Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio que caiu sobre o vale foi ainda mais pesado do que o som da batalha.
As espadas continuavam erguidas.
Os arqueiros mantinham as cordas tensionadas.
Mesmo assim, ninguém ousou atacar.
Todas as atenções estavam voltadas para o interior do casulo formado pelas raízes da Árvore Sagrada.
O homem ajoelhado diante de Elara permanecia imóvel.
O longo manto negro escondia quase todo o seu corpo.
Apenas as mãos eram visíveis.
Pálidas.
Marcadas por antigas cicatrizes.
Seus olhos dourados refletiam a luz prateada que envolvia a futura rainha.
Aiden deu um passo à frente.
Sua expressão, normalmente serena, endureceu.
— Eu vi você morrer.
O desconhecido sorriu.
Era um sorriso discreto.
Sem alegria.
— Muita gente acreditou nisso.
Lucien apertou o cabo da lança.
— Quem é ele?
Seraphine respirou fundo.
Os dedos tremiam de maneira quase imperceptível.
Ela levou alguns segundos antes de conseguir responder.
— O nome dele é Cassian.
Cedric arregalou os olhos.
— Isso é impossível.
Orion virou-se rapidamente.
— Você o conhece?
Cedric permaneceu olhando fixamente para o homem.
Como se tivesse voltado décadas no tempo.
— Conheço as histórias.
Meu avô falava dele quando eu era criança.
Era considerado o maior Guardião da Lua Negra.
Nenhum guerreiro conseguia derrotá-lo.
Nenhum inimigo atravessava sua defesa.
Aiden fechou os olhos por um breve instante.
— Ele também era meu irmão.
O vale inteiro mergulhou em um novo silêncio.
Orion olhou incrédulo para os dois homens.
Era difícil acreditar.
O Grande Guardião e aquele desconhecido possuíam o mesmo sangue.
Cassian inclinou levemente a cabeça.
— Ainda se lembra de mim.
— Todos os dias.
A resposta de Aiden saiu carregada de dor.
— Então sabe por que estou aqui.
Aiden não respondeu.
Sabia.
Infelizmente, sabia.
Enquanto isso...
No Salão das Memórias.
Elara continuava diante de Lyra.
Nada do que acontecia do lado de fora alcançava aquele lugar.
O jardim permanecia tranquilo.
A lua brilhava intensamente acima das árvores prateadas.
Lyra caminhava lentamente ao redor da neta.
— Existem lembranças que podem fortalecer uma pessoa.
Outras...
Podem destruí-la.
Elara enxugou as lágrimas que ainda permaneciam em seu rosto.
— Quero conhecer todas.
Mesmo as mais dolorosas.
A antiga rainha sorriu.
— Tem certeza?
— Passei minha vida acreditando em mentiras.
Não quero continuar vivendo assim.
Lyra assentiu.
Estendeu novamente a mão.
Desta vez, não surgiu uma lembrança.
Mas um corredor escuro.
Longo.
Silencioso.
Velas iluminavam suas paredes.
Ao fundo existia uma enorme porta dourada.
— O que é esse lugar?
— Sua própria memória.
Elara observou o corredor.
— Então por que a porta está fechada?
Lyra aproximou-se dela.
— Porque alguém colocou sete selos sobre suas lembranças.
Cada selo foi criado para esconder uma parte da verdade.
A jovem franziu a testa.
— Quem faria isso?
— Sua mãe.
A resposta a surpreendeu.
— Ela apagou minhas lembranças?
— Não.
Protegeu você.
Lyra pousou delicadamente a mão sobre a maçaneta dourada.
— Aurora sabia que existiam pessoas capazes de arrancar memórias da mente de uma criança.
Então decidiu escondê-las.
Somente você poderá abrir essas portas.
Quando estiver preparada.
Elara olhou atentamente para a porta.
No centro havia o desenho de uma lua cercada por sete estrelas.
A mesma marca que começava a aparecer repetidamente desde sua chegada ao vale.
— Existem sete portas?
Lyra confirmou.
— Uma para cada verdade que sua mãe precisou esconder.
— E o que existe atrás desta?
A antiga rainha permaneceu em silêncio.
Depois respondeu:
— O rosto do homem que tentou matar você.
O coração de Elara acelerou.
Sem pensar, estendeu a mão para a maçaneta.
No instante em que seus dedos tocaram o metal...
Uma dor intensa atravessou sua cabeça.
Ela recuou imediatamente.
Imagens começaram a surgir.
Um corredor tomado por fumaça.
Soldados correndo.
Aurora carregando uma criança nos braços.
Gritos.
Sangue.
Uma espada coberta de fogo negro.
E um homem.
Muito alto.
Seu rosto continuava escondido.
Mas uma voz grave ecoou claramente.
— Entregue a menina, Aurora.
E eu prometo que sua morte será rápida.
A lembrança desapareceu.
