Mundo de ficçãoIniciar sessãoLívia
Abro a Essenza como sempre, pontualmente às nove. Gosto do ritual de acordar cedo, tomar banho, preparar um café e aproveitar meu tempo antes de sair. Nunca entendi as pessoas que acordam quinze minutos antes de encarar o dia. Eu não consigo; tenho a sensação de estar desperdiçando algo.
Cinco quarteirões separam meu apartamento da loja. Percorro-os toda manhã sem pressa, sem correria, cumprimentando os vizinhos. Quatro em cada cinco dias piso em cocô de cachorro — nunca falha. Por isso, quando termino de levantar a persiana metálica, tiro os sapatos antes de entrar. Já me acostumei a ter sempre um par — às vezes dois — guardado no estúdio.
Tenho uma perfumaria. Uma perfumaria artesanal, e é uma coisa linda. Não porque eu diga, mas porque meus clientes a descrevem assim. Coloquei minha alma em cada detalhe: do beiral pendem frascos de formas e tamanhos diferentes. Adoro como a luz do sol se quebra neles, como se fossem lanternas acesas. Uma passiflora que plantei abrindo o chão da calçada trepa pela vitrine e se enrosca nas vigas do beiral. Ela dá uma flor rara, mas linda — branca e roxa; parece um disco voador ou um mandala vivo.
A Renata me deu a placa dourada que fica pendurada na entrada como boas-vindas: "O lugar onde as lembranças se transformam em aromas".
Só poderia ser a Renata a me dar uma coisa dessas. Afinal, ela sabe melhor do que ninguém como eu cheguei até aqui.
A conheço desde que me entendo por gente. Literalmente: desde o jardim de infância. Tenho mais lembranças na casa dela do que na minha. Márcio e Dalva, os pais dela, me adotaram como se eu fosse mais uma filha. Além de colegas de escola, éramos vizinhas. Eles moravam no segundo andar e eu, com minha mãe, no quinto.
Não quero nem imaginar como teria sido minha vida sem eles. Com certeza um desastre que daria anos de terapia. A Renata e eu nos apoiamos em tudo. Somos daquelas amigas que comemoram até a menor das conquistas, e daquelas que ficam com vontade de matar quando um homem magoa a outra.
É o que acontece comigo em relação àquele infeliz com quem ela está saindo agora: um cara casado. Não porque ele seja casado — não julgo nem dou lição de moral sobre a vida de ninguém —, mas porque o idiota se comporta como namoradinho, sabendo ele, a Renata e todo mundo que nunca vai se separar nem se divorciar. E ela vai lá e se apaixona. E quando ele a deixa na mão, ela fica se sentindo culpada e se questionando.
— Eu sei que tô errada em me envolver com um homem que tem família — ela dizia toda vez que se sentia culpada ou chorava porque ele tinha cancelado em cima da hora.
— Sim, sim, você é uma vagabunda. Já falamos sobre isso. O errado é ele, que não respeita o que tem em casa — costumo responder.
— A mulher me ligou de novo pra me xingar. Me chamou de puta.
Quando inaugurei a loja, ele apareceu com um vaso de planta, me parabenizou e ficou por ali entre as prateleiras, olhando tudo. O vaso eu dei de presente pra minha vizinha de cima. Eu o odeio, simples assim, e tudo que tem a ver com ele me dá repulsa. Talvez eu esteja exagerando, mas a Renata merece algo melhor. Merece ser amada só por alguém, merece ser o centro do universo de alguém. Não a segunda opção de um quarentão que ainda se comporta como se tivesse vinte anos. Mas dizem que o amor é cego — e eu acho que ele também é burro.
Minha mãe foi embora pelo mesmo motivo: amor. É curioso, penso agora, como os aromas que crio para os outros quase sempre têm a ver com o amor ou com a falta dele. Quando fiz dezoito anos, ela se sentou comigo à mesa da cozinha e me disse que havia algum tempo estava se encontrando com um homem que, segundo ela, era bom. Nunca o conheci. No dia seguinte, ela foi embora.
Então, aos dezoito anos, fiquei completamente sozinha. Não pude continuar estudando. A ideia de fazer faculdade foi embora na mala da minha mãe. Tive que trabalhar. E o primeiro emprego que consegui foi numa loja de cosméticos, recomendando perfumes.
Nunca faltei ao trabalho, nem quando estava doente. Fiquei lá por dois anos.
Um dia, Jerônimo, o gerente, veio até mim e disse:
— Lívia, quero te apresentar a alguém. Ele se chama Rogelio e é um maître parfumeur — um mestre perfumista.
Devo ter feito uma cara de quem não estava entendendo nada, porque Jerônimo deu uma risadinha.
— Acho que você tem capacidade pra aprender com ele, pra aprender a fazer perfumes. E aqui, nesse negócio de cosméticos, você tá desperdiçando seu talento.
— Você vai me demitir?
— Demitir você? Tá louca. Você é minha melhor funcionária. Quero que você estude com o Rogelio. Ele já topou. O que você acha?
Isso era muito estranho, porque ele e eu nos trancávamos nos fundos da loja quase todo dia. Tínhamos uma relação estranha, não sei bem como descrever. Ele era muito mais velho do que eu; poderia ser meu pai.
Jerônimo se sentava numa cadeira e eu, na mesa. Eu abria as pernas e me masturbava enquanto ele me observava. Ele nem sequer se tocava, mas o olhar fixo dele nos meus dedos enquanto eu brincava comigo mesma me excitava.
Às vezes eu pedia para ele me tocar, me lamber, qualquer coisa. Ele ficava parado, imóvel, sem dizer nada. Eu queria senti-lo dentro de mim; dava para ver o volume nas calças dele e, só com os dedos, não era suficiente. Eu queria algo duro, quente, úmido. Mas não importava o quanto eu implorasse: ele nunca me deu.
A única coisa que ele fazia, quando eu gozava, era beijar minhas pernas. Acho que era a maneira dele de me agradecer pelo espetáculo.
Eu perguntava por quê. Por que ele não me comia em cima da mesa. Ele sempre respondia a mesma coisa:
— Você é nova demais pra mim.
Naquela época isso me frustrava. Agora eu entendo.
Quando ficava com muita vontade, saía da loja e, em vez de ir para o meu apartamento, passava na casa do meu namorado. Ele certamente desconfiava de alguma coisa, mas também não dizia nada. Eu jantava com ele e com os pais dele e, quando saía para ir para casa, ele me acompanhava.
A gente nunca chegava lá. Sempre acabávamos num beco atrás de uma farmácia. Parada, com o rosto contra a parede, a calcinha nos joelhos e ele me penetrando por trás. Voltava com o rosto sujo de poeira de tijolo e o corpo todo molhado, com os fluidos dele e os meus escorrendo pelas minhas coxas.







