Mundo de ficçãoIniciar sessãoHeloísa
Eu acordo antes do sol terminar de subir, com o som do mar entrando no quarto como um sussurro antigo. As ondas quebram constantes, indiferentes às confusões humanas, e por alguns segundos eu fico ali, deitada, encarando o teto, tentando entender por que meu corpo parece desperto demais para tão cedo.
Então eu lembro.
A casa.
O retorno.
Heitor.
O nome surge na minha mente com uma nitidez irritante. Não como saudade. Como presença. Como algo que ocupa espaço mesmo quando não está no mesmo cômodo.
Levanto-me devagar, caminho até a janela e abro mais as cortinas. O céu está limpo, azul quase exagerado, e o cheiro de sal entra com força. Búzios continua linda. Continua perigosa. E eu continuo decidida a não me encolher dentro dela.
No banheiro, encaro meu reflexo com atenção. Não é vaidade. É reconhecimento. Meus olhos verdes, de um tom profundo que sempre chamaram de esmeralda, me encaram de volta com firmeza. Não há ingenuidade neles. Só presença. Os cabelos castanhos, agora com reflexos dourados que o sol de Búzios insiste em deixar, caem soltos pelos ombros, mais longos do que quando fui embora. Minha pele tem um tom amendoado que não veio de bronzeamentos apressados, mas de anos voltando para cá, visitando meu pai, acumulando verões, despedidas e retornos. Meu corpo carrega essa história sem pedir licença — curvas mais definidas, postura mais segura, um jeito de ocupar espaço que não existia antes. Eu sei quem sou agora. Sei o que mudou. Sei o que quero construir aqui — profissionalmente, emocionalmente, como mulher. E não há nada de pequeno nisso.
E sei que Heitor vai ser o maior teste da minha maturidade… ou da dele.
Tomo um banho rápido, sem pressa, deixando a água escorrer pelas costas enquanto organizo mentalmente o dia. Trabalho. Visitas. Nada de orbitar em torno dele. Nada de reagir a cada silêncio. Eu não voltei para ser espectadora da vida de ninguém.
Escolho um vestido azul-claro, não de menininha, mas que denunciam meu corpo e ao mesmo tempo ele é confortável e me representa sem esforço. Quando desço as escadas, o cheiro de café já está espalhado pela casa.
A casa está silenciosa, o sol já alto, pintando o chão de madeira com listras douradas. Na cozinha, minha mãe, Ana, está debruçada sobre a bancada, mexendo em um tablet. Ela sorri ao me ver, um sorriso cansado, mas cheio de carinho.
— Bom dia, dorminhoca! — ela diz, sem tirar os olhos da tela. — O café está pronto.
—E papai?
—Saiu com Heitor, foi ver a reforma da galeria.
Heitor. O nome dele já se tornou um gatilho para meu coração. Sento-me à mesa, pegando uma xícara. A imagem dele na varanda, os olhos azuis me avaliando, a voz grave me chamando de "Pequena"... tudo se repete na minha mente. Eu preciso mudar isso. Preciso que ele me veja de outra forma, e para isso, preciso primeiro me firmar, mostrar que sou uma mulher independente, com meus próprios projetos.
— Mãe, preciso começar a procurar um espaço para o meu ateliê aqui em Búzios — digo, tentando desviar o foco da minha obsessão por Heitor. — Tenho algumas ideias para uma coleção de moda praia, algo mais autoral, sabe? Quero fugir do óbvio.
Minha mãe me olha, finalmente, com um brilho de orgulho nos olhos.
— Que maravilha, filha! Tenho certeza de que você fará sucesso. Seu pai tem alguns contatos no centro, posso pedir para ele te ajudar.
— Não, mãe. — Minha voz sai mais firme do que eu pretendia. — Eu quero fazer isso sozinha. Quero provar para mim mesma que sou capaz. E para os outros também. — O "outros" era claramente direcionado a Heitor, mesmo que ele não estivesse ali para ouvir.
Ela assente, compreensiva. Minha mãe sempre foi a mais sensível da família, a que entendia meus anseios mais profundos. Meu pai, por outro lado, sempre foi mais prático, mais focado nos negócios, e em Heitor, seu pupilo e braço direito.
