Ninguém merece isso

Chego no terceiro dia ainda mais cansada, com os olhos inchados da noite mal dormida. Visto o uniforme e começo as tarefas logo cedo. A senhora Hargrove me manda polir toda a prataria na cozinha e depois limpar os lustres da sala de estar. Estou em cima da escada, esticando os braços para alcançar as peças de cristal, quando o senhor Albert Whinches entra na sala.

Ele para e observa meu trabalho. Depois fala, a voz cortante:

— Você está deixando marcas de dedo no cristal. De novo. Quantas vezes preciso repetir que tudo tem que ficar impecável? Uma empregada de verdade não precisaria de tanto lembrete. Parece que você não tem a mínima habilidade para isso.

Sinto um aperto forte no peito. Desço da escada devagar, as mãos tremendo.

— Desculpe, senhor. Vou limpar novamente.

Ele balança a cabeça, visivelmente irritado.

— Desculpas não limpam nada. Olhe o estado dessa sala. Você trabalhou o dia inteiro ontem e ainda está assim? Eu pago bem para ter qualidade, não para ver esse serviço medíocre. Se não consegue acompanhar o ritmo, talvez seja melhor procurar outro lugar. Isso aqui não é caridade.

As palavras dele são piores que nos dias anteriores. Fico parada, olhando para o chão, com vontade de desaparecer. Ele sai da sala sem esperar resposta. Termino de limpar o lustre com os olhos marejados e sigo para a cozinha. Lá, a senhora Hargrove me vê com o rosto vermelho e reclama:

— Ana, controle-se. O senhor Whinches já reclamou duas vezes hoje. Você precisa melhorar rápido ou não vai durar. Pare de ficar com essa cara de derrotada e foque no trabalho.

Concordo em silêncio e continuo polindo a prataria. Minhas mãos doem e a humilhação pesa.

Pouco antes do almoço, o senhor Whinches volta à cozinha enquanto arrumo os talheres. Ele pega um garfo, examina e j**a de volta na gaveta.

— Ainda sujo. Isso é inaceitável. Você realmente não aprende, não é? A governanta me disse que você estava chorando ontem. Se vai trazer drama para dentro da minha casa, melhor nem voltar amanhã. Eu não tenho tempo para esse tipo de coisa.

A senhora Hargrove, que estava perto, intervém:

— Realmente, senhor. Acho que não precisamos mais dela.

Fico sem ar. As lágrimas ameaçam cair, mas seguro. Eles saem e me deixam sozinha na cozinha. Durante a folga curta, pego o telefone e mando mensagem para Lívia:

“Dia horrível de novo. Ele me humilhou feio, disse que sou incompetente e a governanta falou que nem preciso voltar. Estou péssima.”

Ela responde quase imediatamente: “Respira. Conta tudo quando puder. Você não merece isso. Aguenta só hoje.”

As palavras dela me dão um pouco de força. Termino o expediente com o corpo e a mente exaustos, limpando tudo com movimentos mecânicos. Quando vou avisar que terminei, o senhor Whinches está no hall. Ele olha ao redor e, pela primeira vez, fala algo diferente:

— Pelo menos hoje a prataria ficou decente. Você fez algo de útil. Pode ir.

— Obrigada, senhor — respondo baixo, aliviada por ouvir qualquer coisa positiva.

Saio da mansão, entro no meu carro velho e dirijo para o apartamento. Chego, tomo banho e sento no sofá. Lívia chega logo depois, preocupada. Conto tudo: as humilhações repetidas, as palavras duras, a governanta dizendo que não preciso voltar.

— Eu me sinto tão inútil, Lívia. Só você que eu tenho. Meus pais se foram e não tem mais ninguém. Hoje foi pior que tudo.

Ela me abraça forte.

— Chega. Você não vai voltar praquele lugar. Hoje a gente sai. Meu amigo Cláudio é dono de um bar legal no centro de Nova York. Vamos pra lá, beber alguma coisa, cantar karaokê e esquecer esse dia horrível.

Aceito. Tomamos um táxi e chegamos ao bar do Cláudio, um lugar animado com luzes coloridas, mesas de madeira e um palco pequeno no fundo. Cláudio nos recebe com um abraço e nos arruma uma mesa boa. O ambiente está cheio, com música tocando e gente rindo.

