Mundo de ficçãoIniciar sessãoO jardim iluminado pela lua perdeu parte do brilho.
As flores negras que cobriam o caminho começaram a fechar suas pétalas lentamente, como se respondessem à gravidade da revelação.
Elara permaneceu imóvel.
As palavras de Lyra ainda ecoavam em sua mente.
Traição.
Outra.
Desde que sua vida desmoronara, parecia que cada resposta trazia uma mentira ainda maior escondida sob a anterior.
Ela respirou fundo antes de perguntar.
— Quem fez isso?
Lyra desviou o olhar para a grande árvore prateada que dominava o jardim.
Durante alguns instantes, permaneceu em silêncio.
— O nome não é o mais importante.
Elara franziu a testa.
— Para mim é.
— Não.
O mais importante é entender por que Aurora perdeu.
A jovem apertou os punhos.
— Minha mãe era forte.
Todos dizem isso.
— Era muito mais do que forte.
Lyra sorriu com orgulho.
— Aurora nasceu para governar.
Conquistava aliados sem precisar levantar a voz.
Protegia até aqueles que não concordavam com ela.
Era respeitada por reis, guerreiros e curandeiros.
Mas tinha um defeito.
Elara esperou.
— Confiava demais.
As palavras doeram.
Porque ela própria havia cometido o mesmo erro.
Confiara em Kael.
Confiara na alcateia.
Confiara em pessoas que a abandonaram sem sequer ouvir sua versão.
Lyra caminhou até a árvore.
Tocou delicadamente o tronco prateado.
A superfície brilhou.
Como um espelho líquido.
Uma nova lembrança começou a surgir.
O antigo palácio da Lua Negra fervilhava de atividade.
Servos cruzavam os corredores.
Mensageiros chegavam a todo instante.
Generais discutiam estratégias diante de enormes mapas.
No centro de tudo estava Aurora.
Mais jovem do que Elara imaginava.
Os cabelos presos em uma longa trança.
Vestia uma armadura negra ornamentada com prata.
Mesmo cercada por comandantes experientes, era impossível desviar os olhos dela.
Transmitia segurança.
Calma.
Cada ordem era dada sem hesitação.
— Evacuem as aldeias próximas ao rio.
— Levem os idosos para o santuário.
— Nenhuma criança ficará nas muralhas.
Um capitão aproximou-se.
— Minha Rainha, precisamos reforçar o portão leste.
Aurora assentiu.
— Envie metade da Guarda Real.
Outro guerreiro chegou logo em seguida.
— Recebemos notícias dos Supremos.
Nenhum deles respondeu ao pedido de ajuda.
Aurora fechou os olhos por um breve instante.
Não demonstrou raiva.
Nem decepção.
Apenas continuou.
— Então lutaremos com quem permaneceu.
Lyra observava a cena ao lado de Elara.
— Ela sabia que muitos a haviam abandonado.
Mesmo assim, recusou-se a odiá-los.
A lembrança mudou.
Agora mostrava um corredor silencioso.
Aurora caminhava sozinha.
Parecia cansada.
Parou diante de uma enorme porta de madeira.
Antes que pudesse abri-la, alguém surgiu atrás dela.
Um homem usando a armadura da Guarda Real.
Retirou o capacete.
Seu rosto permaneceu encoberto por sombras.
Era impossível reconhecê-lo.
— Você deveria descansar — disse ele.
Aurora sorriu.
— Descansarei quando meu povo estiver seguro.
O homem aproximou-se.
Havia carinho em seu olhar.
Lealdade.
Pelo menos era o que parecia.
— Confia em mim?
Aurora respondeu sem pensar.
— Com minha vida.
O homem abaixou a cabeça.
A culpa atravessou seu rosto.
Quase imperceptível.
— Perdoe-me.
Antes que Aurora pudesse reagir, ele retirou uma pequena lâmina escondida sob a capa.
A adaga atravessou sua armadura entre duas placas de metal.
Elara levou a mão à boca.
— Não...
Aurora cambaleou.
Olhou incrédula para o homem.
Não pelo ferimento.
Mas pela pessoa que a atacara.
Ela tentou pronunciar seu nome.
Os lábios se moveram.
Nenhum som saiu.
A lembrança tremeu.
A imagem ficou distorcida.
Como um vidro prestes a quebrar.
O rosto do traidor continuava escondido.
Uma névoa escura cobria sua face.
Elara deu um passo à frente.
— Quem é ele?
A imagem desapareceu.
O jardim voltou ao normal.
Ela virou-se rapidamente para Lyra.
— Por que não consegui ver?
A antiga Rainha respirou lentamente.
— Porque alguém lançou uma maldição sobre essa memória.
— Uma maldição?
— Sim.
Enquanto o verdadeiro traidor permanecer vivo, seu rosto continuará oculto.
Elara fechou os olhos.
Era frustrante estar tão perto da verdade.
— Então nunca vou descobrir.
Lyra aproximou-se.
— Vai.
Mas não através das minhas lembranças.
Será pelas suas.
