*4

Dário

Ela estava parada, o corpo tomado pela raiva e as mãos trêmulas, juntando suas coisas às pressas. Fiquei em silêncio e a observei da cabeça aos pés: cabelos castanhos, olhos castanhos; a boca que terminava num arco de cupido bem marcado e a linha do pescoço que se dissolvia nas clavículas. Não era uma beleza de capa de revista, mas, pra mim, ela era linda.

Ela com certeza me achou um pervertido.

Eu tinha esquecido completamente que a experiência incluía ela com seus perfumes. Estava tão envolvido com a reforma que deixei meu sócio cuidar do resto.

Não sei o que me deu ao entrar no Nostalgia, mas me virei automaticamente para o canto de onde vinha a discussão. Do hall, eu não precisava ouvir nada — o rosto de Lívia dizia tudo.

Vi a expressão desesperada do Felipe e como ele se aproximava quase correndo, e fui atrás.

— Você é amiga daquela vadia — ouvi ele dizer. Ela se virou com um pano na mão; estava limpando algo que havia caído sobre a mesa onde guardava seus perfumes.

A mulher do Felipe sempre teve um talento preciso para criar escândalos.

— Não sou amiga de nenhuma vadia — respondeu ela, cerrada.

Era só o que faltava. Bem no meio da inauguração, uma briga dessas.

— Ele te mandou vigiar meu marido?

— Estou trabalhando. Não seja ridícula.

— Eu te conheço pelas redes sociais dele, ele tem fotos com você. Você vive em função do Felipe, e agora ele ainda te arranja trabalho? Vocês não têm vergonha nenhuma.

— Vergonha é saber que ele te trai e ficar fingindo que não sabe de nada.

Bom, nisso ela tinha razão.

— Duas vadias!

Ela ficou vermelha, com certeza o rosto ardia de raiva. O Felipe chegou, e eu atrás.

— Que merda você tá fazendo, Rosária? — ele sussurrou no ouvido dela, tenso, contido. — Abaixa a voz.

— Você é um lixo. Não basta se jogar por aí, ainda tem que trazer a amiguinha junto.

Ela estava perto de chorar. Senti um pouco de pena.

— Fecha a boca. Vamos.

O Felipe a agarrou pelo braço e a arrastou para uma porta atrás da recepção.

Eu não me mexi. Fiquei olhando para ela. Acho que a deixei nervosa, desconfortável. As pessoas ao redor fingiam não ter ouvido nada, mas os murmúrios se espalhavam como rastilho de pólvora.

As mãos dela tremiam enquanto limpava a bagunça do óleo. Era isso que emanava: aquele cheiro de néroli que estava ficando insuportável. Me dava náusea.

O Felipe voltou sozinho depois de um tempo. Se aproximou com aquele sorriso falso que usava com todo mundo.

— Desculpe ela, não está passando por um bom momento — sussurrou, se inclinando sobre a mesa.

— Não me interessa por que momento ela está passando. Ela é louca, é problema seu, não meu.

— Eu sei, eu sei. A gente podia... podia não mencionar isso pra Renata?

Ela o encarou fixo. Fez com que ele se sentisse um idiota — dava pra ver no rosto dele.

— Sabe o quê? Guarda suas desculpas. Vou embora.

Ela começou a recolher suas coisas.

— Fala pro senhor Monteiro que sinto muito; se quiser, faço um perfume de graça pra compensar.

Quando ouvi isso, não sei o que me deu. Com qualquer outra pessoa, eu nem teria me dado ao trabalho. Não queria que ela fosse embora, e muito menos daquele jeito.

— O senhor Monteiro sou eu — disse, sem tirar os olhos dela. — E você não precisa se desculpar por nada. Por favor, não vai embora. Foi uma situação... infeliz, mas não foi culpa sua. Posso te convidar pra cozinha? Você toma alguma coisa, descansa um pouco.

Ela arregalou os olhos quando eu disse meu nome — não porque o sobrenome a impressionasse, mas porque estava envergonhada com a situação. Tecnicamente, ela estava trabalhando pra mim e queria ir embora antes de terminar. Depois percebi outra coisa. A gente, homem, percebe quando uma mulher olha de um jeito diferente.

Ela hesitou por um momento, mas concordou. Afinal, a noite não podia piorar mais.

— Por aqui — apontei para uma porta lateral.

O Felipe tinha sumido. A cozinha estava vazia e em silêncio. A equipe estava ocupada com o bufê no salão. Ela ficou parada enquanto eu abria a geladeira.

— O que você prefere beber? Tem vinho, um licor de café bem bom, água, refrigerante...

— Vinho tá bom.

Peguei uma garrafa e procurei duas taças.

— Você se importa se eu usar o primeiro nome? Acho chato ser tão formal — servi o vinho. — Lívia, né? O Felipe me falou dos seus perfumes.

— Ah, é? — o tom saiu mais agressivo do que ela provavelmente queria.

Ela se apoiou na bancada e me estudou por cima da borda da taça. Era insuportável como aquele olhar me deixava nervoso.

— Desculpa, acho que começamos mal. Vamos recomeçar?

— Tudo bem. E sim, pode usar o vú — respondeu ela, girando a taça sem prová-la.

— Então você também. Meu nome é Dário.

— Prazer, Dário.

— O Felipe me disse que você faz perfumes personalizados.

— Sim, embora hoje não tenha sido minha melhor demonstração.

— Pelo contrário. O aroma que se espalhou... Néroli, né? Foi o melhor da noite — menti.

— Você entende de perfumaria?

— Não tanto quanto gostaria — me afastei da bancada e me aproximei.

Ele estava se fazendo de charmoso. Testando o terreno. Eu tinha medo que ele ouvisse minhas articulações enferrujadas rangendo. Porque uma coisa eram os encontros de uma noite, onde eu não precisava de mais do que um sorriso e alguns elogios, e outra era o que estava acontecendo comigo e com ela.

Eu estava ficando duro, senti contra a calça. E nem tinha havido uma palavra de insinuação, um gesto, nada. Talvez o que me excitou foi o rosto indignado dela — ou a forma como aquela boca pronunciou a palavra "vagabunda".

De repente ela deixou a taça na bancada e esfregou os braços, tentando se aquecer; estava com frio. E eu ali, pegando fogo.

— Deixa eu te ajudar — disse enquanto desabotoava o casaco.

Tirei e passei pelos ombros dela.

— Obrigada… estou com muito frio.

— Que estranho. Não tem janelas, o ar-condicionado está desligado. Você comeu alguma coisa durante a noite?

— Roubei uns canapés de uma bandeja. Horríveis.

— Posso pedir pro chef preparar alguma coisa pra você.

— Não, não. Não se incomode, tô bem.

Ainda não sei se ela estava com frio de verdade ou se queria me ver de perto — porque não desviou o olhar enquanto eu colocava o casaco nela. Acho que ela olhou pra minha virilha. Eu olhei pro decote dela, discretamente. Os seios brancos, macios, tentadores, escapavam um pouco.

Imaginei colocar um na boca e senti um formigamento na ponta.

Ela era estranha e me fazia sentir estranha. Tinha ousadia — mas não daquele jeito grosseiro. Tinha brilho, otimismo, juventude. Eu sabia que estava entrando em terreno tempestuoso. Não conseguia parar. E também não queria.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App