Mundo de ficçãoIniciar sessãoMarjory tem vinte e dois anos, estuda Literatura na University College Dublin, e começa o semestre com o coração partido depois que o namorado termina por mensagem sem explicação. Numa noite de impulso, beija um desconhecido numa boate do Temple Bar. Uma semana depois, esse desconhecido entra na sala de aula como seu novo professor. Ciarán Doyle tem trinta anos, é irlandês, literário e deliberadamente distante. Sabe dos riscos. Sabe das regras. E mesmo assim não consegue parar de olhar para ela. O que começa como um segredo guardado entre quatro paredes vai se tornando impossível de ignorar, num semestre inteiro de tensão contida, beijos em corredores escuros, mensagens enviadas na hora errada, e a pergunta que nenhum dos dois consegue responder: vale esperar oito meses?
Ler maisO teto do quarto não tinha nada de interessante. Marjory sabia disso com a certeza de quem o encarava há três horas seguidas, deitada de costas no colchão com o celular pousado no peito como se fosse um peso e não um aparelho. As mensagens continuavam lá, azuis e entregues, cada uma delas uma evidência pequena e humilhante de que ela havia perdido o controle sobre o próprio bom senso.
Precisamos conversar sobre o que aconteceu. Pode me ligar quando puder? Tudo bem, entendo que você precisa de espaço. Essa última era a pior. Ela não entendia nada. Tinha escrito porque achou que soava madura, razoável, o tipo de coisa que uma pessoa equilibrada diria, mas a verdade era que não entendia absolutamente nada do que havia acontecido. Gavin havia terminado por mensagem. Não uma ligação, não um café, não uma conversa difícil num banco de parque sob a chuva de Dublin, como seria justo. Uma mensagem. Duas frases e meia. E sumiu. Marjory tinha vinte e dois anos, cabelos castanhos escuros que chegavam um pouco abaixo dos ombros e sempre escapavam de qualquer penteado que ela tentasse, olhos cor de mel que a mãe chamava de bonitos e ela chamava de indefinidos, e uma expressão que professores desde sempre descreviam como atenta, mas que na verdade era só o jeito que o rosto dela ficava quando estava tentando não demonstrar o que sentia. Era alta o suficiente para incomodar com salto, curvas que existiam mas não ocupavam muito espaço, e um guarda-roupa composto majoritariamente por jaquetas largas e meias grossas porque Dublin no verão ainda era Dublin. Agora estava de pijama. Cabelo preso de qualquer jeito. Uma meia só no pé direito porque a esquerda havia caído em algum momento da tarde e ela não havia se movido para procurar. O celular não vibrou. Ela o virou de cabeça para baixo. A porta do quarto abriu sem aviso — Louise nunca batia, alegava que bater era coisa de hóspede e ela pagava metade do aluguel — e Marjory ouviu o barulho antes de ver qualquer coisa. Passos, a janela do corredor rangendo com a brisa, o cheiro vago de alguma coisa doce que Louise havia feito na cozinha mais cedo. — Continua aí deitada? — Louise apareceu no vão da porta com uma sobrancelha levantada e os braços cruzados sobre o peito. Era impossível não notar Louise quando ela entrava em qualquer cômodo. Tinha um tipo de presença física que não dependia de esforço: pele morena, cabelos ruivos naturais que ela usava curtos, na altura do queixo, olhos castanhos claros que pareciam sempre ligeiramente divertidos com tudo ao redor. Era mais baixa do que Marjory, o que não a intimidava em absolutamente nada. Vestia calça preta e uma blusa vermelha que Marjory reconheceu como sendo própria. — Essa blusa é minha — disse Marjory. — Era sua. Agora é minha porque você está de pijama às oito da noite e não precisa dela. — Louise caminhou até a cama e sentou na beira sem pedir licença. — Como você está? — Bem. — Você respondeu rápido demais. Pessoas que estão bem levam um segundo para pensar antes de responder. Marjory virou o rosto para o lado. Pela janela do quarto dava para ver um pedaço do céu de Dublin que nunca ficava totalmente escuro no verão, um cinza-azulado suspenso entre o dia e a noite que ela normalmente achava bonito. Agora parecia só úmido. — Ele não respondeu nenhuma — disse ela depois de um momento. Louise não disse nada imediatamente. Era uma das coisas que Marjory gostava nela: o silêncio não era desconforto, era consideração. — Quantas você mandou? — Cinco. — Marjory. — Eu sei. — Dá o celular. — Não vou mandar mais. — Não estou preocupada com o que você vai mandar. Estou preocupada com você ficando aqui esperando vibrar. — Louise estendeu a mão, palma para cima, com uma paciência que era quase irritante. Marjory pegou o celular de debaixo de si mesma e entregou sem olhar. — Obrigada. Agora vai tomar banho. — Não quero sair. — Não perguntei se você queria. Marjory fechou os olhos. O teto continuava lá, mas agora ela não estava olhando para ele, e de alguma forma isso era ligeiramente melhor. — Louise. — Hm. — Por que ele nem ligou? Seis meses. Não merecia nem uma ligação? O silêncio que veio depois era de tipo diferente. Louise se deitou de lado na cama, de frente para ela, e Marjory abriu os olhos para encontrar aquele olhar castanho-claro que significava que a resposta honesta estava sendo pesada contra a resposta