Capítulo 4

No carro de Mark que ele havia deixado no aeroporto, com o ar-condicionado frio demais, o cheiro de couro novo e uma rádio de surf tocando bandas de rock alternativo, Luna observava pela janela enquanto o mundo mudava diante de seus olhos.

A paisagem transitava de avenidas e prédios para ruas pequenas e casas baixas, de shoppings para pequenas lojas de surf, de trânsito intenso para ruas mais tranquilas, com pessoas andando de bicicleta, carregando pranchas debaixo do braço, chinelos nos pés. Tudo parecia mais leve, e de alguma forma a lembrava de casa. A costa se anunciava em placas de praias, e, vez ou outra, o mar surgia entre as casas e colinas, azul e imenso.

Mark, no banco do motorista, apontava com entusiasmo:

— Aquela é Dana Point… ali começa San Clemente. A casa da equipe fica bem perto daqui. E aquelas praias ali embaixo? Trestles, Lowers, Bundies… você vai ouvir esses nomes todos os dias.

Luna apenas observava, absorvendo tudo em silêncio. Ainda não sabia exatamente em qual curva ficava a casa, nem como seria viver com pessoas que nunca tinha visto. Mas em poucos minutos, aquele lugar se tornaria seu novo lar.

O carro entrou em uma rua arborizada, cercada por casas grandes, de paredes claras e janelas amplas voltadas para o mar. Um portão de madeira se abriu, dando acesso a uma área de estacionamento onde bicicletas se acumulavam, pranchas descansavam encostadas nas paredes e uma van da equipe ocupava um dos espaços.

— Chegamos — anunciou Mark, estacionando. — Bem-vinda à Surf House.

Assim que Luna saiu do carro, o ar salgado entrou direto em seus pulmões. O cheiro era familiar — sal, areia, maresia — mas o significado era outro. Aquilo não era mais só refúgio. Era trabalho. Carreira. Futuro.

A casa era enorme, com dois andares, com uma varanda ampla, redes espalhadas, cadeiras de praia, uma longa mesa de madeira. Na lateral, uma área externa com churrasqueira, um espaço de convivência, um fogo de chão cercado por troncos improvisados como assentos. Tudo tinha identidade praiana: cores claras, almofadas vibrantes, toalhas penduradas, pranchas antigas decorando as paredes.

A porta da frente estava aberta, deixando a brisa circular livremente.

Quando entraram, Luna diminuiu o passo, segurando a mala com as duas mãos, como se aquilo pudesse protegê-la.

A sala de estar era ampla, com pé-direito alto e enormes portas de vidro voltadas para o mar. Havia assentos espalhados para todos os lados, notebooks abertos, pranchas recém enceradas espalhadas pelo chão. Algumas pessoas conversavam baixo no sofá, outras riam alto.

E, sentado um pouco afastado, perto da porta de vidro, havia um garoto com um violão. Estava sentado em um banco alto, uma perna apoiada no apoio, a outra solta, o violão descansando contra o corpo. Os dedos se moviam distraídos pelas cordas, dedilhando uma melodia baixa, quase íntima, algo que parecia existir apenas para preencher o silêncio da casa.

Ele não percebeu Luna de imediato.

Quando Mark pigarreou anunciando sua chegada, a música cessou.

— Pessoal, obrigado por ficarem aqui esperando. Eu lhes apresento a sua mais nova companheira de equipe! Esta é a Luna. Luna estes são Tyler, John, Peter, Kira, Jordan e Meg. – Ele dizia apontando para cada um na sala. - E este ali atrás é o Ethan.

Ethan levantou os olhos. E sua mente travou. Ele simplesmente a encarou.

Luna estava parada na entrada, mala na mão, uma mochila pendurada em um dos ombros, short jeans, camiseta simples colada no corpo pelo calor da viagem, cabelo loiro preso num rabo de cavalo frouxo que deixava mechas soltas emoldurando o rosto. Alta, pernas longas, ombros fortes. Curvas nos lugares certos. A pele bronzeada brilhava sob a luz da tarde, olhos verdes que pareciam carregar o mar inteiro, lábios em formato de coração num sorriso tímido. Ela era linda, mas não do tipo frágil; era o tipo que te derruba numa onda e te salva na próxima.

Ele piscou, tentando disfarçar, mas já era tarde. Os olhos dele estavam grudados nela, traçando o contorno do braço definido, a linha do pescoço, o jeito como ela segurava a mala como se fosse um escudo.

Luna o encarou de volta.

