Capítulo 6

A noite caiu rápido em San Clemente.

O céu ainda guardava um resquício de laranja no horizonte quando a área externa da Surf House começou a ganhar vida. A churrasqueira já estava acesa, e os rapazes se revezavam entre virar hambúrgueres, discutir o ponto ideal da carne e disputar quem tinha a melhor técnica — ainda que, claramente, nenhum deles fosse um chef ou soubesse realmente o que estava fazendo.

Tyler estava responsável pelas viradas dramáticas da carne, exagerando nos movimentos. John reclamava que tudo estava cru e ele estava morrendo de fome. Peter observava em silêncio, como se estivesse avaliando a cena inteira com um cronômetro invisível na cabeça.

A fogueira crepitava logo à frente, lançando luz quente sobre o quintal. Ao redor dela, as meninas estavam sentadas em troncos e cadeiras improvisadas, conversando, rindo, contando histórias de campeonatos, viagens e tombos ridículos no mar.

Luna se sentou entre Jordan e Meg, ainda se sentindo levemente deslocada, mas menos tensa do que horas antes. O cheiro do fogo, o som das ondas mais ao longe e as risadas ao redor criavam uma sensação estranha de pertencimento — como se aquele lugar estivesse, aos poucos, tentando acolhê-la.

— Relaxa — sussurrou Jordan em algum momento, percebendo o jeito tenso e atento de Luna. — Todo mundo fica meio travado no primeiro dia.

Luna sorriu de canto e assentiu.

O jantar foi simples, barulhento e inesperadamente leve. Hambúrgueres servidos em pratos de plástico, guardanapos insuficientes, dedos gordurentos e piadas internas que Luna ainda não entendia — mas ria mesmo assim, só pelo tom em que eram contadas.

Foi então que Ethan apareceu com o violão.

Ele se sentou em um tronco próximo ao fogo, apoiou o instrumento sobre a perna e começou a tocar sem anúncio algum. A melodia era simples, mas envolvente. Logo, conversas foram se calando aos poucos, como se a música ocupasse naturalmente o espaço.

Alguém começou a cantar. Depois outro. Risadas surgiram quando uma letra saia errada, quando alguém entrava fora do tempo ou desafinava.

Luna ficou observando, meio distante, abraçando os joelhos, sentindo o ritmo da música vibrar no peito.

Ethan tocava com facilidade, mas não com exibicionismo. Era como se aquilo fosse tão natural quanto respirar. De tempos em tempos, Luna percebia — mesmo sem olhar diretamente — que ele a encarava. Um segundo a mais. Um sorriso leve. Um olhar rápido e de volta para o violão.

Ela desviava. Não porque não quisesse olhar, mas porque não queria pensar sobre o que aquilo significava, ou onde poderia levar.

Em algum momento, sua garrafa de água ficou vazia.

— Vou pegar água — avisou à Jordan, que estava envolvida em outra conversa.

O cooler ficava um pouco mais afastado, perto da lateral da casa. O barulho da pequena festa diminuía à medida que ela se afastava.

Ao abrir a tampa, o vapor gelado subiu, e ela se abaixou para pegar uma garrafa.

Foi aí que percebeu que não estava sozinha.

— Melhor não se iludir.

A voz veio seca, firme.

Luna se virou devagar.

Kira estava parada ali, braços cruzados, o rosto parcialmente iluminado pela luz da casa. O sorriso não chegava aos olhos.

— Oi? — perguntou Luna, mantendo a voz calma.

— O Ethan. — Kira deu um passo à frente. — Ele é meu. Sempre foi. E vai continuar sendo.

Luna sentiu o peito apertar, mas manteve a expressão neutra.

— Eu não...

— Não importa — interrompeu Kira. — Ethan e eu temos um lance. Eu sou a melhor surfista dessa casa. Esse lugar é meu. E ninguém chega do nada achando que vai tomar meu espaço.

Ela se aproximou ainda mais.

— Muito menos você.

Luna segurou a garrafa com mais força. O silêncio entre elas parecia pesado.

— Eu vim aqui para construir a minha própria carreira, não para roubar o lugar de ninguém — respondeu, por fim. — Só isso.

Kira riu sem humor.

— Todo mundo diz isso no começo. Fica na sua.

Com isso, virou-se e foi embora, deixando Luna sozinha, com a água gelada na mão e o coração mais acelerado do que gostaria de admitir.

Não era medo.

Era irritação.

Sem voltar para a fogueira, Luna pegou um livro que estava em sua mochila deixada na sala, e seguiu diretamente para uma rede que ficava no meio das árvores, mais afastado da casa.  Ela tirou os chinelos, se deitou, e tentou se concentrar nas palavras.

Mas sua mente voltava, insistente.

A música.

O olhar de Ethan.

As ameaças de Kira.

Depois de um tempo a música já tinha parado e não se ouviam mais vozes vindas da fogueira, a rede se moveu levemente.

— O que você está lendo? — perguntou uma voz baixa.

Luna fechou o livro sem levantar o olhar.

— Nada que você precise saber.

Ethan pareceu surpreso, mas tentou sorrir.

— Uau. Direta.

Ela finalmente o encarou.

— Olha, em não quero confusão. Eu vim aqui para treinar e desenvolver minha carreira. Não estou aqui para arrumar namorado ou arrumar briga com meninas raivosas.

— Ok. Mas de onde veio tudo isto?

— Só faltou a Kira fazer xixi em você como se fosse uma árvore sendo demarcada.

Ele piscou. Fez-se silêncio. E então ele começou a gargalhar.

— Obrigado. Agora eu nunca mais vou conseguir apagar essa imagem perturbadora da cabeça.

Luna suspirou, levando a mão ao rosto.

— Desculpa. Não fui justa com você. — Fez uma pausa. — Eu estou cansada. Foi um dia longo, e amanhã começam os treinos. Eu só preciso dormir. Não quero me atrasar no meu primeiro dia.

Ethan assentiu, compreensivo.

— Claro. Eu entendo.

Ela se levantou, pegando seu livro e calçando os chinelos.

— Boa noite, Ethan.

— Boa noite, Luna.

Ela foi até a casa e entrou pelas portas dos fundos sem olhar para trás.

Ethan ficou ali, parado, olhando na direção da casa. Teria que conversar com Kira.

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