Mundo de ficçãoIniciar sessãoBúzios. Sete anos depois. Eu pisei de volta nessa areia, e o ar salgado me invadiu os pulmões como uma memória líquida, cheia de promessas e de um passado que nunca me largou. Eu voltei, mas não sou mais a 'Pequena Heloísa' que ele conheceu. O Rio me transformou, me deu curvas, atitude e uma firmeza que ele jamais esperaria. E ele? Ah, Heitor Valente. O primeiro homem que amei em silêncio, o 'irmão' do meu pai, o cara que me chamava de 'macaquinha'. Agora, ele está ainda mais perigoso, com aqueles fios grisalhos que só o deixaram mais sexy, mais intenso, com uma aura de autoridade e perigo que me atrai e me repele ao mesmo tempo. Quando nossos olhos se encontram, é um choque elétrico. Ele tenta me abraçar como um tio, me beijar a testa como se eu ainda fosse uma criança inofensiva. Mas eu não sou. E faço questão que ele saiba. A tensão entre nós é palpável, um jogo de olhares famintos, de palavras cortantes, de toques 'acidentais' que incendeiam a pele e me deixam sem ar. Ele me deseja, eu sinto cada fibra do meu corpo vibrar com essa certeza. E o pior? Eu também o desejo, com uma força avassaladora que me assusta e me consome. """ Heitor Valente sempre soube exatamente o que queria — até Heloísa voltar à sua vida. A filha de seu melhor amigo não é mais a garota que ele prometeu proteger. Agora ela é uma mulher que desperta nele um desejo proibido, perigoso e impossível de ignorar. E quando outro homem começa a cortejá-la, Heitor percebe que perdeu o controle sobre a única coisa que sempre dominou: seu próprio coração.
Ler maisHeloísa
Aos vinte anos, eu acreditava piamente que o meu maior inimigo era uma saída de banho, uma peça cara de um tom verde que deveria realçar meus olhos, mas que, na prática, só servia para gritar "sobrinha querida" para quem passasse. Eu me encarava no espelho e via um esforço patético. Era como se eu estivesse fantasiada de adulta, tentando desesperadamente atrair o único par de olhos que realmente importava naquela festa: os de Heitor Valente.
Ter vinte anos e nutrir uma obsessão — ou "amor inabalável", se você for do tipo que ainda acredita em contos de fadas da Disney — pelo melhor amigo do seu pai é o tipo de clichê que eu, hoje, desprezaria em qualquer roteiro de comédia romântica barata.
Mas Heitor era... bem, ele era o Heitor. Terrivelmente atraente, com aquele ar de quem sabe exatamente o efeito que causa, e, para minha total infelicidade cronológica, mais velho que o meu próprio pai. Eu não sabia dizer quando a admiração de me sentar no colo dele para ouvir histórias se transformou nesse desejo visceral de... bom, de outras coisas.
O problema central? Para ele, eu ainda era a garotinha que precisava de ajuda para amarrar os sapatos e que chorava quando o sorvete caía no chão. Heitor me olhava com uma benevolência irritante, como se eu fosse um projeto de ser humano em fase de acabamento. E o pior é que eu nem podia culpá-lo por ser um homem decente; qualquer outra reação seria, tecnicamente, um desvio de caráter. Mas a lógica nunca foi o forte do meu coração aos vinte anos. Eu queria ser o pecado dele, não ser olhada como a pequena Heloísa de consideração que ele ajudava com o dever de casa.
Corte para sete anos depois. Tenho vinte e sete anos agora. O coração continua acelerado demais para um fim de tarde qualquer, provando que a maturidade não cura a taquicardia por vizinhos proibidos.
E me lembro exatamente quando eu me declarei para ele.
Estou sentada na beira da piscina da casa de Heitor, sentindo a água gelada nos pés enquanto a saída —com o propósito inútil de chamar atenção— cola na minha pele devido ao calor úmido. Heitor está lá, a poucos metros. Camisa branca, mangas dobradas revelando antebraços que deveriam ser ilegais, rindo de alguma piada sem graça que meu pai contou.
Sempre aquele riso fácil. Seguro. O riso de quem tem a vida sob controle, enquanto a minha está desmoronando só de olhar para ele.
