6.

Nathan analisava a projeção na tela enquanto ouvia o diretor discorrer sobre os resultados do último trimestre. A sala de reuniões estava lotada de executivos em ternos elegantes. Através da imensa janela, que ocupava uma parede inteira, era possível ver o Empire State Building. No entanto, ninguém prestava atenção à paisagem. Todos os olhares estavam fixos na apresentação.

— Caso a aquisição seja concluída até o final deste mês, poderemos expandir para o exterior no início do próximo ano — concluiu o homem de óculos grandes e cabelos grisalhos.

Murmúrios de aprovação atravessaram a sala.

Nathan pegou o celular ao sentir uma vibração no bolso da calça.

Martha estava ligando. E ela raramente ligava.

Pediu licença e se retirou para o corredor vazio.

— Oi, Martha. O que aconteceu?

— Senhor Fletcher, desculpe por ligar em seu expediente, mas acabei de receber uma ligação da escola do meu filho. Ele está com febre e vomitando. Vou ter que ir embora mais cedo.

— Certo, Martha, não tem problema. Vá cuidar do seu rapaz.

Quando Nathan retornou à sala de reuniões, todos os olhares se voltaram a ele. 

— Vou ter que encerrar por hoje.

— Tem certeza? — O diretor franziu o cenho.

— Preciso pegar minha filha na escola.

– – – 

Emma correu até o carro.

Seus cabelos castanhos balançaram com o vento. Os lábios formaram um sorriso que poderia facilmente iluminar o mundo inteiro. Em suas costas, a mochila da Barbie parecia grande demais para o corpo pequeno.

Ela abriu a porta traseira do carro já falando:

— Hoje eu desenhei um dinossauro rosa.

— É mesmo? Um dinossauro rosa? — Nathan sorriu. — Quero ver.

— Não vou mostrar.

— Por quê? — Ele franziu o cenho, ligando o carro.

— Ficou parecendo uma galinha.

— Aposto que está bonito assim mesmo.

— Não está nada! — exclamou, teimosa.

— Então você pode tentar fazer outro dinossauro rosa mais tarde — sugeriu. — Quer tomar um sorvete antes da aula de ballet?

— Quero! Você é o meu melhor pai!

Nathan não conseguiu conter o riso.

— — — 

Depois da aula de ballet, Nathan e Emma passaram algumas horas em casa. Enquanto o pai resolvia burocracias no macbook, a filha enrolava para terminar o dever de matemática. O tempo passou rápido. Através da janela do escritório, viram o pôr-do-sol se transformar em um céu escuro, as estrelas ofuscadas pelas luzes da cidade.

—  Papai, o que vamos jantar?

— Vamos combinar assim: se você comer seus legumes, podemos sair para comer um pedaço de bolo de chocolate.

— Mesmo, pai?! Eu quero!

Ele assentiu. Tinha trabalhado demais e merecia uma generosa xícara de café.

— — —

A cafeteria favorita de Nathan tinha cheiro de canela. A decoração era minimalista, em tons de marrom, branco e bege. Poucas mesas estavam ocupadas naquela noite. Um jazz antigo tocava baixinho.

Nathan e Emma mal haviam escolhido um lugar quando a menina exclamou:

— Professora!

Ela correu para a mesa ao lado e abraçou Sophia.

— Oi, Emma! Que coincidência maravilhosa!

Nathan se aproximou, surpreso pelo encontro inesperado:

— Desculpe, ela se empolga fácil.

— Imagina, não tem problema.

— Hoje eu desenhei um dinossauro rosa. — Emma disse. — Mas ficou parecendo uma galinha.

— Deve estar lindo. — Sophia riu.

— Meu pai falou a mesma coisa.

— Seu pai tem toda razão. — Ela encarou Nathan. — Vocês querem sentar com a gente?

— Ah, não quero incomodar.

— Não é incômodo algum.

Emma se sentou perto de Sophia, e Nathan ocupou o lugar ao lado da moça de cabelos castanhos.

— Professora, quantos anos você tinha quando começou a fazer ballet?

— Três.

— Você sempre quis ser professora? — Nathan perguntou.

— Eu… — Ela hesitou. — Não, nem sempre. Mas amo meu trabalho.

— O que você faz? — A amiga de Sophia entrou na conversa, olhando para Nathan.

— Tenho uma empresa. — Ele respondeu. — Nós desenvolvemos empreendimentos e administramos investimentos. Basicamente, passo o dia tomando decisões que torço para não me fazerem perder dinheiro.

— Você constrói prédios? — Sophia perguntou.

— Faria mais sentido dizer que ajudo outras pessoas a construírem prédios.

— Sabia que meu pai nunca fez um plié? — Emma disse, a voz um tanto alta.

— Eu passaria vergonha. — Nathan sorriu.

Durante meia hora, os quatro conversaram sobre os assuntos mais aleatórios: ballet, escola, trabalho, o clima que começava a esfriar com a chegada do outono. Nathan percebeu, com certo estranhamento, que fazia tempo que uma conversa não o entretia tanto. Talvez precisasse de mais amigos.

Quando Emma terminou de comer seu bolo de chocolate, olhou para o pai e sussurrou, tímida:

— Podemos ir para casa?

— Vamos. — Ele se levantou. — Foi um prazer vê-la novamente, Sophia. — Sorriu. — E prazer em conhecê-la, Hannah.

— O prazer foi nosso — disse a florista.

— Acho que também está na minha hora — completou a bailarina.

Seguiram ao caixa.

Enquanto Nathan aguardava a atendente de caixa contar o troco, algo escorregou do bolso da mochila de Sophia. Ela não percebeu, mas um garçom, que passava por perto, imediatamente parou para pegar o papel do chão.

— Com licença — disse. — Você deixou isso cair.

— Obrigada.

Antes de Sophia colocar o papel de volta na mochila, Nathan conseguiu distinguir as palavras: “Notificação extrajudicial.”

Desviou o olhar, sem jeito. Mas não disse nada. Recebeu o troco da atendente e segurou a mão de Emma. Despediu-se de Sophia e Hannah com um “boa noite” educado. E saiu em direção ao carro.

Antes de dar partida, olhou através da janela da cafeteria. As duas amigas ainda conversavam perto do caixa. Pareciam animadas.

Não era difícil perceber que Sophia sorria com facilidade. Mas, às vezes, parecia haver um pouco de cansaço por trás de seus olhos azuis. O que sua aparente alegria estava escondendo?

E por que ela tinha sido notificada?

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