4.

— Quantas bailarinas talentosas! — Sophia exclamou sorrindo. — Vocês estão de parabéns! Agora vamos fazer um círculo?

Cinco meninas correram para o centro do estúdio, mas Emma ficou para trás, grudada à barra. Sua expressão tímida dispensava qualquer explicação. Devia estar com medo de errar na frente das colegas, já que tinha conseguido se soltar na aula experimental, a sós com a professora.

Sophia se aproximou da pequena.

— Me faz um favor?

Emma a encarou com olhos tensos.

— Hm… — hesitou. — Faço.

— Preciso de uma assistente. Quer ser minha ajudante na aula de hoje?

— Quero. — Ainda parecia acanhada. — O que eu faço?

Sophia pegou uma fita de cetim rosa no armário e entregou a Emma.

— Seu primeiro trabalho é escolher quem vai fazer o próximo exercício.

— Mesmo?! — O rostinho se iluminou.

— Mesmo. — Deu uma piscadela.

As outras meninas riam e conversavam entre si, o círculo já formado.

Emma caminhou até elas. Ficou pensativa por um instante, como se estivesse prestes a tomar uma decisão muito importante. Observou cada uma das colegas antes de finalmente passar a fita para uma garotinha ruiva com sardas: Melissa.

— Você quer começar? — perguntou Emma, já menos tímida.

Melissa assentiu com um sorriso sapeca.

Ao olhar de relance para a porta de vidro, Sophia sentiu uma ligeira inquietação no peito. Nathan assistia à aula.

Desviou os olhos rapidamente, voltando a atenção às alunas.

Não fazia sentido ficar nervosa por ser observada. O pai de Emma parecia um homem bastante simpático e fácil de lidar. E Sophia nunca se incomodava quando a mãe de uma das meninas resolvia acompanhar a aula através da porta. Achava muito natural que os pais quisessem ficar de olho nos filhos.

Ainda assim… sentiu o rosto corar de leve.

— — — 

— Quem quer aprender o plié? — Sophia exclamou, animada.

— Eu! — As alunas disseram em uníssono, levantando as mãos. Algumas deram pulinhos.

A professora demonstrou o passo e não demorou para que as crianças tentassem copiar o movimento. Algumas dobraram os joelhos demais, outras de menos. Melissa teve um acesso de riso sem motivo aparente. Emma fez um bom plié logo na primeira tentativa. Alice tinha encontrado uma concorrente?

Sophia trocou os exercícios até chegar ao primeiro giro da aula.

Emma se concentrou, respirando fundo, a testa franzida e os lábios formando uma linha fina. Abriu os braços de forma levemente desajeitada. E girou rápido demais. Seus pés confundiram a rota. Caiu sentada no chão.

Gargalhadas infantis preencheram o estúdio.

Em vez de se envergonhar, Emma riu junto.

— Doeu? — Sophia perguntou, estendendo a mão para ajudá-la a levantar.

— Um pouquinho. — Mostrou o dedo indicador e o polegar quase juntos.

— Você aprendeu uma lição muito importante hoje: às vezes, a gente precisa cair para aprender algo. Mas toda bailarina se levanta e tenta de novo.

— Então eu já posso ser uma bailarina? — Emma levantou de supetão.

— Pode!

Quando Sophia olhou em direção à porta, viu Nathan sorrir para a filha.

— — —

A aula chegou ao fim rápido demais.

Sophia amava ensinar. Sempre que estava no estúdio, rodeada de crianças, sentia que viver tinha propósito. Só havia experimentado algo semelhante ao se apresentar no palco. Daria tudo para poder voltar no tempo e dançar diante da plateia lotada da Ópera de Paris.

Ainda sonhava com a queda.

Às vezes, pensava que jamais conseguiria superar o trauma. Quando precisava falar para um grupo de pessoas, sentia tanta ansiedade que o estômago embrulhava e o coração doía. O medo de passar vergonha era maior que qualquer razão. Não adiantava respirar fundo ou dizer a si mesma que tudo ficaria bem.

Quando Sophia fechou a porta da recepção, o silêncio fez o estúdio parecer melancólico.

Andou a passos lentos, quase hesitantes, em direção ao balcão. Abriu a gaveta devagar, atrasando o momento de encarar a verdade. Engoliu em seco ao ver o envelope branco.

Segurou a notificação extrajudicial, conferindo o prazo como se esperasse que a data tivesse mudado por mágica. Mordeu o lábio inferior ao pegar o tablet e abrir a planilha de gastos. Com o coração ardendo dentro do peito, analisou os números. Não conseguiu enxergar uma solução.

Se ao menos tivesse aceitado o pagamento anual de Nathan. 

Como pôde ser tão cabeça dura? Qual o problema de quebrar uma ou outra regra?

O celular vibrou sobre o balcão e Sophia paralisou ao ver a notificação da advogada do proprietário do imóvel. Faltava exatamente uma semana para o prazo acabar. Havia menos da metade do valor em sua conta bancária. De onde poderia tirar tanto dinheiro? Um empréstimo? Mas como pagaria o empréstimo?

Sentiu os olhos molhados.

— Vou dar um jeito — disse baixinho, observando o retrato da mãe na parede. — Não vou te desapontar de novo.

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