— Heitor — eu chamo, minha voz soando mais firme do que eu me sinto por dentro.
Ele vira o rosto. Uma sobrancelha arqueada, aquele olhar atento, mas relaxado, de quem não espera nada além de um pedido para buscar um copo de água.
— Fala, Pequena.
O apelido é como um soco no estômago, mas eu engulo o seco. Levanto-me, sentindo a água escorrer pelas pernas, e tento manter o mínimo de dignidade.
— Posso falar com você? A sós?
Ele troca um olhar rápido com o meu pai, depois volta para mim, com um sorriso levemente intrigado.
— Claro.
Caminhamos alguns passos para longe do barulho das risadas e do tilintar de gelo nos copos. Meu coração b**e tão alto que tenho certeza de que ele pode ouvir, um metrônomo desregulado marcando o ritmo do meu iminente vexame.
— O que foi? — ele pergunta, com uma tranquilidade que beira a ofensa.
Respiro fundo. Uma vez. Duas. O ar parece feito de chumbo.
— Eu gosto de você.
O silêncio que se segue é denso o suficiente para ser cortado com uma faca de pão. O sorriso dele não desaparece de imediato; ele apenas se transforma. Primeiro fica automático, depois incrédulo, como se eu tivesse acabado de dizer que pretendo me mudar para Marte.
—Se que gosta.
—Com homem.
—Como é?
— Eu gosto de você — repito, as palavras saindo em disparada, atropelando umas às outras antes que a minha sanidade recupere o controle. — Não como amiga. Não como "sobrinha". Eu gosto de você de verdade. Do jeito que um homem e uma mulher gostam um do outro.
Ele solta uma risada curta. Surpresa. Depois outra, mais aberta, que me faz querer que a piscina se abra e me engula.
HeloísaEu acordo antes do sol terminar de subir, com o som do mar entrando no quarto como um sussurro antigo. As ondas quebram constantes, indiferentes às confusões humanas, e por alguns segundos eu fico ali, deitada, encarando o teto, tentando entender por que meu corpo parece desperto demais para tão cedo.Então eu lembro.A casa.O retorno.Heitor.O nome surge na minha mente com uma nitidez irritante. Não como saudade. Como presença. Como algo que ocupa espaço mesmo quando não está no mesmo cômodo.Levanto-me devagar, caminho até a janela e abro mais as cortinas. O céu está limpo, azul quase exagerado, e o cheiro de sal entra com força. Búzios continua linda. Continua perigosa. E eu continuo decidida a não me encolher dentro dela.No banheiro, encaro meu reflexo com atenção. Não é vaidade. É reconhecimento. Meus olhos verdes, de um tom profundo que sempre chamaram de esmeralda, me encaram de volta com firmeza. Não há ingenuidade neles. Só presença. Os cabelos castanhos, agora com
A porta se abre, e a casa se enche de vozes.— Heloísa!A voz do meu pai vem primeiro, carregada, forte, cheia daquela alegria que sempre me desmonta. Eu me levanto no mesmo instante.— Pai.Ele larga a pasta no chão antes mesmo de fechar a porta e cruza a sala em três passos largos. O abraço vem apertado, inteiro, daqueles que esmagam costelas e fazem o mundo caber ali dentro por alguns segundos.— Minha filha… — ele diz baixo, a voz embargando só um pouco. — Finalmente em casa.Fecho os olhos por um instante. O cheiro dele — colônia conhecida, segurança, infância — me envolve. Não há cálculo aqui. Não há jogo. Só pertencimento.— Eu senti falta disso — confesso.Ele se afasta um pouco, segura meu rosto entre as mãos, me examina como se quisesse garantir que estou inteira.— Você está linda — declara, com orgulho explícito. — Mais forte. Mais você.Minha mãe surge logo atrás, os olhos já marejados.— Não faz isso, Carlos, eu ainda nem abracei — reclama, puxando-me para si em seguida.
