Mundo ficciónIniciar sesiónAo fim da aula, o som das risadas infantis preencheu o estúdio e invadiu a recepção.
Nathan tinha passado a última hora evitando aprofundar a conversa com duas mães que estavam impressionadas por verem um homem levar a filha ao ballet. Elas não notaram, ou fingiram não notar, os sinais de que ele não estava interessado no assunto: dois bocejos reprimidos, frases curtas, o olhar fixo na tela do celular. O que mais poderia fazer para ser deixado em paz?
Quando uma das mulheres pediu seu número de telefone, Emma correu para abraçá-lo.
Um sorriso de alívio atravessou os lábios de Nathan.
Sophia não demorou a chegar na recepção. Ela distribuiu elogios às alunas e fez comentários bastante positivos sobre o desempenho de cada uma. Aproveitou para lembrar às mães que o tema do festival de fim de semestre seria divulgado na semana seguinte. Despediu-se das crianças com beijos e abraços calorosos.
A última a se aproximar foi Emma.
— Tchau, professora.
Mas, antes que Sophia pudesse abraçá-la, a pequena bailarina viu algo que chamou sua atenção.
O vidro com balas coloridas sobre o balcão.
— Pai! — exclamou. — Posso escolher uma?
— Só uma. — Nathan sorriu.
Emma se aproximou do pote como se estivesse diante de algo extremamente valioso. Com os olhos fixos nas balas, coçou a cabeça e começou a refletir.
— Ela fala em você todo dia — Nathan comentou em voz baixa.
— Espero que fale bem — Sophia abriu um sorriso um tanto inseguro.
— Não se preocupe, são só elogios.
— Fico muito feliz em saber. Emma é uma menina incrível.
— Obrigado.
Ficaram em silêncio por alguns segundos.
Nathan se surpreendeu ao perceber que queria continuar a conversa, mas não sabia como.
Ou por quê.
Seus olhos castanhos varreram a recepção por um momento até pararem no retrato de Sophia saltando no centro do palco. O movimento parecia absurdamente difícil. Apenas longas horas de treino e uma boa dose de talento permitiriam que um ser humano voasse daquela forma. Mas Sophia sorria como se nunca tivesse feito nada mais fácil.
— Eu tinha dezoito anos. — Ela comentou. — A foto foi tirada em um ensaio da minha antiga companhia de ballet.
— Então você dançava profissionalmente? — Nathan voltou a encará-la.
Sophia assentiu, mas havia certa tristeza em seu olhar.
— Sente saudade?
— O tempo todo… Mas e você? Sempre quis trabalhar… — Hesitou. — Com prédios?
— Sinceramente? Não. — Ele deixou que uma risada discreta escapasse. — Meu pai fundou a empresa e se dedicou de corpo e alma por mais de vinte anos. Não tenho irmãos, então quando ele faleceu, tive que assumir sozinho.
— Você achou difícil?
— No início? Um pouco. Mas depois que peguei o jeito dos negócios, ficou mais fácil. Não me arrependo dos tropeços. O lado ruim é que hoje entendo mais de planilhas do que de pessoas.
— Pois saiba que nem parece. — Sorriu.
— Você só diz isso porque nunca me viu em reunião.
— É mesmo? Agora estou curiosa.
— Acredite, não é uma cena muito bonita — brincou.
Os dois se olharam em silêncio por um tempo que pareceu se alongar demais.
Nathan notou quando as bochechas de Sophia enrubesceram.
— Pai, escolhi! — A voz de Emma soou firme. — Demorei porque precisava ter certeza.
— Qual você escolheu? — Ele perguntou.
— Pêssego.
— Ótima escolha! É meu favorito — disse Sophia.
Emma abraçou a professora antes de segurar a mão do pai.
— Nos vemos na quinta. — Nathan acenou.
— Até lá.
Pensou ter visto o sorriso de Sophia murchar antes de caminhar para a porta.
— — —
O dia seguinte amanheceu escuro e frio. Folhas secas rodopiavam sobre as ruas de Manhattan, jogando-se nos transeuntes distraídos. Uma chuva fina caía do céu cinzento. Já era chegada a época de tirar os casacos dos armários.
Nathan mal havia sentado à mesa do escritório quando Jane, sua secretária, bateu à porta.
— Com licença, senhor Fletcher. O doutor Lee quer conversar. Diz que será rápido.
— Deixe entrar.
O advogado entrou na sala com uma pasta em mãos. Parecia nervoso, talvez apressado.
— Senhor Fletcher, preciso que você assine algumas autorizações para a retomada de imóveis com pagamentos atrasados.
Era um procedimento tão rotineiro que Nathan mal prestou atenção à documentação. Folheou os papéis quase sem interesse, passando os olhos pelos endereços e nomes de inquilinos. Começou a assinar de forma automática.
Mas quando chegou ao quinto papel, franziu o cenho.
O endereço era familiar.
Procurou o nome do locatário.
Studio de Ballet Joanne Dashwood.
A escola de Sophia.
— Este inquilino não paga há três meses — explicou o doutor Lee. — O prazo é até amanhã, mas se ele não pagou até agora, duvido muito que ainda vá pagar. Vamos deixar a documentação pronta.
Nathan ficou imóvel, o coração ameaçando sair pela boca.
Segurou a caneta e encarou a linha de assinatura.
O advogado aguardava.
E pela primeira vez em sua carreira, Nathan sentiu que não estava lidando somente com números, mas com o futuro de uma pessoa.