gentil. — Não sei — disse Louise por fim. — Mas eu sei que a resposta para isso não está no teto do seu quarto. Marjory ficou parada mais um momento. Depois, devagar, como alguém que decide acordar de um sonho ruim em vez de esperar que ele acabe sozinho, sentou na cama. — Onde a gente vai? Louise sorriu. Era um sorriso pequeno, do tipo que não precisava mostrar os dentes para significar alguma coisa. — Tem uma boate no Temple Bar que uma amiga minha indicou. Música boa, sem gente chata, e eles fazem um gin tônica decente. — Não quero beber. — Você não precisa beber. Você precisa sair desse quarto antes que você comece a fazer parte da decoração. — Louise se levantou e foi até o guarda-roupa de Marjory, abrindo as portas com a familiaridade de quem conhece cada peça dentro. — Veste essa. — Jogou um vestido preto simples na cama. — E o cabelo solto. Marjory olhou para o vestido. Depois para Louise. — Você é mandona. — Você me deixa ser mandona porque no fundo sabe que eu tenho razão. — Louise foi até a porta e parou no vão, como havia chegado. — Quinze minutos. Marjory ficou olhando para o vestido depois que ela saiu. Levantou.A ressonância daquela notificação institucional ainda vibrava no espaço mental de Marjory quando eles destrancaram a porta do novo apartamento em Ranelagh, no início daquela mesma noite. O documento da União Europeia, com a convocação para o módulo de pesquisa presencial na Universidade de Sorbonne, permanecia guardado na pasta de couro, funcionando como um vetor de transformações futuras que eles teriam de gerenciar em conjunto. Contudo, antes de debruçarem-se sobre cronogramas internacionais, prazos de vistos e readequações contratuais, havia um rito de passagem imediato que exigia cumprimento: a posse simbólica do território que haviam escolhido.Ao transporem o limite da entrada, o eco de seus próprios passos na madeira escura ressaltou a vastidão do ambiente desprovido de mobília. O apartamento encontrava-se completamente vazio. Não havia sofás para acomodar o cansaço da jornada, mesas que pudessem abrigar os relatórios de fomento ou as estantes de carvalho que eles haviam planej
O processo de transição para uma habitação conjunta demandou de Marjory e Ciarán o estabelecimento de um planejamento logístico rigoroso. A decisão de unificar as residências, amadurecida ao longo dos últimos meses de consolidação de suas respectivas carreiras na UCD e na nova instituição de ensino, deixara o campo das hipóteses teóricas para se converter em um projeto de execução imediata. Durante os finais de semana, a rotina de leituras e caminhadas casuais por Dublin fora parcialmente substituída pela análise minuciosa de catálogos imobiliários e pelo agendamento de visitas técnicas a propriedades disponíveis para locação.Naquela manhã de sábado, acomodados à mesa de um pequeno café nas imediações de Rathmines, ambos revisavam um mapa da rede de transportes metropolitanos da cidade, ladeado por um bloco de notas preenchido com especificações de engenharia e critérios de conveniência espacial.— A mobilidade urbana vai ser o nosso ponto mais complexo aqui — apontou Ciarán, demarca
A transição para a nova instituição de ensino superior exigira de Ciarán Doyle o exercício pleno de suas faculdades de adaptação e liderança. O campus, caracterizado por linhas arquitetônicas arrojadas e uma mentalidade voltada à inovação acadêmica, operava em um ritmo substancialmente distinto da atmosfera secular de sua antiga universidade. Contudo, a sobriedade e a solidez metodológica que caracterizavam sua trajetória profissional permitiram que ele se estabelecesse não apenas como um docente qualificado, mas como uma liderança intelectual necessária para o departamento de humanidades.Nas primeiras semanas do semestre, Ciarán assumira formalmente a coordenação do novo Núcleo de Estudos de Literatura Comparada e Hermenêutica Crítica. A função demandava a articulação de projetos de pesquisa integrados, a captação de recursos junto a fundos de fomento europeus e a orientação de um grupo seleto de pesquisadores seniores e doutorandos. Sob sua direção, as reuniões de colegiado ganhara
O Campus de Belfield, na University College Dublin, exibia a movimentação densa característica do meio do período letivo. Folhas secas cobriam os caminhos que interligavam os blocos de concreto e vidro, enquanto estudantes transitavam em ritmo acelerado entre as bibliotecas e os anfiteatros. No interior do pavilhão de humanidades, alheia à circulação externa, Marjory mantinha o foco direcionado à tela do computador na sala reservada aos pesquisadores da pós-graduação.A notificação eletrônica que cruzou o monitor trazia o timbre da Irish Journal of Contemporary Literary Studies — uma das publicações mais rigorosas e conceituadas do cenário acadêmico europeu. O texto da mensagem, assinado pelo comitê editorial, era sucinto e definitivo: o artigo de sua autoria, intitulado "Mecanismos de Deslocamento e Identidade na Narrativa Pós-Colonial Sul-Americana", havia sido aprovado sem restrições e integrado ao volume do trimestre corrente.Marjory recostou-se na cadeira, assimilando o impacto





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