LíviaA dona Velázquez era uma das minhas clientes habituais. Ela comprava perfumes para si, para a irmã, para dar de presente. Trazia as amigas — quase as arrastava —, mas elas também voltavam. Tinha uma fragrância favorita e, pelo jeito, tomava banho com ela, porque todo dia seis do mês entrava na loja e pedia mais.— Aquela velha é doida, o que ela vai fazer com tantos perfumes?— Ela me disse que é o aroma do marido falecido, Renata. Deve espalhar por tudo quanto é lugar.Eu guardava minha própria lembrança engarrafada, por isso a entendia e me esforçava para torná-la perfeita. A minha era a do meu pai — uma lembrança distante, e eu não podia garantir que fosse exatamente aquele o aroma certo. Mas gostava de pensar que sim.Não sabia bem como fazia, era algo natural, embora às vezes fosse mais difícil. Como na semana passada: entrou um homem meio estranho, que tinha vindo por indicação de outro cliente. Me disse que queria um perfume que trouxesse de volta a época em que havia viv
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