Pedimos drinks e petiscos. Logo o karaokê começa. Lívia me arrasta para o palco. Cantamos “I Wanna Dance with Somebody” da Whitney Houston, errando a letra e rindo muito. Depois eu escolho uma música brasileira e cantamos juntas, dançando desajeitadas e nos divertindo. Cláudio sobe com a gente em uma música e o bar inteiro canta junto. Bebemos mais um drink, rimos das nossas vozes desafinadas e dançamos entre as mesas.

Por algumas horas, esqueço a mansão, as humilhações e o cansaço. Só existe a música alta, a risada da Lívia e a sensação boa de estar com as pessoas que me fazem bem. Saímos do bar tarde, cansadas mas leves, e volto para casa com a certeza de que amanhã não volto para aquele emprego. Entre uma música e outra, ficamos na mesa rindo das nossas próprias performances, bebendo refrigerante com uma dose de vodca e comendo batata frita quente. Dançamos no meio do salão quando toca um funk brasileiro antigo, mexendo os ombros e girando desajeitadas. Cláudio nos conta histórias engraçadas da oficina e de clientes estranhos, e rimos tanto que minha barriga dói. Lívia tira fotos nossas fazendo caretas e cantando, e por um tempo longo esqueço completamente a mansão. São horas leves, suadas, com a voz rouca de tanto cantar e o coração mais quente. Saímos do bar quase à uma da manhã, abraçadas, felizes e exaustas.

...

Acordo sobressaltada às oito da manhã com o celular vibrando na mesinha. Vejo seis ligações perdidas do senhor Albert Whinches e três da senhora Hargrove. Meu coração acelera.

Mas eles não me demitiram ontem?

Foco confusa. Visto o uniforme às pressas, lavo o rosto e dirijo o mais rápido que consigo até a mansão, com dor de cabeça latejando.

Chego ofegante. A senhora Hargrove abre a porta com cara fechada e me leva direto até o escritório do senhor Whinches. Ele está de pé, braços cruzados, olhar frio.

— Chegou atrasada — diz ele imediatamente.

— Desculpe, senhor. Eu… pensei que não precisava mais voltar.

Ele me encara.

— Você só vai ser demitida quando eu falar que é. Agora vá trabalhar. A prataria da sala de jantar precisa ser limpa de novo.

Fico parada, o cansaço da noite, a dor de cabeça e a humilhação acumulada dos dias anteriores me fazendo perder o controle.

— Espere. Podemos conversar um minuto? — peço, a voz tremendo mas firme.

— Não temos nada o que falar. — Me reprime.

— Ah, temos sim. O senhor não pode me tratar desse jeito. Eu tenho me esforçado todos os dias, chego no horário, faço tudo que mandam.

— Garota.

— Eu to falando. — Grito — Mas o senhor me humilha o tempo todo, fala que sou incompetente, que meu trabalho é medíocre. Eu mereço respeito. O senhor é arrogante. Acha que porque é bilionário pode pisar nas pessoas como quiser? Eu realmente preciso desse emprego, mas não vou mais aceitar ser tratada dessa forma. Ninguém merece isso.

Ele arregala os olhos, claramente surpreso. A senhora Hargrove, ao lado, fica séria, com a boca apertada em uma linha fina.

Albert Whinches me observa por alguns segundos longos, o rosto impassível. Depois fecha a cara, mas responde com voz calma e controlada:

— Limpe a prataria da sala de jantar. Agora.

Ele se vira e se retira do escritório sem dizer mais nada. Fico parada por um instante, com o coração batendo forte, as mãos suadas. A governanta me lança um olhar de advertência e sai também.

Respiro fundo, ainda com dor de cabeça, e vou para a sala de jantar. Pego os materiais e começo a polir cada peça de prataria com movimentos lentos e mecânicos. O cansaço pesa nos ombros, mas continuo o trabalho em silêncio, o eco da conversa ainda na cabeça. O dia segue assim, pesado e tenso, enquanto limpo, organizo e cumpro as tarefas que me passam.

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