Mundo ficciónIniciar sesiónA manhã parecia comum aos olhos de qualquer pessoa — mas no meu corpo, nada estava normal. Era como se a última sessão tivesse aberto algo dentro de mim que eu ainda não sabia nomear. Não era medo. Não era só fascínio. Era… atenção. Um estado desperto, quase instintivo.
Antes mesmo de sair de casa, revisei mentalmente a última interação com Dante. Não havia regras novas. Nenhuma orientação. Nenhum próximo passo concreto. A única coisa que ele havia deixado era a sensação de que eu não estava mais sendo treinada — estava sendo observada. E essa percepção mudou tudo. Vesti-me sem pressa, mas com intenção: blazer preto estruturado, blusa de seda leve, calça impecável e salto firme. Não para impressioná-lo — mas porque eu queria lembrar a mim mesma de quem eu era antes daquele jogo começar. No caminho até a empresa, o coração batia num ritmo que não combinava com a minha expressão controlada. O elevador subiu devagar demais — e quando a porta abriu no décimo oitavo andar, algo estava diferente. A sala estava iluminada apenas por luz natural. Não havia envelopes. Não havia papéis. Não havia qualquer instrução à vista. Apenas Dante. De pé, junto à janela, mãos nos bolsos, olhar distante — como se estivesse estudando a cidade inteira antes de me notar. Quando seus olhos finalmente encontraram os meus, a sensação foi a mesma de alguém fechando um círculo ao meu redor. — Bom dia, Isabela — disse ele, sem mover um músculo além da boca. — Chegou no horário. Isso diz algo. — Diz o quê? — respondi, tentando manter o tom neutro. Ele se afastou da janela e caminhou devagar em minha direção — não para estar perto, mas para estabelecer presença. — Diz que você não está aqui por obrigação — disse, com calma. — Está aqui porque escolheu continuar. O comentário atravessou minhas defesas antes de eu decidir se reagiria. Ele fez um gesto indicando uma cadeira. — Hoje não haverá tarefas formais — disse enquanto se sentava. — Não quero observar como você executa instruções. Quero observar como pensa. Sentei-me, mantendo a postura. Ele cruzou uma perna sobre a outra, tranquilo demais. — Vamos começar com uma pergunta simples — disse. — Por que você voltou? O silêncio não era vazio — era calculado. Esperado. Quase uma corda estendida entre nós. Eu poderia responder o correto, o profissional, o aceitável. Mas Dante não queria isso. Então respondi a verdade que eu mesma só havia percebido quando entrei naquela sala: — Porque a última vez não terminou — respondi. O olhar dele mudou — sutil, mas real. — Hm. — Ele inclinou a cabeça. — Uma resposta honesta. Rara. Respirei. Ele continuou. — Segunda pergunta. — A voz dele ficou mais baixa. — O que é controle para você? Minha mente buscou respostas lógicas, técnicas — mas ele ergueu uma sobrancelha. Ele queria outra coisa. — Controle é… quando eu decido antes da situação decidir por mim. Um sorriso mínimo — quase imperceptível — surgiu no canto de sua boca. — Excelente. Ele se levantou — e o clima mudou. — Agora quero observar outra coisa — disse, caminhando lentamente até parar atrás de mim. — Sua reação quando não tem preparo, roteiro ou defesa. Meu corpo entrou em alerta — não por medo, mas por antecipação. Ele falou baixo, próximo o suficiente para que cada palavra fosse sentida. — Feche os olhos. Eu hesitei por meio segundo — e ouvi: — Hesitar revela medo. Executar revela poder. Então fechei. No escuro, tudo ampliou: minha respiração, a distância exata entre nós, o ritmo dos meus batimentos. Ele não tocou — mas falou como se tocasse. — Se eu disser “pare”, você para? Eu engoli em seco. — Depende — respondi. — Depende de quê? — Do motivo. Outro silêncio carregado. — Boa resposta. Agora outra pergunta: Seu tom ficou mais lento, mais profundo. — O que te assusta mais: perder o controle ou descobrir que nunca realmente teve? Meu estômago se contraiu. Eu sabia a resposta antes de formulá-la. — Descobrir que nunca tive. Por um instante, algo quase imperceptível aconteceu — como se o ar na sala tivesse mudado de temperatura. — Abra os olhos — disse ele. Eu abri. Dante estava à minha frente — não distante, não invasivo — apenas presente. Intenso o suficiente para me lembrar que tudo ali tinha consequência. — Hoje — disse ele devagar — você ultrapassou uma linha que muitos não chegam perto. Não porque obedeceu. Mas porque respondeu sem se esconder. Ele deu um passo atrás. — Isso muda a forma como seguimos a partir de agora. Eu mantive o olhar. — E como seguimos? Ele se aproximou só o suficiente para que eu sentisse — não o calor do corpo dele — mas o controle. — Amanhã — disse, com a voz baixa e decisiva — você não virá para testes. Fez uma pausa mínima. — Virá para ser testada. Meu corpo reagiu antes do pensamento. Medo. Desejo. Curiosidade. Tudo misturado. Ele percebeu. — Pode ir — disse, voltando ao tom neutro. — A sessão de hoje terminou. Levantei-me, e antes de sair, ouvi sua última frase — calma, mas carregada de intenção: — Não volte se vier com dúvidas. Eu não respondi. Mas dentro de mim, algo já tinha respondido. E enquanto saía daquela sala, entendi exatamente: Aquilo não era mais treinamento. Era o começo do jogo que mudaria tudo.






