Viagem

Alguns dias depois, durante o almoço na cozinha de serviço, comentei casualmente com Albert que gostaria de folga no próximo feriado prolongado. Para minha surpresa, ele concordou sem reclamar.

No mesmo dia, à noite, Lívia, Cláudio e eu combinamos tudo por chamada de vídeo:

— Vamos pra fazenda do meu pai! — diz Cláudio animado. — Tem piscina, churrasqueira, cavalos e muito espaço. Vai ser top!

Aceitamos na hora. Passamos os dias seguintes nos preparativos: compramos carne, cerveja, salgadinhos, protetor solar e roupas leves. Eu arrumei uma mala pequena com biquíni, shorts e vestidos leves. Lívia fez uma playlist enorme chamada “Churrasqueira e Fofoqueira”.

No feriado, saímos cedo. Dirigimos por quase quatro horas até a fazenda de Cláudio, no interior do estado. O lugar é lindo. A casa principal é uma construção antiga e charmosa de madeira, com varanda ampla. Ao redor, um gramado verde enorme, uma piscina cristalina, um pequeno lago e árvores frutíferas por todos os lados. O ar é puro, com cheiro de mato e terra molhada.

Assim que chegamos, soltamos as malas e corremos para explorar. Cláudio nos mostra tudo: o celeiro antigo, o curral dos cavalos e o deque de madeira com vista para o lago.

— Bem-vindos ao paraíso dos pobres! — declara ele, abrindo os braços.

Passamos o dia inteiro nos divertindo. Nadamos na piscina, rimos muito jogando água uns nos outros, tomamos sol e bebemos cerveja gelada. À tarde, Cláudio acende a churrasqueira enquanto Lívia e eu preparamos salada e arroz.

Sentamos os três na varanda, comendo e conversando sobre tudo: lembranças da faculdade, histórias engraçadas da oficina, meus dramas com Albert e os planos para o futuro. Somos melhores amigos desde sempre, então o papo flui fácil, cheio de provocações e risadas.

— Você ainda não respondeu o bilionário? — pergunta Lívia, comendo um pedaço de picanha.

— Não. Ele mandou mensagem mais cedo perguntando onde eu estava. Ignorei.

Tiro uma foto linda nossa três sentados na varanda ao pôr do sol, com copos de cerveja na mão e sorrisos enormes. Posto no I*******m com a legenda: “Melhor feriado com as pessoas certas 🌾❤️”

Não passa nem dez minutos e as notificações começam a chegar:

**Albert:** Onde você está?

**Albert:** Ana?

**Albert:** Responde, por favor.

**Albert:** Você vai ficar ignorando minhas mensagens?

Ignoro todas. Bloqueio a tela do celular e guardo no bolso. Não quero estragar o momento.

Cláudio percebe e ri.

— Deixa o homem sofrer um pouco. Aqui é nosso momento.

Continuamos a noite ao som de música, contando piadas, dançando na varanda e fazendo fogueira. Rimos até tarde, relembrando histórias antigas e fazendo planos para o futuro. Durmo no quarto de hóspedes com a sensação boa de liberdade e amizade verdadeira.

Albert continua mandando mensagens durante a noite. Deixo todas sem ler.

A noite na fazenda foi incrível. Depois do jantar, ficamos os três na varanda com a fogueira acesa, o céu estrelado acima de nós e o som dos grilos ao fundo. Cláudio trouxe o violão e tocou algumas músicas sertanejas enquanto Lívia e eu cantávamos desafinadas, rindo muito.

Bebemos mais cerveja, contamos histórias antigas da época da escola e rimos até a barriga doer. Lívia imitou o Albert sendo frio e eu imitei a mim mesma fugindo dele. Cláudio quase chorou de tanto rir.

— Esse homem vai acabar tendo um treco quando descobrir que você tá aqui com a gente. — disse Cláudio, limpando as lágrimas.

— Ele que vá a merda.

Ficamos acordados até quase as três da madrugada, comendo marshmallow assado na fogueira, dançando músicas antigas e falando bobagens. Foi uma das noites mais leves e divertidas que tivemos em muito tempo. Acabei dormindo com um sorriso no rosto.

Por volta das quatro e meia da manhã, meu celular vibra na mesinha. Mensagem de Albert:

**Albert:** Eu sei onde você está. Saia na porta da casa agora.

Fico nervosa na hora. O coração acelera. Como ele descobriu? Levanto da cama, coloco um moletom por cima da roupa e saio descalça para a varanda da frente. O Mercedes preto dele está parado na entrada de terra. Albert desce do carro e vem andando na minha direção com passos firmes.

— Por que não me responde? — pergunta ele, parando a poucos metros de mim. A voz está baixa, mas carregada de irritação.

— Porque eu não quero — respondo, cruzando os braços. — Você é meu chefe, Albert, não meu dono. Não preciso te dar satisfação de onde eu estou no meu dia de folga.

Ele passa a mão no cabelo, visivelmente frustrado.

— Eu te dei folga e você vem pra cá com seus amigos sem me falar nada? E ainda posta foto como se estivesse se exibindo?

— Me exibindo?! — elevo a voz. — Eu estou vivendo a minha vida, Albert! Você não tem o direito de aparecer aqui no meio da madrugada cobrando nada de mim.

Ele dá mais um passo, aproximando o rosto do meu. A tensão entre nós explode.

— Você sabe o que eu sinto por você. E fica fugindo, me ignorando…

— Você sente tesão, o mesmo que por qualquer mulher que vê.

— Não é bem assim.

— Você só não enfia o pau na tomada porque da choque.

Antes que eu possa responder, ele segura meu rosto com as duas mãos e tenta me beijar. Reajo por instinto: dou um tapa forte no rosto dele.

Albert para, surpreso, com a mão no rosto onde bati.

— Nunca mais faça isso — digo, a voz tremendo de raiva e emoção. — Eu já te falei mil vezes: eu não quero ficar com você. Não vou ser mais uma das mulheres que você leva pra cama e esquece no dia seguinte. Eu não sou assim, Albert. E se você não consegue respeitar isso, então me deixa em paz.

Ele me olha por longos segundos, o maxilar tenso. Depois dá um passo para trás.

— Tudo bem — murmura, a voz rouca. — Eu vou embora.

Ele entra no carro, liga o motor e vai embora pela estrada de terra, levantando poeira no escuro.

Fico parada na frente da casa, com o coração acelerado e a mão ainda formigando do tapa. Volto para dentro devagar, tentando acalmar a respiração.

A noite, que era tão perfeita, terminou de um jeito que eu não esperava.

Esse homem é muito sem noção.

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