Mundo de ficçãoIniciar sessãoEm Florianópolis, Lívia desperta em um leito de hospital, a mente um vazio, desprovida de qualquer lembrança de seu passado. A vulnerabilidade a consome enquanto um homem frio e autoritário se apresenta como Arthur, um empresário de poder inquestionável, afirmando ser apenas seu patrão. A verdade, porém, é um abismo de dor e orgulho: Arthur é seu marido, um homem dilacerado pela crença de uma traição que, segundo ele, a precedeu ao grave acidente. Lívia, sem memória, é uma peça em um jogo de segredos e ressentimentos, onde a busca por sua identidade se entrelaça com a amargura de um amor ferido e a possibilidade de uma reviravolta crucial e inesperada que pode reescrever o destino de ambos. Búzios — Heloísa e Heitor Ele não pode se apaixonar pela filha do seu amigo Sete anos se passaram, mas Búzios permanece imutável, um cenário de memórias que se recusam a desvanecer. Heloísa pisa novamente na areia, e o ar salgado, denso de um passado que a persegue, inunda seus pulmões. Ela não é mais a 'Pequena Heloísa', a menina ingênua que Heitor Valente conheceu. O Rio de Janeiro a transformou, esculpindo nela curvas, atitude e uma firmeza inesperada. Heitor, considerado como um 'irmão' para seu pai, o homem que ela amou em silêncio, agora é ainda mais perigoso. Os fios grisalhos acentuam sua intensidade, conferindo-lhe uma aura de autoridade e perigo que a atrai e a repele em um turbilhão de emoções. O reencontro é um embate de paixões contidas e segredos não ditos, prometendo reviravoltas avassaladoras que desafiarão tudo o que eles acreditam saber sobre si mesmos e um sobre o outro.
Ler maisHeloísa
Aos vinte anos, eu acreditava piamente que o meu maior inimigo era uma saída de banho, uma peça cara de um tom verde que deveria realçar meus olhos, mas que, na prática, só servia para gritar "sobrinha querida" para quem passasse. Eu me encarava no espelho e via um esforço patético. Era como se eu estivesse fantasiada de adulta, tentando desesperadamente atrair o único par de olhos que realmente importava naquela festa: os de Heitor Valente.
Ter vinte anos e nutrir uma obsessão — ou "amor inabalável", se você for do tipo que ainda acredita em contos de fadas da Disney — pelo melhor amigo do seu pai é o tipo de clichê que eu, hoje, desprezaria em qualquer roteiro de comédia romântica barata.
Mas Heitor era... bem, ele era o Heitor. Terrivelmente atraente, com aquele ar de quem sabe exatamente o efeito que causa, e, para minha total infelicidade cronológica, mais velho que o meu próprio pai. Eu não sabia dizer quando a admiração de me sentar no colo dele para ouvir histórias se transformou nesse desejo visceral de... bom, de outras coisas.
O problema central? Para ele, eu ainda era a garotinha que precisava de ajuda para amarrar os sapatos e que chorava quando o sorvete caía no chão. Heitor me olhava com uma benevolência irritante, como se eu fosse um projeto de ser humano em fase de acabamento. E o pior é que eu nem podia culpá-lo por ser um homem decente; qualquer outra reação seria, tecnicamente, um desvio de caráter. Mas a lógica nunca foi o forte do meu coração aos vinte anos. Eu queria ser o pecado dele, não ser olhada como a pequena Heloísa de consideração que ele ajudava com o dever de casa.
Corte para sete anos depois. Tenho vinte e sete anos agora. O coração continua acelerado demais para um fim de tarde qualquer, provando que a maturidade não cura a taquicardia por vizinhos proibidos.
E me lembro exatamente quando eu me declarei para ele.
Estou sentada na beira da piscina da casa de Heitor, sentindo a água gelada nos pés enquanto a saída —com o propósito inútil de chamar atenção— cola na minha pele devido ao calor úmido. Heitor está lá, a poucos metros. Camisa branca, mangas dobradas revelando antebraços que deveriam ser ilegais, rindo de alguma piada sem graça que meu pai contou.
Sempre aquele riso fácil. Seguro. O riso de quem tem a vida sob controle, enquanto a minha está desmoronando só de olhar para ele.
— Heitor — eu chamo, minha voz soando mais firme do que eu me sinto por dentro.
Ele vira o rosto. Uma sobrancelha arqueada, aquele olhar atento, mas relaxado, de quem não espera nada além de um pedido para buscar um copo de água.
— Fala, Pequena.
O apelido é como um soco no estômago, mas eu engulo o seco. Levanto-me, sentindo a água escorrer pelas pernas, e tento manter o mínimo de dignidade.
— Posso falar com você? A sós?
Ele troca um olhar rápido com o meu pai, depois volta para mim, com um sorriso levemente intrigado.
— Claro.
Caminhamos alguns passos para longe do barulho das risadas e do tilintar de gelo nos copos. Meu coração b**e tão alto que tenho certeza de que ele pode ouvir, um metrônomo desregulado marcando o ritmo do meu iminente vexame.
