Capítulo 12 – As Memórias da Rainha

A luz que envolvia Elara tornou-se tão intensa que ninguém conseguia olhar diretamente para ela.

O vento aumentou de força.

As árvores do vale se curvaram.

O lago sagrado começou a girar em espiral, como se respondesse ao mesmo chamado que ecoava nos céus.

Os guerreiros da Lua Negra recuaram instintivamente.

Até Magnus deu alguns passos para trás.

Jamais havia presenciado um fenômeno daquela magnitude.

A voz feminina continuou ressoando.

— Minha filha...

Não tema.

Elara tentou responder, mas nenhuma palavra saiu.

Seu corpo parecia leve.

Quase sem peso.

A paisagem ao redor começou a desaparecer lentamente.

As montanhas sumiram.

O vale dissolveu-se como névoa.

O som das espadas desapareceu.

Quando voltou a abrir os olhos, já não estava mais no campo de batalha.

Encontrava-se em um enorme salão iluminado por centenas de tochas.

Colunas de mármore branco sustentavam um teto adornado por pinturas da lua e das estrelas.

Longos tapetes prateados cobriam o chão.

Bandeiras negras bordadas com fios de prata pendiam das paredes.

No centro do salão havia um trono.

Majestoso.

Construído em cristal escuro e prata.

Sobre ele estava sentada uma mulher.

Vestia um longo vestido negro com detalhes cintilantes que lembravam um céu estrelado.

Os cabelos eram negros como a noite.

Os olhos...

Os mesmos olhos de Elara.

A mulher sorriu.

Um sorriso carregado de carinho.

— Finalmente nos encontramos.

Elara permaneceu imóvel.

Seu coração acelerava sem controle.

— Quem é você?

A mulher levantou-se lentamente.

— Meu nome é Lyra.

Sua avó.

O ar pareceu desaparecer dos pulmões de Elara.

A Rainha caminhou até ela.

Não havia pressa em seus passos.

Sua presença transmitia uma paz difícil de explicar.

— Sei que possui muitas perguntas.

— Você...

Está morta.

Lyra sorriu.

— Meu corpo descansou há muitos anos.

Mas uma parte da minha alma permaneceu ligada à Coroa.

Até que uma descendente fosse capaz de despertá-la novamente.

Elara respirou fundo.

Ainda era difícil acreditar.

— Então tudo isso é real?

— Muito mais do que imagina.

Lyra estendeu a mão.

Assim que seus dedos tocaram os de Elara, o salão desapareceu.

As duas passaram a caminhar por um enorme jardim iluminado por uma lua gigantesca.

Flores negras cobriam todo o campo.

O perfume adocicado lembrava a infância.

Sem entender o motivo, lágrimas surgiram nos olhos de Elara.

— Eu conheço este lugar...

Lyra assentiu.

— Sim.

Você nasceu aqui.

As palavras atingiram seu coração como uma onda.

Ela olhou ao redor com mais atenção.

Uma pequena fonte de pedra.

Uma árvore gigantesca de folhas prateadas.

Um balanço preso aos galhos.

Imagens começaram a surgir em sua mente.

Uma criança correndo descalça.

Risos.

Braços femininos a levantando do chão.

Canções suaves antes de dormir.

E uma voz.

Sempre a mesma voz.

"A lua nunca abandona quem pertence a ela."

Elara levou a mão à cabeça.

As lembranças surgiam em fragmentos.

Pequenas.

Confusas.

Mas existiam.

Ela realmente estivera ali.

— Eu me lembro...

Lyra sorriu emocionada.

— Aos poucos.

Não force sua memória.

Ela voltará quando estiver preparada.

Continuaram caminhando.

À medida que avançavam pelo jardim, novas imagens apareciam ao redor.

Como se o próprio lugar revivesse o passado.

Aurora caminhava segurando uma menina pequena pela mão.

Elara.

As duas riam enquanto colhiam flores negras.

Aurora ajoelhou diante da filha.

— Prometa uma coisa.

A pequena Elara inclinou a cabeça.

— O quê, mamãe?

— Nunca deixe que o ódio decida quem você será.

A menina fez um biquinho.

— Mesmo quando alguém for malvado?

Aurora sorriu.

— Principalmente nesses momentos.

A imagem desapareceu.

Elara enxugou rapidamente as lágrimas.

— Eu...

Não lembrava dela.

Lyra segurou delicadamente seu rosto.

— Sua mãe fez tudo para proteger essas lembranças.

Sabia que seriam usadas contra você.

Por isso aceitou sacrificá-las.

Elara fechou os olhos.

— Ela sabia que iria morrer?

A Rainha demorou alguns segundos para responder.

— Sabia que talvez não sobrevivesse.

