Mundo de ficçãoIniciar sessãoLuna estava em seu quarto, observando cada detalhe com um sentimentalismo incomum para ela. Nunca fora do tipo nostálgico, mas aquela manhã parecia diferente.
O quarto era pequeno, porém organizado. As paredes brancas estavam cobertas de pôsteres de bandas favoritas, praias distantes que ela sonhava em conhecer e surfistas que admirava desde criança. Cada imagem parecia contar uma parte de quem ela era — ou de quem ainda queria se tornar.
Revistas de surf estavam empilhadas de forma desordenada sobre a escrivaninha. Foi ali que Luna se sentou, pegando uma foto antiga de sua mãe. Seus dedos passaram pela imagem com cuidado, como se pudesse senti‑la além do papel.
Ela amava aquela foto. Alice, mais jovem, sorria despreocupada, os cabelos bagunçados pelo vento, abraçada à prancha enquanto corria em direção ao mar. Havia liberdade naquele sorriso. A foto só não era perfeita porque Luna sabia quem estava por trás da câmera, e isto a lembrava do que sua mãe tinha perdido.
Esse pensamento trouxe à tona a história que sempre pairou como uma sombra sobre sua família.
Alice havia vindo do Brasil para os Estados Unidos aos dezoito anos. Seus pais morreram em um acidente de carro, e a avó — que a criara desde os doze — falecera alguns anos depois. Sozinha e sem raízes, Alice acreditou quando Jack lhe prometeu um recomeço, um futuro.
Jack era agente esportivo e estava no Brasil à procura de novos talentos quando a viu pela primeira vez. Prometeu o mundo: melhores oportunidades, patrocinadores, treinadores, uma carreira promissora. Alice, sem nada a perder, aceitou.
No começo, tudo parecia um sonho. Alice se apaixonou perdidamente por ele, se casaram, e Jack realmente parecia empenhado em impulsionar a carreira dela. Mas algumas mudanças são lentas, quase imperceptíveis.
Depois do nascimento de Luna, Jack mudou. Passou a dizer que Alice só se importava com a filha, que não lhe dava mais atenção, que havia se descuidado, que não se dedicava mais ao surf. Alimentado por um ciúme doentio, começou a sabotar seus contratos, sempre colocando a culpa nela por suas próprias falhas.
No início, Alice confundiu controle com cuidado. Confundiu ciúme com amor.
Jack foi aos poucos destruíndo sua autoestima, todos os dias, até Alice acreditar que não era nada sem ele, que não era boa o bastante. Que ninguém jamais a amaria de verdade. Que não conseguiria sobreviver sozinha.
Quando Luna tinha quatro anos, Alice engravidou novamente. Com o nascimento de Noah, a situação piorou. Jack começou a beber. Perdeu contratos de outros clientes. E a casa tornou‑se um lugar imprevisível, um campo minado, onde qualquer palavra podia ser o estopim de uma explosão.
Alice tentou trabalhar para ajudar a pagar as contas, mas Jack, dominado pelo ciúme, fazia com que ela perdesse todos os empregos que conseguia. E, então, o abuso verbal tornou‑se físico.
Certa vez, Jack a agrediu de forma tão violenta que Alice precisou ser hospitalizada. Luna viu tudo. E aquela memória nunca a abandonou.
A partir daquele dia, Alice começou a esconder dinheiro e planejar sua fuga. Apesar de achar que amava Jack, ela amava mais os seus filhos, e não podia mais expô-los àquele tipo de violência.
Numa noite, quando Luna tinha oito anos, Jack chegou em casa tão bêbado que não conseguiu sequer ir para o quarto. Alice não pensou duas vezes. Pegou as malas que mantinha prontas e escondidas, acordou as crianças e foi embora — sem olhar para trás.
Desde então, nunca ficavam muito tempo no mesmo lugar. Mas havia algo do qual Alice jamais abria mão: o mar. Era ali que ela se sentia viva.
Sua mãe trabalhava em dois, às vezes três empregos, e Luna muitas vezes ficava com seu irmão mais novo sozinha.
Luna precisou crescer antes do esperado, precisou ser responsável, precisou não ser mais um problema para sua mãe resolver. Alice tinha que insistir para que Luna se divertisse um pouco. Sabia das feridas que suas escolhas causaram na filha, mas fazia de tudo para eles fossem felizes.
Até que chegaram ao Havaí.
Esse foi o lugar que Luna passou a chamar de lar, e se soltar. Havia um senso de comunidade tão forte neste lugar, quase palpável. As pessoas se ajudavam, se protegiam, acolhiam. Foi ali que Alice, pela primeira vez, sentiu confiança suficiente para contar sua história.
Pessoas que mal a conheciam prometeram protegê‑la e a seus filhos. Pela primeira vez desde que deixara o Brasil, Alice sentiu que pertencia a algum lugar.
Ela passou a trabalhar em uma loja de surf e a dar aulas para crianças locais e turistas. Luna e Noah aprenderam a nadar antes mesmo de falar. E assim que conseguiram ficar em pé, Alice já os colocava sobre a prancha.
Noah também amava o mar. Mas Luna… Luna era diferente. Ela corria para o oceano sempre que podia. Vivendo, respirando surf. Aprendeu tudo com a mãe — e logo começou a se destacar. Mas nunca teve coragem de sair do Havaí.
Foi em uma competição juvenil local que um olheiro surgiu com uma proposta impossível de ignorar.
Luna teria que se mudar para Orange County. Uma casa oferecida pelo patrocinador. Treinadores, nutricionistas, preparadores físicos, fisioterapeutas, psicólogos, equipe de marketing para gerenciar campanhas e redes sociais. Estrutura completa. Salário. Patrocínios. Um sonho moldado em contrato.
Alice revisou cada detalhe. Era uma proposta séria. Uma chance real.
Ainda assim, Luna nunca tivera sequer redes sociais. Sempre teve medo de que seu pai os achasse na internet. Tinha medo de confiar. Medo de que algo tão bom escondesse uma armadilha.
Luna afastou agora o olhar da foto, olhou para sua mala ainda por fazer, e respirou fundo.
— Okay, Luna, você consegue — sussurrou para o próprio reflexo no espelho. — É a sua chance, a sua vida, a sua carreira. Você não pode deixar isso passar. O que aconteceu com mamãe não vai acontecer com você. Você não vai deixar isto acontecer. Ninguém vai te passar para trás. Nenhum homem nunca vai te desviar do seu caminho e dos seus sonhos.







