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Heloísa
Aos vinte anos, eu acreditava piamente que o meu maior inimigo era uma saída de banho, uma peça cara de um tom verde que deveria realçar meus olhos, mas que, na prática, só servia para gritar "sobrinha querida" para quem passasse. Eu me encarava no espelho e via um esforço patético. Era como se eu estivesse fantasiada de adulta, tentando desesperadamente atrair o único par de olhos que realmente importava naquela festa: os de Heitor Valente.
Ter vinte anos e nutrir uma obsessão — ou "amor inabalável", se você for do tipo que ainda acredita em contos de fadas da Disney — pelo melhor amigo do seu pai é o tipo de clichê que eu, hoje, desprezaria em qualquer roteiro de comédia romântica barata.
Mas Heitor era... bem, ele era o Heitor. Terrivelmente atraente, com aquele ar de quem sabe exatamente o efeito que causa, e, para minha total infelicidade cronológica, mais velho que o meu próprio pai. Eu não sabia dizer quando a admiração de me sentar no colo dele para ouvir histórias se transformou nesse desejo visceral de... bom, de outras coisas.
O problema central? Para ele, eu ainda era a garotinha que precisava de ajuda para amarrar os sapatos e que chorava quando o sorvete caía no chão. Heitor me olhava com uma benevolência irritante, como se eu fosse um projeto de ser humano em fase de acabamento. E o pior é que eu nem podia culpá-lo por ser um homem decente; qualquer outra reação seria, tecnicamente, um desvio de caráter. Mas a lógica nunca foi o forte do meu coração aos vinte anos. Eu queria ser o pecado dele, não ser olhada como a pequena Heloísa de consideração que ele ajudava com o dever de casa.
Corte para sete anos depois. Tenho vinte e sete anos agora. O coração continua acelerado demais para um fim de tarde qualquer, provando que a maturidade não cura a taquicardia por vizinhos proibidos.
E me lembro exatamente quando eu me declarei para ele.
Estou sentada na beira da piscina da casa de Heitor, sentindo a água gelada nos pés enquanto a saída —com o propósito inútil de chamar atenção— cola na minha pele devido ao calor úmido. Heitor está lá, a poucos metros. Camisa branca, mangas dobradas revelando antebraços que deveriam ser ilegais, rindo de alguma piada sem graça que meu pai contou.
Sempre aquele riso fácil. Seguro. O riso de quem tem a vida sob controle, enquanto a minha está desmoronando só de olhar para ele.
— Heitor — eu chamo, minha voz soando mais firme do que eu me sinto por dentro.
Ele vira o rosto. Uma sobrancelha arqueada, aquele olhar atento, mas relaxado, de quem não espera nada além de um pedido para buscar um copo de água.
— Fala, Pequena.
O apelido é como um soco no estômago, mas eu engulo o seco. Levanto-me, sentindo a água escorrer pelas pernas, e tento manter o mínimo de dignidade.
— Posso falar com você? A sós?
Ele troca um olhar rápido com o meu pai, depois volta para mim, com um sorriso levemente intrigado.
— Claro.
Caminhamos alguns passos para longe do barulho das risadas e do tilintar de gelo nos copos. Meu coração b**e tão alto que tenho certeza de que ele pode ouvir, um metrônomo desregulado marcando o ritmo do meu iminente vexame.
— O que foi? — ele pergunta, com uma tranquilidade que beira a ofensa.
Respiro fundo. Uma vez. Duas. O ar parece feito de chumbo.
— Eu gosto de você.
O silêncio que se segue é denso o suficiente para ser cortado com uma faca de pão. O sorriso dele não desaparece de imediato; ele apenas se transforma. Primeiro fica automático, depois incrédulo, como se eu tivesse acabado de dizer que pretendo me mudar para Marte.
—Se que gosta.
—Com homem.
—Como é?
— Eu gosto de você — repito, as palavras saindo em disparada, atropelando umas às outras antes que a minha sanidade recupere o controle. — Não como amiga. Não como "sobrinha". Eu gosto de você de verdade. Do jeito que um homem e uma mulher gostam um do outro.
Ele solta uma risada curta. Surpresa. Depois outra, mais aberta, que me faz querer que a piscina se abra e me engula.







