Mundo de ficçãoIniciar sessãoA chuva que castigara a cidade durante a tarde dera lugar a uma cerração úmida, típica das noites paulistanas, quando Anne avistou Nicholas à espera dela na calçada de uma rua secundária, longe do brilho ostensivo da Faria Lima. Ele havia trocado o carro oficial por um SUV discreto e o terno por um pulôver de cashmere escuro que o deixava com um aspecto quase acessível, se não fosse pela aura de autoridade que ainda o perseguia.
— Eu conheço um lugar — disse ele, abrindo a porta para ela com um cavalheirismo que parecia natural, mas que Anne recebia com um frio no estômago. — Um lugar onde as paredes não têm ouvidos e o café é moído na hora. O destino era um bistrô escondido em uma viela dos Jardins, um refúgio de luz âmbar e estantes de livros que parecia pertencer a outra década. O tilintar das colheres de porcelana e o aroma reconfortante de grãos torrados criavam uma barreira protetora contra o mundo corporativo que os cercava. Sentados em uma mesa de canto, Nicholas pediu dois expressos duplos, e o silêncio que se instalou não era desconfortável, mas carregado de uma expectativa expectante. — Você parece diferente aqui — Anne observou, observando como o reflexo das luminárias suavizava os traços rígidos de Nicholas. — Menos como o homem que movimenta mercados e mais como alguém que... gosta de ler. Nicholas deu um sorriso contido, girando a xícara pequena entre os dedos longos. — Eu comecei lendo manuais de economia, mas sempre preferi biografias de exploradores — ele confessou, a voz baixando de tom. — Há algo de solitário em ser o primeiro a cruzar uma fronteira, seja ela geográfica ou financeira. As pessoas veem o topo da montanha, Anne, mas raramente perguntam sobre o frio da subida. Anne sentiu uma pontada de identificação. Ela sabia o que era a solidão de um percurso ascendente, embora o dela fosse marcado por servidores e preconceitos de gênero, não por planilhas de investimento. — Eu também conheço esse frio — ela disse, sua voz ganhando uma vulnerabilidade que raramente permitia aflorar no escritório. — Meu maior medo sempre foi ser considerada apenas uma "cota" ou um rosto bonito em um departamento técnico. Eu sonhava em construir algo que sobrevivesse à minha própria presença. Um código que fosse perfeito. Mas, às vezes, sinto que, na busca pela perfeição, acabei me tornando um sistema fechado demais. Nicholas esticou o braço sobre a mesa de madeira rústica e tocou a mão dela, não com a urgência do beijo na presidência, mas com um suporte calmo. — Você não é um sistema fechado para mim, Anne. Você é a única pessoa que conseguiu ver as falhas na minha própria arquitetura. Sabe, meu pai sempre disse que um líder nunca pode mostrar dúvida. Eu passei trinta e cinco anos acreditando que a vulnerabilidade era um vírus que precisava ser deletado. Mas quando estou com você, parece que posso finalmente fazer o logoff. Anne sentiu as lágrimas ameaçarem os olhos e as desviou para o café preto. Ouvir Nicholas — o homem de ferro da corporação — falar de suas dúvidas de infância e da pressão de carregar um legado familiar removia as camadas de proteção que eles haviam construído. — Eu sonhava em ser astronauta — Anne riu baixinho, lembrando-se da menina que olhava para o céu da periferia. — Queria entender como as coisas funcionam em uma escala universal. Acabei descobrindo que o universo dos dados é igualmente vasto e silencioso. Mas, às vezes, eu só queria que alguém soubesse que eu também fico com medo quando o sistema cai. — Eu sei — Nicholas sussurrou, apertando levemente os dedos dela. — E eu vou estar lá na próxima vez que o sistema cair. Não como seu CO, mas como o homem que quer garantir que você nunca mais enfrente o escuro sozinha. A conversa fluiu para além das obrigações, entrando no terreno dos filmes favoritos, dos discos de vinil que Nicholas colecionava em segredo e das viagens que Anne ainda desejava fazer. A cada revelação, uma barreira pessoal se partia. O café esfriou nas xícaras, mas a conexão entre eles ardeu com uma intensidade nova. Ali, entre livros antigos e o aroma de baunilha, eles não eram peças de uma engrenagem corporativa; eram duas almas compartilhando o raro luxo de serem vistas como realmente eram. Ao saírem do bistrô, o ar da noite parecia mais leve. Nicholas a acompanhou até o carro, e por um momento, pararam sob o abrigo de um toldo. Ele a envolveu em um abraço longo, o tipo de abraço que dizia mais sobre amizade e cumplicidade do que qualquer contrato de confidencialidade poderia expressar. O segredo do café não era apenas o local ou o encontro proibido, mas a descoberta de que, sob as armaduras de sucesso e competência, ambos buscavam a mesma coisa: alguém que conhecesse seus códigos mais profundos e, ainda assim, decidisse não os mudar. E enquanto o SUV se afastava pelas ruas desertas, Anne percebeu que a segurança que ela tanto prezava nos seus sistemas jamais seria tão reconfortante quanto a vulnerabilidade que acabara de dividir com Nicholas.