O cansaço da viagem me alcança de repente, uma mistura de jet lag emocional e a adrenalina do reencontro. Deito-me por alguns minutos, só para fechar os olhos. Quando acordo, a luz já mudou, o dourado do entardecer dando lugar a um azul profundo. A casa está silenciosa demais para uma tarde inteira.Sinto o calor de Búzios pedindo um banho urgente. No banheiro, deixo a água morna relaxar meus ombros. Saio do box e paro diante do espelho, limpando o vapor com a mão. O que vejo é o que me tornei: uma mulher que não pede licença. Meus olhos verdes, profundos, me encaram com uma firmeza nova. O cabelo castanho, com reflexos dourados que o sol do Rio insistiu em marcar, cai em ondas selvagens, meio rebeldes, meio indomáveis. Eu pareço uma gata selvagem que acabou de despertar, e gosto dessa imagem. Não é para ninguém. É apenas quem eu sou agora.Abro a mala e pego a primeira coisa prática que encontro para enfrentar o mormaço: um shorts jeans curto, desfiado, daqueles que já se moldaram ao
E deixo que ele decida sozinho se isso é aviso ou constatação. Ele sorri de canto. Aquele sorriso que sempre guardou coisas demais, mas que agora, emoldurado pelos fios grisalhos, parece ainda mais devastador.— Para mim… — ele começa — você sempre foi a Pequena Heloísa. Minha pimentinha.A palavra cai entre nós como um estalo seco. Pequena. O apelido que ele me deu quando eu tinha quinze anos e achava que amar alguém em silêncio era o máximo que eu podia oferecer. O apelido que sobreviveu à minha ausência e que ele insiste em usar como uma coleira invisível.— Não me chame assim — digo.Não elevo a voz. Não sorrio. Sustento o olhar azul que agora parece buscar uma saída. Ele arqueia a sobrancelha, surpreso. É mínimo, mas eu vejo. Sempre vi quando se trata dele.— Você nunca se importou.— Eu amadureci — respondo, sem desviar o olhar. — E não gosto mais. Especialmente de beijos na testa. Guarde-os para quem ainda precisa de colo.O silêncio se estende entre nós. O mar parece mais alto
Heloísa NavarroEu desço do carro sentindo o ar de Búzios me invadir os pulmões como se fosse uma memória líquida. Sal. Sol. Vento quente. E um passado que nunca me largou, só aprendeu a esperar. O calor cola o vestido ao meu corpo, desenhando as curvas que o Rio de Janeiro moldou com o tempo e a maturidade. Por um segundo, eu fecho os olhos. Respiro fundo. Não para acalmar. Para ancorar. Eu voltei porque quis. Porque escolhi. Porque agora sou capaz de sustentar o peso da minha própria existência.A casa de praia da minha família continua exatamente como sempre esteve. Branca, ampla, elegante sem esforço. Janelas enormes abertas para o mar, como se nada ali precisasse se esconder. Luxo sem ostentação. Conforto sem culpa. Meu pai sempre fez questão de que esse lugar fosse um refúgio, não uma vitrine. Mesmo assim, cada centímetro carrega história demais. Minha infância espalhada pelos corredores. Minhas férias intermináveis. Os pés descalços correndo pela varanda. As risadas altas. Os s
— Heloísa... — Ele passa a mão no rosto, o gesto clássico de quem está tentando processar uma informação absurda vinda de uma criança. — Isso é brincadeira, não é? Alguma aposta com as suas amigas?— Não — respondo, sentindo meu rosto queimar em um tom de vermelho que nenhum blush conseguiria imitar. — Não é brincadeira.Ele me olha como se eu tivesse quebrado a lei da gravidade. Ou, pior, como se eu tivesse acabado de fazer uma cena em um restaurante chique.— Você tem quantos anos mesmo? — ele pergunta, ainda com aquele risinho condescendente que me dá vontade de gritar. — Vinte?— Vinte.— Meu Deus... — Ele balança a cabeça, e o brilho de diversão nos olhos dele é a coisa mais dolorosa que já vi. — Você é praticamente uma criança, Helô.Aquilo dói mais do que um "não". Dói porque é um descarte completo da minha existência como mulher.— Criança? Eu não sou criança, Heitor. Eu sei exatamente o que eu quero.— É sim — ele diz, agora com aquele tom de voz que se usa para acalmar um Go





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