5.

— Preciso conversar com você.

Sophia prendeu o ar. Nenhuma notícia boa vinha depois daquela frase.

Encarou Ava com um sorriso forçado. A adolescente era a aluna mais talentosa da turma avançada. Se resolvesse se dedicar ao ballet de verdade e fazer aulas extras, poderia ir muito longe na carreira. Sophia planejava dar a ela um solo importante na apresentação de fim de semestre. E talvez o papel principal.

Mas o olhar triste de Ava indicava que os planos seriam frustrados.

— Resolvi sair do ballet depois deste mês.

— Lamento ouvir isso. — Sophia tentou soar compreensiva, mantendo a voz baixa e controlada. — Aconteceu algo que te desagradou?

— Não, pelo contrário, eu adoro as aulas e o estúdio. Não foi uma decisão fácil, mas estou no penúltimo ano do ensino médio e quero me dedicar aos estudos. Meu sonho é ser médica e só vou conseguir entrar em uma universidade de prestígio se tiver um boletim impecável.

— Entendo completamente — assentiu, sorrindo de modo genuíno. — Vamos sentir sua falta por aqui. Você é uma bailarina incrível, Ava, mas está certa em seguir seu sonho.

— Obrigada pela compreensão. Posso te dar um abraço?

— Claro! — Aceitou o abraço já sentindo uma espécie de saudade antecipada.

Quando Ava saiu e a recepção ficou vazia, a professora fechou os olhos e soltou um suspiro frustrado. Agora só restavam três alunas avançadas. O ideal seriam doze, no mínimo. Como organizaria uma boa apresentação de fim de semestre com tão poucas garotas?

Eram sete e cinco da noite. Sophia foi até a porta e virou a placa para FECHADO antes de trancar. Caminhou de forma automática em direção ao vestiário, seus pensamentos agitados, tentando encontrar uma solução para o problema financeiro. Mas, mesmo que, por um milagre, conseguisse salvar o estúdio da falência, precisaria dar um jeito de captar novas alunas.

Como?

Após trocar de roupa e voltar à recepção de mochila nas costas, viu o celular vibrar no balcão.

Uma notificação de Hannah.

“Droga”, pensou. Tinha esquecido que havia marcado de jantar com a amiga. Ao menos, a cafeteria era bem perto e ficava no caminho de seu apartamento.

Mandou uma resposta rápida para confirmar o encontro e saiu.

— — —

O cheiro de café e canela fez Sophia salivar.

Hannah ocupava um lugar ao lado da janela, longe dos outros clientes. Seu cabelo castanho estava preso em um elegante rabo de cavalo, e duas mechas cacheadas emolduravam o rosto corado. A blusa folgada, a legging e os sapatos de corrida denunciavam que ela havia acabado de se exercitar.

Quando viu Sophia, cruzou os braços.

— Vou cobrar multa por atraso.

— Você não faria isso.

— Claro que não. — Sorriu.

Hannah era amiga de Sophia desde os doze anos, quando ainda moravam em Nova Jersey e sonhavam em conquistar o mundo. Não perderam contato nem depois que Sophia se mudou para Paris e Hannah foi fazer faculdade na Califórnia. A vida deu um jeito de reuni-las de novo em Nova York.

— Como está a floricultura? — Sophia perguntou, sentando-se em frente à amiga.

— Vai bem. Felizmente, os nova iorquinos são muito românticos. — Riu. — Como vai o estúdio?

— Na mesma.

— Ainda com poucas alunas? — Seu olhar entristeceu.

— E hoje perdi mais uma.

O garçom se aproximou. Hannah pediu um croissant e café puro enquanto Sophia optou por uma fatia de bolo e cappuccino.

— Mas você está conseguindo manter as contas em dia? — Hannah arqueou a sobrancelha.

— Recebi uma notificação extrajudicial. Se eu não der um jeito de pagar os aluguéis atrasados, vou ser despejada.

Os olhos de Hannah se arregalaram.

— Meu Deus, Sophia…

— O prazo é a próxima quinta.

— Você devia ter me contado antes. Por que não falou nada?

— Você sabe que gosto de resolver tudo sozinha. Não queria te preocupar.

Hannah encostou o corpo na cadeira e fechou os olhos por um instante, como se estivesse assimilando o que tinha acabado de ouvir. Após conferir o celular rapidamente, voltou a encarar a amiga.

— Você não pode ser teimosa nessas horas.

— Pelo menos, tenho uma nova aluna. — Sophia deu de ombros. — Isso me deu esperança de mais meninas se matricularem. O nome dela é Emma.

Hannah balançou a cabeça em afirmativo. Sophia continuou:

— Hoje foi a primeira aula dela, depois da experimental. Começou muito tímida, mas no final já estava entrosada.

— Não me surpreende. Você tem o dom de transformar crianças assustadas em crianças confiantes.

O rosto de Sophia corou de leve. Tinha certa dificuldade de aceitar elogios.

— O pai dela também é legal — comentou.

— Ah… Você mencionou o pai. — Hannah abriu um sorriso sugestivo.

— Claro! — Sophia exclamou, surpresa. — Ele levou a filha… 

— Estou apenas fazendo uma observação.

— Besta, não tem nada a ver. — Sorriu, envergonhada. — Ele deve ser casado.

— Que homem casado leva a filha ao ballet? Geralmente são as mães que fazem isso.

— Talvez a mãe não tenha tempo.

— Não sei não… — Hannah riu. — Aliás, faz quantos séculos que você está solteira?

— Dois anos nem é tanto tempo assim — argumentou.

— Por que não baixa um aplicativo de namoro? Você merece se distrair.

O garçom trouxe os pedidos e se afastou.

Sophia percebeu que estava faminta ao dar o primeiro gole no cappuccino. Deixou o silêncio preencher a mesa por um momento, enquanto comia um pouco de bolo. Precisaria de no mínimo mais uma fatia para ficar satisfeita.

— Não estou com cabeça para encontros, sinceramente.

— Acho que você deveria tentar. Uns beijinhos nunca fizeram mal a ninguém.

O coração de Sophia pulou uma batida quando um homem e uma menina passaram por ela, dirigindo-se à mesa ao lado.

Nathan e Emma.

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