Ele era alto, pele queimada pelo sol e cabelos castanhos claros que pareciam estar sempre despenteados, como se ele passasse as mãos por eles o tempo todo — e provavelmente era isso mesmo. Mechas mais claras, clareadas pelo sol, refletiam a luz quando esta incidia sobre sua cabeça de lado.

Mas foram os olhos dele que chamaram sua atenção — olhos gentis, atentos, de um tom quente que a fazia lembrar mel avermelhado, quase âmbar. Olhos que não invadiam. Eles simplesmente observavam.

Ethan piscou, como se estivesse se lembrando de como se respirava.

— Oi… — disse alguém, quebrando o silêncio.

Foi Jordan a primeira a se levantar.

Morena, cabelos curtos, sorriso fácil, ela veio em passos rápidos, já com os braços abertos.

— Bem-vinda, Luna! — falou com entusiasmo, abraçando-a. — A gente já viu alguns vídeos seus. Você é incrível! Eu vou ser sua companheira de quarto.

Luna sorriu, um pouco tímida.

— Obrigada. Legal.

Enquanto isso, Ethan finalmente se levantou, com o violão pendurado no ombro.

— Eu sou o Ethan — disse, aproximando-se. — Seja bem-vinda.

No movimento de dar um passo à frente, a alça do violão se enroscou no encosto do banco.

O violão o puxou de volta.

Ethan tropeçou.

— Merda… — murmurou baixo, tentando soltar a alça sem derrubar tudo no chão.

Tyler riu alto. John deu uma cotovelada em Peter. Kira ergueu uma sobrancelha, com um olhar de desgosto.

Jordan mordeu o lábio para não gargalhar.

Quando ele finalmente conseguiu se desgrudar, o rosto já estava completamente vermelho.

— Desculpa — disse, coçando a nuca, visivelmente constrangido. — O violão aparentemente não gosta muito de boas primeiras impressões.

Ela piscou, surpresa, e então riu. Um riso leve, genuíno, que fez o estômago dele dar um nó. Os olhos verdes dela brilharam, os lábios se curvaram de um jeito que o deixou ainda mais perdido.

— Sem problemas — respondeu. — Ele só estava querendo se apresentar primeiro.

Ethan sorriu, ainda sem saber direito onde colocar as mãos.

Por alguma razão que Luna não sabia explicar, ela teve a sensação de que estava diante de sérios problemas.

Foi então que Luna percebeu o olhar de Kira sobre ela.

Sentada no sofá, pernas cruzadas, cabelo pretos longos presos em um coque displicente, ela observava tudo com as sobrancelhas levemente levantadas com ar de tédio. O sorriso de Jordan e a falta de jeito de Ethan, claramente a incomodavam. O olhar de Kira passou rapidamente de Luna para Mark, como se perguntasse, sem palavras, se aquela nova ocupante realmente ficaria ali.

— Oi — murmurou Kira, sem muito entusiasmo.

— Oi — respondeu Luna, educada.

— A cozinha é ali, se quiser comer alguma coisa — disse Ethan, recuperando a compostura e apontando com o queixo. — Se você quiser, depois eu te mostro o quarto.

Os demais rapazes assobiaram alto e começaram a zoar.

— Calma Ethan! A menina mal chegou e você já quer levá-la pro quarto! – Tyler disse, rindo.

Ethan olhou para Tyler com um olhar de “Cala essa boca”.

— Garotos, garotos... Não a assustem! Pode deixar que eu te levo para conhecer a casa. — respondeu Jordan, dando um tapa amigável nas costas de Luna. — Vem. Café primeiro, decisões depois.

— Luna, vou deixar a Jordan te apresentar tudo. Seja bem vinda ao time, mais uma vez. Te mando depois atualizações do seu cronograma com os patrocinadores. — Se despediu e saiu pela porta da frente, deixando Luna com aquelas pessoas que claramente a analisavam de cima a baixo com curiosidade.

Luna seguiu Jordan, deixando sua mala perto da escada que levava ao andar de cima, o coração dividido entre o nervosismo de ser engolida por aquele novo mundo e a excitação de finalmente estar ali.

Antes de chegar à cozinha, ela lançou um olhar rápido para trás.

Ethan já estava de novo sentado, o violão apoiado na coxa. Mas agora os olhos dele estavam nela, curiosos.

Luna desviou o olhar imediatamente.

“Foco,” lembrou a si mesma. “Você veio por uma carreira. Nada pode te tirar disso.”

Mas a imagem daqueles olhos cor de mel, o sorriso embaraçado e rosto vermelho, ficaram com ela, mais do que ela gostaria.

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