentir mais leve. Lívia sempre sabe como transformar meus dramas em comédia.