Mesmo assim, permaneceu.

Porque uma rainha nunca abandona seu povo.

O silêncio tomou conta do jardim.

Elara tentou imaginar Aurora enfrentando um exército inteiro.

Sozinha.

Protegendo uma filha que jamais se lembraria daquele momento.

Seu peito doía.

Não pela perda.

Mas pelo amor que começava a compreender.

No mundo real...

A coluna de luz permanecia envolvendo Elara.

Seu corpo continuava imóvel.

Os olhos fechados.

A espada brilhava intensamente.

Aiden observava em silêncio.

Lucien aproximou-se dele.

— O que está acontecendo?

— A Coroa abriu o Salão das Memórias.

Seraphine ouviu a resposta.

Seu rosto tornou-se ainda mais preocupado.

— Ela ficará presa lá por quanto tempo?

Aiden respondeu sem desviar o olhar da luz.

— O tempo não existe naquele lugar.

Podem ser minutos.

Ou dias.

Magnus sorriu.

— Excelente.

Então basta matá-la agora.

Antes que desse qualquer ordem, Lucien colocou-se diante da coluna de luz.

Sua lança apontava diretamente para o comandante da Lua Rubra.

— Experimente.

Magnus ergueu lentamente a espada.

Os soldados da Lua Rubra avançaram alguns passos.

Os guerreiros da Lua Negra fizeram o mesmo.

O combate estava prestes a recomeçar.

Foi então que um uivo poderoso ecoou pelas montanhas.

Todos olharam para o norte.

Uma nova tropa aproximava-se em alta velocidade.

As bandeiras carregavam o brasão do Norte.

Kael havia chegado.

Magnus apertou os dentes.

— Tarde demais...

Kael desmontou antes mesmo de seu lobo parar completamente.

Seu olhar percorreu rapidamente o campo de batalha.

Reconheceu Lucien.

Seraphine.

Cedric.

Depois encontrou Elara envolta pela luz.

Seu coração disparou.

Ela estava viva.

Sem pensar, caminhou em sua direção.

Lucien atravessou a lança diante dele.

— Nem mais um passo.

Kael parou.

Os dois Supremos sustentaram o olhar um do outro.

— Não vim lutar com você.

— Suas intenções perderam valor no dia em que a rejeitou diante de todo o Norte.

Kael recebeu aquelas palavras em silêncio.

Não tentou justificar seus atos.

Nem negar o que havia feito.

Olhou novamente para Elara.

— Preciso protegê-la.

Lucien respondeu sem alterar a voz.

— Engraçado.

Era exatamente isso que deveria ter feito desde o início.

Kael baixou a cabeça por um breve instante.

Havia culpa em seu olhar.

Mas também determinação.

— Eu descobri que fui enganado.

Seraphine aproximou-se lentamente.

— Descobriu tarde.

— Eu sei.

— E acha que isso muda alguma coisa?

Kael respirou fundo.

— Não.

Mas muda o que farei daqui para frente.

Magnus observava aquela discussão com um sorriso discreto.

Quanto mais os Supremos brigassem entre si...

Mais fácil seria alcançar seu verdadeiro objetivo.

Discretamente, levou a mão até o cabo de uma pequena adaga escondida sob a capa.

Não pretendia enfrentar Lucien.

Nem Kael.

Seu alvo era outro.

A coluna de luz.

No exato instante em que preparava o golpe, Aiden virou lentamente o rosto em sua direção.

Os olhos prateados perderam toda a serenidade.

— Não faça isso.

Magnus sorriu.

— Tente me impedir.

Antes que pudesse lançar a adaga, o chão inteiro começou a tremer.

Uma rachadura abriu-se diante da coluna de luz.

Depois outra.

E outra.

Do interior da terra surgiu um brilho prateado que iluminou todo o vale.

As raízes da gigantesca árvore sagrada romperam o solo como serpentes vivas.

Subiram lentamente até cercar completamente Elara.

Nenhuma espada poderia atravessá-las.

Nenhuma flecha.

Nenhuma magia.

A árvore parecia proteger sua verdadeira soberana.

Ao mesmo tempo, dentro do Salão das Memórias, Lyra voltou a olhar para a neta.

Seu semblante já não demonstrava apenas carinho.

Havia urgência.

— Ainda existe uma verdade que você precisa conhecer.

Elara enxugou as lágrimas.

— Qual?

Lyra permaneceu em silêncio por alguns instantes.

Depois respondeu com uma firmeza que fez o coração da jovem acelerar.

— Aurora não morreu lutando apenas contra a Ordem da Lua Rubra.

Ela foi traída por alguém que jurou protegê-la.

Alguém que estava ao seu lado... até o último momento.

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