Mundo ficciónIniciar sesiónA mansão desperta mais cedo do que o normal. Desde as seis da manhã, caminhões entram e saem pelos portões carregando flores, mesas, equipamentos de iluminação e caixas de bebidas. Hoje acontece o tradicional evento beneficente organizado por Albert Whinches, e a casa inteira está em movimento. Assim que chego, a senhora Hargrove já me entrega uma lista enorme.
— Hoje esqueça a rotina normal. Você vai ajudar na recepção e servir os convidados. O senhor Whinches quer tudo impecável. Passo a manhã inteira organizando o salão principal. Arrumo mesas, posiciono arranjos de flores, confiro os talheres e ajudo a cozinha a preparar bandejas de canapés. O cheiro de comida sofisticada toma conta da casa. Quando anoitece, troco o uniforme de limpeza por um vestido social preto, simples e elegante, usado apenas pelos funcionários durante eventos. Prendo o cabelo em um coque e pego uma bandeja cheia de taças de espumante. Os primeiros convidados começam a chegar. Empresários, médicos, artistas. Fotógrafos registram cada entrada enquanto um quarteto de cordas toca perto da escadaria principal. Albert circula pelo salão cumprimentando todo mundo. Usa um terno preto perfeitamente ajustado, gravata vinho e aquele mesmo olhar sério de sempre. Enquanto caminho entre os convidados oferecendo bebidas, percebo que ele olha discretamente para mim algumas vezes. Finjo que não vejo. Estou servindo um casal perto da varanda quando um homem pega uma taça da minha bandeja. Ele sorri. — Obrigado. — Disponha. Faço um pequeno aceno e continuo andando. — Espera. Paro por educação. — Sim? — Meu nome é Daniel. — Prazer. Ana. — Você trabalha aqui há muito tempo? — Há um mês. — Achei que fosse uma das convidadas. Rio baixo. — Não. Estou trabalhando. Ele sorri. — Uma pena. Peço licença e sigo atendendo outro grupo. Cinco minutos depois... — Ana. Olho para trás. É ele outra vez e seguro o riso. — O senhor parece muito determinado. — Estou tentando descobrir alguma coisa sobre você. — Descobriu que eu carrego bandejas muito bem. Ele ri. — E além disso? Continuo andando enquanto entrego bebidas. — Faço medicina. — Sério? — Sim. — Último ano? Olho surpresa. — Como adivinhou? — Minha irmã também faz medicina. Assinto. — Coincidência. Vou atender outro grupo e ele me acompanha alguns passos. — Você mora sozinha? — Moro. — Namora? Olho para ele de lado. — Essa pergunta já faz parte da entrevista? Ele ri. — Talvez. — Então a entrevista terminou. Dou um sorriso educado e continuo trabalhando. Mesmo assim, Daniel aparece novamente. Pergunta sobre meus planos depois da faculdade, hobbies e o meu bairro. Enquanto respondo o mínimo possível, continuo servindo os convidados. De repente... Percebo um silêncio estranho. Levanto a cabeça. Albert está parado do outro lado do salão. Ele nos observa. Seu sorriso social desaparece completamente. O maxilar fica rígido. Os olhos permanecem presos em Daniel. Ele termina rapidamente a conversa com um empresário e caminha em nossa direção. Para ao nosso lado. — Daniel. O homem se vira. — Albert. — Os organizadores estão procurando você perto do palco. Daniel franze a testa. — Agora? — Sim. O tom é educado. Daniel olha para mim. — Foi um prazer conversar. — Igualmente. Assim que ele se afasta, Albert continua parado ao meu lado. Olho para ele. — Algum problema? Ele demora alguns segundos para responder. — Faça uma pausa de cinco minutos quando terminar essa bandeja. Poucos minutos depois, bato de leve na porta da biblioteca. — Posso entrar? — Entre. Fecho a porta atrás de mim e vejo Albert de pé perto da janela, com as mãos nos bolsos. — Você queria falar comigo? Ele me encara. — Aquele homem estava claramente dando em cima de você. Cruzo os braços. — Estava. — E você parecia gostar da conversa. Dou uma risadinha. — Eu estava sendo educada. — Ele não parava de seguir você. — Também percebi. Ele passa a mão na nuca, claramente incomodado. — Eu não gostei. Inclino a cabeça. — Entendi. — Só isso? — Só. Ele solta o ar pelo nariz. — Ana... — O quê? — Você não vai dizer nada? Sorrio com um ar provocador. — O que exatamente você quer ouvir? Ele permanece em silêncio. Dou um passo à frente. — Albert... eu não sou sua namorada. Ele não responde. — Não sou sua esposa. Continuo olhando diretamente para ele. — E definitivamente não sou sua propriedade. O maxilar dele trava. — Eu sei. — Então esse ataque de ciúmes é por quê? Ele desvia o olhar por um instante. — Porque eu odeio ver outro homem olhando para você daquele jeito. Abro um sorriso divertido. — Problema seu. Ele fecha os olhos por um segundo. — Você adora me provocar. — Um pouquinho. — Você faz isso de propósito. Dou de ombros. — Talvez. Ele balança a cabeça, soltando uma risada curta de derrota. — Um dia você ainda acaba comigo. Aproximo-me da porta. — Relaxa. Seguro a maçaneta e olho para trás. — Agora, se me der licença... tem um convidado esperando outra taça de espumante. Abro a porta. Antes de sair, escuto a voz dele atrás de mim. — Ana... Viro apenas o rosto. — Não dá muita confiança para aquele sujeito. Não consigo conter o sorriso. — Ciúmes combinam menos com você do que gravata borboleta. Saio da