Mundo de ficçãoIniciar sessãoEram seis horas da manhã quando o alarme do celular disparou, mas Nathan Fletcher já estava acordado.
Ao beber o primeiro gole de café do dia, ele observou Manhattan através da enorme janela de seu escritório. Era início de outubro e as folhas das árvores do Central Park já começavam a ficar secas. Em breve, o parque estaria inteiramente laranja. Nathan sorriu de leve. Gostava do outono.
Mas não podia perder tempo com devaneios.
A tela do macbook exibia gráficos que oscilavam a cada segundo. Os números pareciam complicados, mas Nathan havia aprendido a entender aquela linguagem tão bem quanto sua própria língua materna. Seu pai e a vida tinham ensinado tudo que precisava saber.
Depois de vários minutos identificando oportunidades lucrativas nos padrões das linhas, fechou a janela dos gráficos, examinou alguns contratos e respondeu a um e-mail da filial de Londres.
Ao ouvir uma batida tímida à porta, voltou a sorrir.
— Papai? — A voz doce de Emma chamou.
A menina segurava um urso de pelúcia e vestia um pijama rosa claro com estampa de gatinhos coloridos. O cabelo castanho despenteado denunciava que ela tinha acabado de levantar. Os olhos verdes que herdara da mãe ainda pareciam cheios de sono.
— Bom dia, minha princesinha.
— Martha falou que eu tinha que pentear o cabelo. — Emma caminhou até o pai. — Mas eu não quero.
— Por que você não quer?
— Porque machuca. — Fez bico.
Nathan não conseguiu conter uma risada discreta. Adorava quando ela fazia bico, mesmo sabendo que precisaria arranjar um jeito de contornar a teimosia. Às vezes, Emma exibia uma personalidade determinada que ele não podia deixar de admirar. Gostava de pensar que a filha tinha puxado sua própria perseverança.
— Vamos ter que descobrir um jeito de pentear sem machucar.
— Você… — hesitou, o olhar inseguro. — Você pode fazer isso?
Por um instante, o sorriso de Nathan vacilou. Georgia arrumava os cabelos de Emma todos os dias e a pequena não reclamava. Pelo contrário: ficava empolgada para experimentar penteados diferentes e impressionar os colegas da escola. Nunca repetia o mesmo estilo por dois dias seguidos. Mas agora usava os cabelos quase sempre soltos.
Nathan prometeu a si mesmo que aprenderia a fazer penteados assim que tivesse uma brecha de tempo, mesmo que precisasse recorrer a vídeos tediosos do YouTube.
— Claro, princesinha. Posso tentar.
— Quero um rabo de cavalo.
— Certo — concordou aliviado. Sabia fazer rabos de cavalo.
Seguiram para a suíte de Emma. O quarto era espaçoso demais para uma criança só, com decoração temática de unicórnios em tons de rosa e branco. Chegando ao banheiro, já havia uma pequena cadeira em frente à pia. A menina subiu e se olhou no espelho por um momento antes de entregar sua escova lilás com glitter ao pai.
Nathan segurou o objeto como se tentasse resolver uma equação matemática complexa.
Mas cinco minutos depois, Emma estava pronta. E quase não tinha reclamado de dor.
— — —
Ficaram em silêncio durante o café da manhã.
Quando Nathan terminou de ler uma notícia econômica no tablet, seus olhos castanhos procuraram a filha. Sorriu ao perceber que Emma desenhava em um guardanapo, completamente absorta, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido. Tinha deixado as panquecas quase intocadas no prato.
Apesar da pouca idade, ela já demonstrava muitos traços de personalidade e uma inteligência afiada, além de bastante talento para o desenho. A veia artística provavelmente vinha da família materna: a mãe de Georgia tinha sido pintora. Algumas de suas obras ainda enfeitavam as paredes do apartamento.
— O que você está desenhando? — Ele perguntou.
Emma mostrou o desenho: uma menina de vestido rosa e sapatilhas.
— É uma bailarina. O nome dela é Tiffany.
— Muito bonita.
— Sabia que minha amiga Lilian entrou no ballet?
— É mesmo?
— Eu também quero fazer ballet. — Emma sorriu. — Posso, papai?
Nathan ficou sem resposta por um instante. Nunca tinha pensado na possibilidade de matricular a filha no ballet ou qualquer outro tipo de dança. Em geral, evitava pensar em assuntos que lembravam Georgia. Ela adorava dançar e assistia a espetáculos sempre que podia.
Só parou ao descobrir o câncer.
— Ballet, princesinha? Tem certeza?
— Tenho.
— Você já faz aulas de piano. Se entrar no ballet, não vai sobrar tempo livre.
— Vai sim, pai! Por favor! Deixa!
— Por que ballet?
— É meu sonho!
— Não prefere tênis? — sugeriu com o olhar esperançoso. — Ou natação?
— Ballet, papai!
Nathan riu, derrotado. Talvez estivesse mimando Emma demais ao permitir que fizesse tudo que queria, mas ao menos o ballet tinha inúmeros benefícios para a saúde física e mental. Não era uma má ideia.
Emma se levantou e começou a dançar na ponta dos pés, ao redor da mesa, movendo os braços como uma bailarina. “Por favor”, repetia a cada giro, “por favor”. Um sorriso repleto de doçura estampava seus lábios.
— Está bem.
— Oba! Você é o melhor pai do mundo! — exclamou, correndo até o pai para abraçá-lo.
— E você é a minha princesa.— Quando vou conhecer minha escola de ballet? — perguntou empolgada, saltitando.
Nathan sorriu.
— Amanhã.