Elara levou a mão à testa.
Respirava com dificuldade.
— Ainda não consigo vê-lo.
Lyra segurou seus ombros.
— Porque o selo continua intacto.
Mas já começou a enfraquecer.
No mundo exterior...
Cassian finalmente levantou-se.
Era alto.
Mais alto até mesmo que Lucien.
Retirou lentamente o capuz.
Os cabelos negros caíam até os ombros.
Uma cicatriz atravessava sua sobrancelha esquerda.
Apesar da idade, mantinha a postura firme de um guerreiro.
Seus olhos encontraram os de Aiden.
— Faz mais de vinte anos.
Aiden respondeu com tristeza.
— Vinte e cinco.
Cassian sorriu.
— O tempo passa rápido para quem vive preso às próprias culpas.
Magnus observava tudo em silêncio.
Era evidente que respeitava aquele homem.
O comandante da Lua Rubra inclinou discretamente a cabeça.
Um gesto raro.
— Mestre.
Lucien percebeu imediatamente.
— Você responde a ele?
Magnus respondeu sem desviar o olhar.
— Todos nós respondemos.
O comentário provocou murmúrios entre os soldados.
Até Seraphine demonstrou surpresa.
— Então era verdade...
Cassian voltou-se lentamente para Magnus.
— Ainda não.
O comandante abaixou imediatamente a cabeça.
Sem discutir.
Orion aproximou-se de Cedric.
— Não estou entendendo.
Cedric falava quase num sussurro.
— Se Magnus o chamou de mestre...
Então Cassian não pertence à Ordem da Lua Rubra.
Ele a criou.
As palavras ecoaram pelo vale.
Aiden fechou os punhos.
— Não.
Eu a criei junto com ele.
Todos olharam para o Grande Guardião.
Lucien franziu a testa.
— Explique.
Aiden respirou profundamente.
Parecia reviver um passado que preferia esquecer.
— Há muitos anos, existia apenas uma ordem.
Os Guardiões do Véu.
Juramos proteger a família real.
Mas, após a morte do rei, começamos a discordar.
Cassian acreditava que a paz só existiria se todas as alcateias fossem governadas por um único líder absoluto.
Sem Conselhos.
Sem Supremos.
Sem liberdade.
Aiden abaixou o olhar.
— Eu acreditava que uma rainha deveria governar ao lado de seu povo.
Não acima dele.
Cassian completou a frase.
— Então seguimos caminhos diferentes.
— Você levou metade dos Guardiões.
— E você ficou com a outra metade.
Seraphine compreendeu naquele instante.
— A Lua Rubra nasceu dessa divisão.
Cassian assentiu.
— Sim.
Durante anos trabalhamos nas sombras.
Esperando a oportunidade de reconstruir o mundo.
Lucien ergueu a lança.
— Assassinando inocentes?
Cassian olhou para ele sem qualquer emoção.
— Toda mudança exige sacrifícios.
A resposta fez Orion cerrar os dentes.
— Você matou Aurora.
Pela primeira vez desde que surgira, a expressão de Cassian vacilou.
Houve algo semelhante ao arrependimento em seus olhos.
Durou apenas um instante.
— Não.
Aurora morreu porque se recusou a enxergar a verdade.
Elara poderia ter crescido em um reino forte.
Sem divisões.
Sem guerras entre alcateias.
Ela seria uma imperatriz.
Não uma rainha.
Aiden deu mais um passo.
Sua voz tornou-se firme.
— Você queria uma marionete.
Cassian balançou lentamente a cabeça.
— Eu queria salvar nosso povo.
Vocês confundiram compaixão com fraqueza.
Enquanto discutiam, pequenas rachaduras começaram a surgir na coluna de luz que envolvia Elara.
Seraphine percebeu imediatamente.
— O ritual está terminando.
Aiden também olhou para a luz.
Seu semblante mudou.
— Ela está voltando.
Cassian sorriu.
— Ótimo.
Já estava cansado de esperar.
Ele ergueu lentamente a mão direita.
O símbolo vermelho gravado em sua palma começou a brilhar.
Ao mesmo tempo, bem acima das montanhas, nuvens negras cobriram completamente a lua prateada.
O céu escureceu.
Um rugido profundo ecoou entre as rochas.
Não era de um lobo.
Nem de qualquer criatura conhecida.
Todos levantaram os olhos.
Até Magnus pareceu surpreso.
Uma gigantesca sombra atravessava as nuvens.
Possuía asas.
Olhos vermelhos.
E um corpo tão enorme que ocultava parte da luz do céu.
Orion deu um passo para trás.
— Isso... não pode existir.
Aiden fechou os olhos por um breve instante.
Quando tornou a abri-los, havia apenas preocupação em seu rosto.
— Pode.
Porque foi Cassian quem libertou o último Dragão da Lua Sombria.







