Mundo de ficçãoIniciar sessãoE deixo que ele decida sozinho se isso é aviso ou constatação. Ele sorri de canto. Aquele sorriso que sempre guardou coisas demais, mas que agora, emoldurado pelos fios grisalhos, parece ainda mais devastador.
— Para mim… — ele começa — você sempre foi a Pequena Heloísa. Minha pimentinha.
A palavra cai entre nós como um estalo seco. Pequena. O apelido que ele me deu quando eu tinha quinze anos e achava que amar alguém em silêncio era o máximo que eu podia oferecer. O apelido que sobreviveu à minha ausência e que ele insiste em usar como uma coleira invisível.
— Não me chame assim — digo.
Não elevo a voz. Não sorrio. Sustento o olhar azul que agora parece buscar uma saída. Ele arqueia a sobrancelha, surpreso. É mínimo, mas eu vejo. Sempre vi quando se trata dele.
— Você nunca se importou.
— Eu amadureci — respondo, sem desviar o olhar. — E não gosto mais. Especialmente de beijos na testa. Guarde-os para quem ainda precisa de colo.
O silêncio se estende entre nós. O mar parece mais alto, preenchendo o vazio das palavras que ele não sabe como dizer. Heitor muda o peso do corpo, visivelmente deslocado. Ele não está acostumado a ser confrontado por mim. Pela menina que cresceu sob os olhos dele. Pela filha do melhor amigo.
— Certo — ele diz, por fim. — Heloísa, então.
Ouvir meu nome completo na voz dele, agora mais profunda, percorre minha espinha com lentidão demais para ser ignorada. Meu corpo reconhece coisas que minha razão já decidiu não alimentar, mas a visão dele ali, mais homem do que nunca com esse toque grisalho, é um teste cruel para a minha sanidade.
— Meu pai está? — pergunto, buscando algo sólido onde me apoiar.
— Saiu cedo. Reunião no Rio. Volta amanhã.
— E minha mãe?
— Foi com ele.
— Por isso está aqui? Para me receber?
Ele assente, e parte de mim relaxa enquanto outra entra em alerta máximo. Sozinha com Heitor. Na casa que moldou metade do que eu sou. Com ele me olhando como se eu fosse um mistério que ele subestimou por tempo demais.
Ótimo começo.
— Você veio para ficar? — ele pergunta.
— Vim.
Simples. Definitivo. Ele me encara de novo, e percebo que ele não consegue evitar que os olhos desçam para a minha boca antes de voltarem para os meus. Há uma tensão nova aqui, algo que não existia sete anos atrás. Ele está me desejando, e ele odeia o fato de que eu percebi.
— Seu quarto continua o mesmo — ele diz. — Sua mãe faz questão.
Sorrio de leve, um sorriso que carrega todo o meu humor ácido.
— Infantil, eu sei. Para eles, eu não cresci. — Faço uma pausa curta, deixando meus olhos percorrerem as têmporas grisalhas dele antes de voltar ao azul intenso. — Acho que nem para você.
Passo por ele, puxando a mala. O espaço entre nós é mínimo, e o ar parece ficar mais rarefeito. Quando nossos braços se tocam — rápido demais para ser acidente, longo demais para ser inocente — o choque é imediato. Uma descarga elétrica que percorre meu braço e se instala no centro do meu peito.
Ele prende a respiração. Eu também. O cheiro dele me envolve. Mar. Madeira. Algo que sempre foi Heitor, mas agora com uma nota mais madura, mais masculina. Meu corpo reage, quente, atento, consciente. Não é nostalgia. É desejo adulto. Controlado. Mas real. E, pelo jeito que ele se afasta rápido demais, ele sentiu exatamente a mesma coisa.
— Desculpa — ele murmura. Subo as escadas com o coração fora do ritmo, sentindo o peso do olhar dele nas minhas costas. O mesmo quarto. A mesma vista absurda do mar. Mas eu não sou a mesma. E ele, definitivamente, ficou ainda mais perigoso com o tempo. Deixo a mala na cama, tiro os sapatos e me aproximo da janela. O sol começa a descer devagar, tingindo tudo de laranja e dourado. Lá embaixo, Heitor anda de um lado para o outro na varanda, passa a mão pelos cabelos grisalhos, para, olha o mar, anda de novo. Inquieto. Um sorriso lento se forma nos meus lábios enquanto o observo. Ele sente. Sempre sentiu. A diferença é que agora eu não preciso mais disso para existir. Mas vê-lo assim, desestabilizado pela minha presença, é o melhor presente de boas-vindas que Búzios poderia me dar.






