Mundo de ficçãoIniciar sessãoA garoa fina de São Paulo começava a embaçar as vidraças do trigésimo andar, borrando as luzes da cidade em um mosaico de cores distantes. O relógio de parede marcava pouco mais de nove da noite, e o prédio, outrora vibrante com o som de centenas de funcionários, agora mergulhara em um silêncio profundo, interrompido apenas pelo zumbido quase imperceptível do sistema de climatização. Anne estava sentada à mesa de conferências da presidência, cercada por diagramas de rede e relatórios de fluxo de dados. Ao seu lado, Nicholas não estava em sua poltrona de couro habitual; ele estava na cadeira contígua à dela, tão próximo que o calor de sua presença era uma distração constante.
— Se cruzarmos esses novos protocolos de segurança com a latência da filial coreana, ganharemos quatro milissegundos na execução — Anne explicou, apontando para uma linha de código no monitor compartilhado. — Parece pouco, mas em alta frequência, é uma fortuna. Nicholas não olhou para a tela. Ele estava apoiado sobre a mesa, o terno descartado no encosto da cadeira e as mangas da camisa branca dobradas até os antebraços, revelando um relógio imponente e a tensão muscular de quem carregava o peso da empresa nos ombros. — Quatro milissegundos — ele repetiu, a voz mais baixa e rouca devido ao cansaço e à hora avançada. — Você é obcecada por precisão, não é, Williams? — A imprecisão custa caro, senhor — ela respondeu, sentindo o olhar dele percorrer seu rosto. — Nicholas — ele corrigiu suavemente. — Já passou da hora de deixarmos o "senhor" para o horário comercial, Anne. Especialmente quando somos as únicas duas pessoas neste andar. Anne hesitou, a caneta suspensa sobre o papel. Chamar o homem mais poderoso daquela corporação pelo primeiro nome parecia uma quebra de sistema, uma violação de um protocolo que ela passara anos refinando. Mas, ao olhar para ele, não viu o CEO implacável; viu um homem cujos olhos cinzentos revelavam uma admiração que ia muito além da sua competência com os servidores. — Nicholas — ela disse, e o som do nome dele em sua boca pareceu preencher o espaço entre eles com uma intimidade nova e perigosa. Ele sorriu, um meio-sorriso genuíno que suavizou as linhas duras de seu rosto. Nicholas esticou o braço e, em vez de apontar para o gráfico, tocou levemente a mão de Anne que segurava a caneta. Foi um contato deliberado. Seus dedos envolveram os dela por um segundo, uma pressão firme que fez a pulsação de Anne acelerar instantaneamente. — Você nunca descansa? — ele perguntou, aproximando-se um pouco mais. O cheiro de seu perfume, uma mistura de sândalo e algo cítrico, envolveu os sentidos dela. — Eu a observo nas reuniões. Você está sempre processando tudo, sempre à frente de todos na sala. Às vezes me pergunto o que acontece por trás dessa sua fachada de lógica inabalável. Anne sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela deixou a caneta sobre a mesa, mas não afastou a mão. — Por trás da lógica, há apenas mais lógica, Nicholas. É um mecanismo de defesa. Se tudo puder ser codificado e previsto, nada pode me machucar ou me surpreender. — E você não gosta de surpresas? — Ele deslizou o polegar sobre o dorso da mão dela, um gesto de carinho que contrastava com o ambiente frio e corporativo. — Porque eu passei a última década da minha vida prevendo o mercado, e você foi a única variável que eu não vi chegar. O subtexto entre eles era tão tangível quanto o metal da mesa. Não falavam apenas de tecnologia ou de trabalho; falavam da eletricidade que os atraía desde o primeiro encontro. Nicholas inclinou-se, reduzindo a distância entre seus rostos a poucos centímetros. Anne podia ver a complexidade das íris dele, os pequenos pontos escuros que pareciam absorver toda a luz da sala. — Eu não deveria estar aqui — ela murmurou, embora seu corpo desmentisse suas palavras, inclinando-se inconscientemente em direção a ele. — Eu sei —Nicholas sussurrou, a voz vibrando nela. — Mas não consigo encontrar uma razão lógica para pedir que você vá embora. Na verdade, tudo o que eu quero é um motivo para que você fique. Ele soltou a mão dela para tocar seu rosto, o polegar traçando o contorno de seu lábio inferior com uma delicadeza que Anne nunca associaria a um homem daquela estatura social. O desejo floresceu como uma faísca em um tanque de combustível. A tensão das últimas semanas, os olhares trocados nos corredores e as gentilezas silenciosas estavam convergindo para aquele momento de suspensão. — Nicholas, as regras da empresa... — ela começou a dizer, mas ele a silenciou, aproximando seus lábios até que suas respirações se misturassem. — As regras foram feitas por homens que nunca sentiram o que eu sinto quando você entra na minha sala — ele declarou com uma intensidade feroz. — Eu posso gerir qualquer crise, Anne. Menos a crise que você causa em mim toda vez que me olha desse jeito. O primeiro contato real foi um beijo suave, quase exploratório, iniciado por Nicholas. Foi o toque de lábios que carregavam a fome de semanas de repressão. Anne fechou os olhos, entregando-se à sensação, a lógica finalmente cedendo espaço à emoção pura. Era um beijo que sabia a risco e a proibição, mas também a uma inevitabilidade que nenhum dos dois podia mais negar. Quando se separaram, apenas o suficiente para recuperarem o fôlego, Nicholas manteve a testa encostada na dela. Suas mãos agora emolduravam o rosto de Anne, protegendo-a e reivindicando-a ao mesmo tempo. — Agora você tem uma nova linha de código para processar — ele disse, com um tom de brincadeira que mascarava a profundidade de seu sentimento. — Essa é uma falha no sistema que eu não quero consertar — Anne respondeu, um sorriso suave surgindo em seus lábios. Eles ficaram ali por mais algum tempo, cercados pelos diagramas de rede que agora pareciam irrelevantes diante da nova conexão que haviam estabelecido. A reunião após o expediente não resultara em um novo protocolo de segurança ou em um aumento de eficiência de milissegundos, mas em algo muito mais duradouro e perigoso. Entre as sombras da presidência e a garoa de São Paulo, o CO e a subordinada haviam finalmente quebrado a última barreira de comando, permitindo que a primeira faísca de intimidade incendiasse o que, até então, era apenas uma fria arquitetura corporativa.