biblioteca antes que ele consiga responder, deixando Albert sozinho, completamente irritado... e sem conseguir esconder isso. Daniel reaparece poucos minutos depois, agora com um prato de canapés nas mãos. Estou servindo bebidas perto do jardim quando ele sorri ao me ver. — Achei você de novo. Rio discretamente. — Está começando a parecer perseguição. — Prometo que não é. Só estou aproveitando que você finalmente parou de fugir de mim. Entrego uma taça para uma senhora e volto a olhar para ele. — Eu não estava fugindo. Estava trabalhando. — Então vou conversar enquanto você trabalha. Balanço a cabeça, divertida. — Você desiste fácil, não é? — Nunca. Ele acompanha meu ritmo enquanto caminho entre os convidados. — Então... medicina. Último ano, certo? — Certo. — E depois pretende ficar em Nova York? — Ainda não sei. Depende da residência. — Você gosta de viajar? — Muito. — Casada? Olho para ele de lado. — Você voltou para esse assunto? Ele ri. — Preciso saber se ainda tenho alguma chance. — Está fazendo um péssimo trabalho convencendo a moça. — Então ainda existe uma chance. Dou uma risada. — Você realmente é insistente. — Costumam dizer isso. Enquanto conversamos, continuo servindo os convidados sem parar um segundo. Do outro lado do salão... Albert observa. Está conversando com dois patrocinadores importantes, mas seus olhos escapam para nós repetidas vezes. Um dos empresários diz alguma coisa. Albert sequer parece ouvir. Seu olhar continua preso em Daniel. Vejo quando ele aperta a mandíbula. Cruza os braços. Desvia o olhar. Volta a olhar. Daniel conta uma história engraçada sobre a irmã e acabo rindo alto pela primeira vez naquela noite. Albert vê. O sorriso desaparece completamente. ... Mais tarde, a banda começa a tocar músicas mais animadas. Os convidados ocupam a pista improvisada no jardim. Estou recolhendo taças vazias quando Daniel aparece outra vez. — Você trabalhou a noite inteira. — Faz parte. — Quando terminar... aceita tomar um café qualquer dia? Paro por um instante e sorrio com educação. — É gentil da sua parte. — Mas? — Mas minha vida anda complicada demais para marcar encontros. Ele suspira teatralmente. — Então vou considerar um "talvez". — Considere um "quem sabe". Ele ri. — Já é melhor que um "não". Nesse instante, sinto alguém parar ao meu lado. Nem preciso olhar. Reconheço o perfume. Albert. Parece uma assombração. — Ana. Me viro. — Sim? — Preciso que confira a organização da mesa principal. Olho para a mesa. Ela está perfeita. Olho de volta para ele. — Agora? — Agora. Daniel percebe o clima estranho. — Acho melhor eu deixar vocês trabalharem. — Boa noite, Daniel. — digo. — Boa noite, Ana. Ele se afasta. Espero alguns segundos antes de falar. — A mesa está impecável. Albert continua olhando para onde Daniel desaparece. — Eu sei. Cruzo os braços. — Então você inventou uma tarefa. Ele permanece em silêncio. ... A festa termina perto da meia-noite. Os últimos convidados vão embora. Os músicos desmontam os equipamentos. Os garçons recolhem as últimas taças. O silêncio finalmente volta à mansão. Estou guardando algumas bandejas na cozinha quando Albert aparece na porta. — Terminou? — Acabei agora. — Pode vir um instante? Suspiro baixinho. — Claro. Seguimos pelo corredor até a biblioteca. Assim que entramos, ele fecha a porta. Passa alguns segundos em silêncio. — Você pareceu se divertir bastante hoje. Dou um sorriso discreto. — Foi uma festa bonita. — Não estou falando da festa. Entendo imediatamente. — Está falando do Daniel. Ele confirma com um pequeno movimento de cabeça. — Ele passou a noite inteira atrás de você. E isso me incomodou. Inclino a cabeça e dou um pequeno sorriso. — Acontece. Ele dá um passo na minha direção. — Você ria de tudo que ele dizia. — Porque ele era engraçado. — Você sorriu para ele. — Eu sorrio para muita gente. Os olhos dele encontram os meus. — Não daquele jeito. Rio baixo. — Está analisando meus sorrisos agora? Ele também esboça um sorriso, mas desaparece quase imediatamente. — Talvez. Dou mais um passo, diminuindo a distância entre nós. — Albert... — O quê? — Isso realmente não é problema meu. Ele permanece imóvel. — Você não pode ficar bravo porque um homem conversou comigo. Eu sou solteira. Posso conversar com quem eu quiser. Ele fecha os olhos por um instante. — Eu sei. Sorrio de lado. — Então estamos entendidos. Quando me viro para ir embora, ele fala baixinho: — Não significa que eu goste. Paro. Olho por cima do ombro. — Ciúmes da sua empregada? Que coisa estranha... — Não sou um homem normal. Ele sorri de forma cansada. Dou mais dois passos em direção à porta. Antes que eu alcance a maçaneta, ele chama meu nome. — Ana. Viro novamente. Estamos a poucos passos um do outro. Por um instante, nenhum dos dois diz nada. O silêncio parece mais intenso que qualquer discussão. Ele sustenta meu olhar. — Boa noite. Sorrio sem conseguir esconder um pouco da tensão que ainda existe entre nós. — Boa noite, Albert. Abro a porta e deixo a biblioteca. Enquanto caminho pelo corredor em direção à saída da mansão, sinto o olhar dele me acompanhando até desaparecer atrás da porta principal. Entro no meu carro, ligo o motor e sigo para casa.