— O que foi? — ele pergunta, com uma tranquilidade que beira a ofensa.
Respiro fundo. Uma vez. Duas. O ar parece feito de chumbo.
— Eu gosto de você.
O silêncio que se segue é denso o suficiente para ser cortado com uma faca de pão. O sorriso dele não desaparece de imediato; ele apenas se transforma. Primeiro fica automático, depois incrédulo, como se eu tivesse acabado de dizer que pretendo me mudar para Marte.
—Se que gosta.
—Como homem.
—Como é?
— Eu gosto de você — repito, as palavras saindo em disparada, atropelando umas às outras antes que a minha sanidade recupere o controle. — Não como amiga. Não como "sobrinha". Eu gosto de você de verdade. Do jeito que um homem e uma mulher gostam um do outro.
Ele solta uma risada curta. Surpresa. Depois outra, mais aberta, que me faz querer que a piscina se abra e me engula.
ArthurEstou ao lado dela. E a frase, que antes soava como uma imposição, hoje é a mais pura verdade. Sempre estive, de alguma forma torta, mesmo quando a distância entre nós era um abismo construído por mágoa e um orgulho burro. Mas houve um tempo em que estar ao lado não significava estar presente. Hoje, significa. Hoje, eu sinto cada pedacinho dessa presença, como um presente que se desdobra a cada respiração, a cada batida do meu coração que, finalmente, parece ter encontrado seu ritmo.A areia morna acolhe minhas mãos, e o sol da tarde beija meu rosto com uma doçura que, aos trinta e poucos, aprendi a valorizar. O vento, cúmplice, traz o cheiro salgado do mar, um sopro de vida que me convida a inspirar fundo. Respirar não é mais um fardo, uma contagem de perdas ou de oportunidades desperdiçadas. É um ato simples, puro, como a vida deveria ter sido desde o começo, desprovida das complexidades que, na minha arrogância, eu mesmo criei.Lívia está sentada ao meu lado, o corpo levemen
LíviaÀs vezes, eu me pego apenas respirando. Parece algo simples, algo que todo mundo faz sem pensar, mas para mim, cada inspiração é uma vitória, um lembrete de que o ar não é mais pesado como costumava ser. Hoje, o ar tem gosto de sal, de liberdade e de um futuro que a gente construiu com as próprias mãos, tijolo por tijolo, lágrima por lágrima. Estou sentada na areia, sentindo os grãos finos e quentes se moldarem sob o meu corpo, e o sol da tarde é como um abraço constante, um calor que não queima, mas que cura.À minha frente, o mundo parece ter ganhado cores que eu nem sabia que existiam. O azul do mar não é apenas azul; ele é turquesa onde as ondas começam a se formar, um azul profundo e misterioso no horizonte, e uma espuma branca e efervescente que lambe a areia e faz um som de chiado, como se estivesse sussurrando segredos para a terra. E no meio de toda essa imensidão, está o meu centro. O meu Noah.Ele está correndo. Noah nunca apenas caminha; ele parece ter uma urgência d
ArthurO carro desliza suavemente pela alameda sinuosa da mansão, e cada metro percorrido é um bálsamo para a alma, uma promessa sussurrada de redenção. A vingança contra Felipe, fria e calculada, foi rápida, quase cirúrgica. Embora não tenha preenchido o vazio com uma paz completa, ela varreu os obstáculos, limpando o caminho para o que realmente importava. Meu coração, antes pesado, agora pulsa com uma leveza estranha, uma urgência doce que me impulsiona. Mal posso esperar para cruzar a soleira de casa, para ver Lívia, para derramar sobre ela todo o amor, toda a atenção que ela merece, que ela anseia. O cheiro dela, uma fusão inebriante de sândalo e baunilha, já me envolve na memória, um convite irresistível que me puxa para o lar.Estaciono o carro com um leve solavanco e desço. O ar gelado do inverno me atinge, cortante como lâminas de gelo, mas, estranhamente, não me incomoda. A mansão, antes um labirinto de sombras e segredos sussurrantes, agora se ergue como o nosso santuário,
— Heloísa… — ele diz meu nome como se fosse algo precioso, um segredo que ele guardou por toda a vida, um tesouro. Então me beija. Não é um beijo calmo, não é um beijo gentil. É um beijo cheio de tudo que ficou guardado por anos, de anseios, de paixão reprimida, de uma espera que parecia infinita, de um amor que transborda. Minhas mãos se perdem nos cabelos dele, puxando-o para mais perto, enquanto ele me aperta contra si, como se tivesse medo de que eu desaparecesse, de que eu fosse apenas um sonho, uma miragem. O beijo se aprofunda, mais quente, mais urgente, uma dança de línguas e desejos que me leva ao delírio, ao êxtase. Quando ele finalmente se afasta, estamos os dois sem fôlego, os lábios inchados, os corações batendo em uníssono, uma sinfonia de amor. Ele me pega no colo, um movimento tão repentino que eu solto uma pequena risada surpresa. Meus braços se enroscam em seu pescoço, minhas pernas em sua cintura, e eu me sinto leve, flutuando em seus braços fortes, segura. — Heit
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