A jovem ergueu a cabeça.
— Minhas?
— Você viu o que aconteceu naquela noite.
Mesmo sendo apenas uma criança.
Seu coração acelerou.
— Eu estava lá...
— Sim.
Aurora fez questão disso.
Protegeu você até o último instante.
E deixou uma parte daquela noite adormecida dentro da sua alma.
Quando chegar a hora...
Você recordará tudo.
No mundo exterior...
A batalha permanecia suspensa.
Nenhum dos exércitos ousava atacar enquanto a árvore sagrada envolvia Elara.
As raízes grossas formavam um casulo quase impenetrável.
Magnus observava a cena com impaciência.
— Quanto tempo mais vamos esperar?
Um de seus comandantes aproximou-se.
— Senhor...
Os soldados estão inquietos.
Lucien e Kael chegaram.
Agora também existem aqueles homens vestidos de branco.
Se demorarmos...
Outros Supremos podem aparecer.
Magnus apertou os dentes.
Era exatamente isso que queria evitar.
Quanto mais testemunhas surgissem, mais difícil seria concluir sua missão.
Do outro lado do campo, Kael permanecia observando Elara.
Sentia um aperto estranho no peito.
A luz que envolvia a jovem despertava lembranças esquecidas.
Fragmentos.
Pequenos detalhes.
Um jardim.
Uma menina rindo.
Uma mulher de cabelos negros conversando com sua mãe.
Ele levou a mão à cabeça.
— Não...
Lucien percebeu.
— O que houve?
Kael respirou fundo.
— Eu conheço aquele brilho.
Lucien arqueou uma sobrancelha.
— Impossível.
— Minha mãe...
Ela me levou a um lugar parecido quando eu era criança.
Seraphine ouviu a conversa.
Seu olhar tornou-se atento.
— Sua mãe?
Kael confirmou.
— Eu devia ter uns seis anos.
Ela dizia que existia uma antiga aliança entre nossa família e a Lua Negra.
Mas meu pai proibiu qualquer assunto sobre isso depois da morte da Rainha Aurora.
Seraphine trocou um rápido olhar com Aiden.
O Grande Guardião permaneceu calado.
Mas parecia refletir sobre aquelas palavras.
Kael continuou.
— Durante muitos anos achei que fosse apenas uma história.
Agora já não tenho tanta certeza.
Aiden finalmente falou.
— Sua mãe se chamava Helena Draven.
Kael ficou surpreso.
— Como sabe disso?
— Porque ela esteve aqui.
O silêncio caiu novamente sobre o vale.
Kael sentiu o coração acelerar.
— Ela conhecia este lugar?
Aiden assentiu.
— Mais do que imaginava.
Ela tentou impedir uma guerra.
Pagou um preço alto por isso.
Kael abriu a boca para perguntar mais.
Foi interrompido por um grito vindo da retaguarda.
— Invasores!
Todos se viraram ao mesmo tempo.
Vários soldados vestidos com armaduras da Lua Rubra atacavam os guerreiros do Norte.
Mas havia algo errado.
Eles não vinham da frente.
Tinham surgido no meio das tropas de Kael.
Como se já estivessem infiltrados entre seus homens.
Espadas foram desembainhadas.
O caos instalou-se instantaneamente.
— Protejam o Supremo! — gritou um capitão.
Kael eliminou o primeiro atacante antes que ele alcançasse um de seus soldados.
Lucien também entrou em combate.
Cedric liderou a Guarda da Lua Negra contra os invasores.
Em poucos segundos, o campo inteiro transformou-se em uma batalha desorganizada.
Magnus sorriu discretamente.
A distração que precisava finalmente havia surgido.
Enquanto todos estavam ocupados lutando, ele recuou alguns passos.
Retirou do bolso um pequeno cristal vermelho, idêntico ao utilizado por Darius.
O objeto começou a pulsar.
Magnus aproximou-o dos lábios.
— Já começou.
Chegou a sua vez.
Durante alguns segundos, nada aconteceu.
Então...
Uma das raízes da árvore sagrada moveu-se lentamente.
Depois outra.
E mais outra.
Não para proteger Elara.
Mas como se respondessem a uma força invisível.
Aiden arregalou os olhos.
— Isso não...
Seraphine acompanhou seu olhar.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
— Existe alguém dentro do casulo.
Lucien interrompeu o combate.
— O quê?
As raízes começaram a se abrir.
Muito devagar.
Como se estivessem recebendo uma ordem da própria árvore.
Todos prenderam a respiração.
No interior do casulo não estava apenas Elara.
Havia outra figura ajoelhada diante dela.
Um homem coberto por um manto negro.
Ninguém o vira entrar.
Ninguém sentira sua presença.
Ele levantou lentamente a cabeça.
Sob o capuz, apenas dois olhos dourados brilhavam na escuridão.
E um sorriso frio surgiu em seus lábios quando encarou Aiden.
— Faz muitos anos, velho amigo.
Achei que jamais nos encontraríamos outra vez.







