Mundo de ficçãoIniciar sessão— Heloísa... — Ele passa a mão no rosto, o gesto clássico de quem está tentando processar uma informação absurda vinda de uma criança. — Isso é brincadeira, não é? Alguma aposta com as suas amigas?
— Não — respondo, sentindo meu rosto queimar em um tom de vermelho que nenhum blush conseguiria imitar. — Não é brincadeira.
Ele me olha como se eu tivesse quebrado a lei da gravidade. Ou, pior, como se eu tivesse acabado de fazer uma cena em um restaurante chique.
— Você tem quantos anos mesmo? — ele pergunta, ainda com aquele risinho condescendente que me dá vontade de gritar. — Vinte?
— Vinte.
— Meu Deus... — Ele balança a cabeça, e o brilho de diversão nos olhos dele é a coisa mais dolorosa que já vi. — Você é praticamente uma criança, Helô.
Aquilo dói mais do que um "não". Dói porque é um descarte completo da minha existência como mulher.
— Criança? Eu não sou criança, Heitor. Eu sei exatamente o que eu quero.
— É sim — ele diz, agora com aquele tom de voz que se usa para acalmar um Golden retriver agitado. — E isso que você está sentindo é apenas confusão. Admiração projetada. Uma paixão passageira que você vai esquecer na próxima festa da faculdade.
— Não é — insisto, a voz começando a tremer. — Eu sei o que eu sinto.
Ele suspira e dá um passo à frente. A mão dele pousa no meu ombro — um toque firme, protetor, e totalmente desprovido do desejo que eu tanto ansiava.
— Escuta... isso é um absurdo, e você sabe disso. Você vai rir dessa conversa daqui a alguns anos, juro. Eu sou o melhor amigo do seu pai. Eu vi você de aparelho nos dentes. Eu te vi crescer.
Crescer. A palavra maldita que me mantinha presa em um berço imaginário.
— Você nunca pensou em mim assim? Nem por um segundo? — pergunto, a voz falhando miseravelmente.
Ele hesita. É um milésimo de segundo. Uma fração de tempo tão pequena que qualquer outra pessoa teria perdido, mas eu estava caçando sinais como um náufrago caça o horizonte. Os olhos dele escurecem, o sorriso vacila. Grande demais para eu esquecer.
— Não — ele responde, seco demais. Rápido demais.
Mas o corpo dele o trai. Ele não retira a mão do meu ombro imediatamente. O olhar dele desce para a minha boca e volta para os meus olhos, ficando ali um tempo que não é condizente com uma negação. O ar entre nós fica pesado, carregado de algo que nós dois reconhecemos, mas que só eu tenho a coragem de nomear. Ele escolhe a negação. É o caminho mais seguro, afinal.
— Isso não vai acontecer — ele conclui, recuperando a máscara de frieza. — E é melhor você esquecer essa ideia. Pelo bem da nossa amizade e da minha relação com o seu pai.
Ele se afasta primeiro, sem olhar para trás. Volta para a roda de conversa, aceita uma bebida e volta a rir, como se tivesse acabado de resolver um pequeno mal-entendido sobre o horário do jantar.
E eu fico ali. Sozinha na beira da piscina, sentindo-me ridícula, minúscula e profundamente envergonhada por ter exposto o meu coração para alguém que o tratou como uma curiosidade infantil.