Enquanto tomo meu café, pego meu celular e começo a pesquisar imóveis para alugar. Preciso de um lugar com boa iluminação, espaço para as máquinas e, claro, que tenha a cara de Búzios. Quero que minhas criações reflitam a beleza e a leveza daqui, mas com um toque de sofisticação e sensualidade. Exatamente o que eu quero transmitir sobre mim mesma.
Horas depois, já estou na rua, explorando as pequenas galerias e ruas charmosas do centro. O sol está forte, mas a brisa do mar ameniza o calor. Passo por algumas lojas de artesanato, butiques de luxo e restaurantes charmosos. Búzios é um paraíso, mas também um mercado competitivo. Preciso me destacar.
De repente, vejo uma figura familiar saindo de uma galeria de arte. Heitor. Ele está com uma mulher, alta, elegante, com cabelos loiros impecáveis e um sorriso que parece ensaiado. Ela segura o braço dele de uma forma que é casual demais para não ser possessiva.
Ele a olha com uma atenção que nunca dedicou a mim, não dessa forma. Sinto uma pontada de ciúmes, afiada e dolorosa. Eles riem de algo, e a risada dela é leve, melódica, irritante.
Então, Heitor percebe minha presença. Seus olhos azuis, antes relaxados, se arregalam por uma fração de segundo, e um músculo se contrai em sua mandíbula. Ele me vê. E a mulher ao lado dele, seguindo seu olhar, também me vê.
— Heloísa! — Heitor diz, a voz um pouco mais alta do que o necessário, como se quisesse que ela ouvisse. — Que surpresa te encontrar por aqui. Já está explorando a cidade?
Ele se aproxima, a mulher ao seu lado, com um sorriso forçado no rosto.
— Sim, estou procurando um lugar para o meu ateliê. — Respondo, a voz soando mais casual do que eu me sinto. Estendo a mão para ela, tomando a iniciativa. — Prazer, sou Heloísa.
A mulher aperta minha mão. O aperto é firme, competitivo. O sorriso permanece impecável. Os olhos, não.
— Marcela. — Apenas isso. Então, ela se vira para Heitor, um pequeno sorriso vitorioso nos lábios. — Ele fala muito de você. A “Pequena” Heloísa, não é?
Meu sangue não ferve. Ele gela.
A raiva não explode — ela se organiza, fria e precisa.
Heitor não intervém. Não corrige. Não suaviza. Ele apenas observa, como se eu fosse um teste, um experimento. Como se quisesse ver até onde eu vou.
— Não. — Minha voz sai baixa, firme, cortando o ar quente de Búzios. — "Pequena" era um apelido antigo.
Faço uma pausa deliberada, deixando o peso da minha recusa assentar.
— Não me serve mais. Heloísa é suficiente.
Marcela inclina levemente a cabeça, o sorriso vacilando por um instante.
— Claro. As pessoas mudam.
— Algumas evoluem. — respondo, sustentando o olhar dela sem elevar o tom.
Ela sorri de novo, dessa vez mais contida, e entrelaça o braço no de Heitor com uma naturalidade ensaiada demais para ser espontânea, marcando seu território.
— Nós estávamos só finalizando os detalhes da curadoria para a nova galeria.
— Ah, entendi. — Assinto lentamente, e um pequeno sorriso, genuinamente meu, surge em meus lábios. Olho para ela, depois para Heitor, e de volta para ela. — Hum, então você trabalha para o Heitor.
A frase cai no meio deles como uma bomba silenciosa. A palavra "para" redefine a dinâmica de poder instantaneamente. Marcela não é a parceira, a igual. Ela é a funcionária. O sorriso dela congela. Vejo a cor subir levemente em seu rosto perfeitamente maquiado. Heitor, por sua vez, prende a respiração por um segundo.
Eu dou um passo atrás, o meu ponto já estabelecido.
— Bom, vou deixar vocês trabalharem. Tenham uma boa tarde.
Não espero resposta.
Me viro e sigo meu caminho, o coração batendo forte, mas não de dor. É adrenalina. A busca pelo ateliê agora ganha outra camada. Não é apenas independência profissional.
É afirmação.
Não para ela. Não exatamente para ele. Mas para mim.
Eu não sou mais a “Pequena” que ele deixou para trás.
E ambos acabaram de ser formalmente notificados.







