Mundo de ficçãoIniciar sessãoO cansaço da viagem me alcança de repente, uma mistura de jet lag emocional e a adrenalina do reencontro. Deito-me por alguns minutos, só para fechar os olhos. Quando acordo, a luz já mudou, o dourado do entardecer dando lugar a um azul profundo. A casa está silenciosa demais para uma tarde inteira.
Sinto o calor de Búzios pedindo um banho urgente. No banheiro, deixo a água morna relaxar meus ombros. Saio do box e paro diante do espelho, limpando o vapor com a mão. O que vejo é o que me tornei: uma mulher que não pede licença. Meus olhos verdes, profundos, me encaram com uma firmeza nova. O cabelo castanho, com reflexos dourados que o sol do Rio insistiu em marcar, cai em ondas selvagens, meio rebeldes, meio indomáveis. Eu pareço uma gata selvagem que acabou de despertar, e gosto dessa imagem. Não é para ninguém. É apenas quem eu sou agora.
Abro a mala e pego a primeira coisa prática que encontro para enfrentar o mormaço: um shorts jeans curto, desfiado, daqueles que já se moldaram ao meu corpo pelo uso, e uma regata branca básica. É minha "farda" de ficar em casa, confortável e sem pretensões. Prendo o cabelo num coque frouxo, deixando algumas mechas caírem no rosto, e desço descalça, sentindo a madeira fria sob os pés.
Heitor está na cozinha, encostado na bancada, mexendo no celular. Ele trocou a camisa de linho por uma polo escura, as mangas curtas revelando antebraços fortes. Ele parece ter decidido ficar ocupando o espaço com aquela segurança que sempre me irritou.
— Ainda aqui? — pergunto, sem disfarçar a surpresa, enquanto vou direto para o filtro de água.
Ele ergue o olhar e, por um instante, o tempo parece sofrer um solavanco. Vejo os olhos dele percorrerem meu rosto e descerem, quase por instinto, pelas minhas pernas expostas. A mandíbula dele trabalha. Ele parece subitamente sem ar, como se a minha naturalidade fosse mais agressiva do que qualquer produção planejada. O choque dele é visível, mas eu não dou importância. Não me vesti para ele; vesti-me para mim, e se isso o desestabiliza, o problema é dele.
— Seu pai estar para chegar e quer conversar comigo. — Ele diz, a voz saindo mais rouca, quase um sussurro.
Assinto, bebendo a água devagar. Sinto o olhar dele me acompanhando, pesado, carregado de algo que ele tenta desesperadamente sufocar. O silêncio entre nós não é vazio. É cheio de palavras que nunca foram ditas e de uma tensão sexual que agora, com a minha indiferença, parece apenas aumentar.
— Quer comer alguma coisa? — ele pergunta. — Posso pedir algo.
Viro-me para ele, apoiando o quadril na bancada de forma relaxada.
— E a Jussara? — pergunto. A curiosidade vem simples, automática.
— Ela não trabalha mais aqui — responde, guardando o celular, mas sem conseguir desviar o olhar de mim. — Sua mãe a dispensou. Ela só vem para a faxina semanal.
— Ah… — assinto. — Vou ver se mamãe deixou algo na geladeira.
Caminho até o micro-ondas com a tranquilidade de quem está na própria casa. Abro a geladeira e encontro tudo organizado.
— Tem jantar — aviso, sem olhar para ele. — Só esquentar.
Coloco o recipiente no micro-ondas. Pelo reflexo do vidro, vejo Heitor. Ele não se moveu. Continua lá, braços cruzados, o olhar fixo em cada movimento meu. Sinto na pele a atenção dele. Não é o que eu faço, é como eu existo agora que parece incomodá-lo. O shorts curto, a regata simples, o cabelo bagunçado... para ele, parece um convite; para mim, é apenas o meu conforto.
— Posso ajudar? — ele pergunta, a voz baixa.
— Já está tudo pronto — respondo, sem virar. — Só precisa esperar.
O micro-ondas apita. Sirvo a comida com calma, consciente do espaço que ele ocupa logo atrás de mim. O cheiro dele me atinge, mas eu sustento a minha posição. Coloco os pratos na mesa e sentamo-nos.
O silêncio é quebrado pelo som do mar, mas a eletricidade entre nós é quase audível. Heitor me encara, tentando resolver um quebra-cabeça que ele mesmo bagunçou anos atrás.
— O Rio te fez muito bem — ele diz, de repente.
— Fez — respondo, curta, focada na minha comida.
Ele solta um riso seco.
— Está mais firme, mais madura.
— O tempo se encarrega disso.
Ele trava. A mão sobe até os cabelos negros levemente grisalhos nas laterais. Ele parece incomodado com a minha nova versão direta, sem filtros.
— É — ele murmura. — Eu percebi. Você não está mais "pisando em ovos".
— O chão daqui é firme o suficiente — digo, olhando bem no fundo dos olhos azuis dele. — Eu é que não sabia onde pisar.
Heitor sustenta o olhar, mas há uma tensão nele que não existia antes. Ele está perdido no próprio jogo de controle, e eu, simplesmente sendo eu mesma, estou vencendo sem nem precisar jogar. Quando o carro dos meus pais entra na garagem, ele se empertiga, voltando a ser o Heitor que o mundo conhece. A postura relaxada e confusa some, dando lugar ao Heitor Valente que o mundo conhece. Mas o jeito que ele me olha uma última vez antes de se levantar diz tudo.
Mas o jeito que ele me olha uma última vez antes de se levantar diz que a "Pequena Heloísa" morreu, e ele não faz ideia de como lidar com a mulher que nasceu no lugar dela.
O som do portão eletrônico se abrindo ecoa pela casa como um aviso. Heitor se afasta da mesa imediatamente, como se o corpo soubesse antes da mente que precisa se recompor. Ele endireita a postura, passa a mão pela camisa, assume o papel conhecido.
Eu continuo sentada por um segundo a mais. Não por provocação. Por ancoragem.







