Firewall Emocional

A manhã seguinte ao encontro no café trouxe consigo a ressaca moral da realidade. Para Anne, atravessar as catracas do prédio na Faria Lima não era mais apenas o início de uma jornada técnica; era como penetrar em um sistema onde ela havia injetado um código malicioso de alto risco. O ar-condicionado parecia mais gelado, e o brilho das luzes fluorescentes sobre sua mesa de trabalho denunciava cada uma de suas inseguranças. Ela sentia que sua pele carregava o rastro do toque de Nicholas, e a cada vez que o elevador executivo apitava, seus dedos travavam sobre o teclado.

A decisão foi mútua, embora não explicitada em palavras até aquele momento. Eles ativaram o que Anne secretamente chamava de seu firewall emocional.

— Anne, o Nicholas solicitou o relatório de contingência para o projeto de fusão — disse Paulo, entrando em seu cubículo com uma expressão de estranha importância. — Ele quer que você suba para explicar os pontos de vulnerabilidade.

Anne respirou fundo, sentindo o peso do conflito ético comprimir seu peito.

— Peça ao Marcos para levar, Paulo. Eu estou finalizando a criptografia da base de dados e não posso interromper o processo agora.

O supervisor arqueou as sobrancelhas. Recusar um chamado direto da presidência era algo inédito para ela.

— Você tem certeza? Ele foi específico sobre querer a sua análise.

— Absoluta. O Marcos tem os mesmos dados. A eficiência técnica será a mesma — ela mentiu, focando intensamente na tela, onde as linhas de comando pareciam zombar de sua tentativa de manter a distância.

No trigésimo andar, a reação de Nicholas não foi diferente. Ao ver Marcos entrar em sua sala em vez de Anne, ele sentiu uma pontada de frustração que quase o fez perder a compostura. Ele sabia exatamente o que ela estava fazendo. Ela estava erguendo as defesas, protegendo a carreira que ambos sabiam estar em perigo se aquele magnetismo persistisse. Nicholas dispensou Marcos em menos de cinco minutos, incapaz de digerir as informações técnicas sem a clareza da voz dela.

Ele caminhou até a janela, olhando para a massa de carros lá embaixo. Como CEO, ele deveria ser o guardião das normas de conduta da empresa. Casos entre superiores e subordinados eram o pesadelo do departamento jurídico e a faísca para escândalos que podiam derrubar o valor das ações em questão de horas. Mas a racionalidade do cargo lutava contra a memória sensorial daquela noite no bistrô. Ele ainda podia sentir a vulnerabilidade dela, a forma como ela falava sobre seus sonhos de infância.

A tensão se intensificou durante uma videoconferência geral no meio da tarde. Anne estava no auditório do subsolo, Nicholas no palco principal. Em um ambiente repleto de centenas de funcionários, eles eram as únicas pessoas que compartilhavam um segredo capaz de incinerar aquele edifício. Nicholas falava sobre "sinergia" e "integração", termos que, na frequência privada entre eles, soavam como provocação pura.

Anne evitava olhar diretamente para o palco, mas sentia o olhar dele a buscando na multidão. Quando seus olhos finalmente se cruzaram por um milésimo de segundo, a pulsação dela disparou. Era uma tensão sexual crua, disfarçada de protocolo corporativo. O desejo não era apenas físico; era a necessidade de continuar a conversa que fora interrompida, de derrubar as paredes de jacarandá e silício que os separavam.

Ao final do dia, a resistência de Anne foi testada novamente. Ela recebeu um e-mail oficial de Nicholas com cópia para o RH e para a diretoria de tecnologia. O assunto era estritamente profissional: "Revisão dos Protocolos de Criptografia Quântica". Mas, no anexo oculto em uma pasta de sistema que só ela saberia onde procurar, havia um arquivo de texto simples com uma única frase: A lógica diz para parar, mas o sistema está em colapso sem você.

Ela sentiu um calor subir pelo pescoço. Era perigoso. Era irracional. Se um auditor de TI varresse aquela rede, as entrelinhas seriam lidas. Ela deletou o arquivo imediatamente, mas o conteúdo ficou gravado em sua mente.

— Não podemos fazer isso — murmurou Anne para si mesma, fechando os olhos. — O custo do erro é alto demais.

Ela passou a hora seguinte redigindo uma resposta interna, mantendo o tom mais frio e burocrático possível. Ela falava de "segurança multicamadas", de "redundância" e de "limitação de privilégios de acesso". Cada termo técnico era um tijolo que ela colocava em sua barragem emocional. Nicholas leu a resposta em seu tablet enquanto o motorista o levava para casa. Ele entendeu o recado. Ela estava reforçando o firewall. Ela estava pedindo proteção contra ele — e contra si mesma.

A noite em São Paulo parecia mais longa do que o normal. Nos seus respectivos apartamentos, ambos encaravam o teto, lidando com a frustração de uma proibição que só tornava o desejo mais potente. O firewall emocional estava ativo, as regras estavam sendo seguidas e a distância profissional fora restabelecida. No entanto, em meio ao isolamento, ambos sabiam que qualquer sistema, por mais protegido que fosse, tinha uma porta dos fundos. E o desejo, como o vírus mais sofisticado do mundo, estava apenas esperando a próxima brecha para assumir o controle total.

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