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4 - Uma Proposta Ousada sob o brilho do Diamante

Londres amanheceu sob uma garoa fina e persistente, aquela chuva "pulverizada" que não encharca de imediato, mas transforma os paralelepípedos em espelhos escuros e traiçoeiros. Dentro da mansão Valla, porém, o clima era de uma atividade febril, quase elétrica. O anúncio oficial do noivado de Arthur Valla com a "Srta. Lara Sterling" fora entregue pessoalmente aos escritórios do The Gazette na calada da madrugada. Àquela hora, as prensas já haviam trabalhado, e o mundo — ou pelo menos a parcela dele que importava nos salões de Mayfair — agora sabia, ou pensava que sabia, que o solteiro mais impenetrável e cínico da cidade fora finalmente capturado por uma desconhecida de linhagem misteriosa.

Arthur estava em seu escritório, a luz cinzenta da manhã morrendo sobre sua mesa de carvalho. Ele revisava os termos finais de um documento que selaria o destino de Lara — e, por extensão, o dele — pelos próximos seis meses. O papel não era uma certidão de casamento assinada por um clérigo, mas um adendo contratual de precisão cirúrgica, detalhando o cronograma de quitação das dívidas dela e as cláusulas de confidencialidade pós-término.

Uma batida suave na porta, quase hesitante, interrompeu seu fluxo de pensamento.

— Entre — ordenou ele, sua voz projetada para cortar qualquer hesitação.

Lara entrou. Ela vestia um traje de passeio cor de musgo, de lã fina, que realçava a determinação férrea em seus olhos e o tom acobreado de seu cabelo, agora preso em um penteado que gritava respeitabilidade. Ela parecia ter dormido pouco — as sombras sob seus olhos eram provas de uma noite de debates internos —, mas mantinha a cabeça erguida, os ombros alinhados como uma sentinela.

— Mandou me chamar, Sr. Valla? — perguntou ela, mantendo a barreira da formalidade que as horas comerciais exigiam.

— Arthur — corrigiu ele, sem levantar os olhos do papel por um segundo proposital. — Se vamos ser vistos juntos no Hyde Park esta tarde, o uso de "Sr. Valla" soaria como se você ainda estivesse sob meu emprego. O que, tecnicamente, você está, mas o mundo deve acreditar que o contrato que nos une foi assinado pelo cupido, e não por um advogado.

Ele se levantou e caminhou até ela, tirando do bolso do colete uma pequena caixa de veludo azul-noite. Lara hesitou, as mãos unidas à frente do corpo, antes de pegá-la. Ao abrir a tampa, o brilho de um diamante solitário de corte impecável, cercado por um halo de safiras profundas, quase a cegou.

— É magnífico — sussurrou ela, sentindo o peso frio daquela joia. — Deve ter custado uma fortuna.

— É uma peça de família — disse Arthur, e sua voz soou estranhamente oca, perdendo a firmeza habitual. — Pertenceu à minha mãe. Ela costumava dizer que essa pedra trazia clareza a quem a usasse, permitindo enxergar a verdade através da névoa. Achei apropriado, dada a natureza... nebulosa da nossa situação atual.

Lara olhou para o anel e depois para o rosto dele, buscando qualquer sinal de sentimentalismo.

— Usar uma joia de família, algo que carrega a memória de sua mãe, para sustentar uma mentira dessas... o senhor não sente o peso da culpa, Arthur?

Arthur desviou o olhar para a janela, onde as gotas de chuva escorriam como lágrimas pelo vidro.

— Sentimento é um luxo que eu não me permito, Lara. Custam caro demais e oferecem pouco retorno. Sinta-se à vontade para usá-lo como sua armadura. Enquanto esse anel estiver no seu dedo, nenhum cobrador ousará tocar em você. Você é, para todos os efeitos, intocável. Você agora é uma Valla por associação.

Ele pegou a mão dela. Os dedos dele eram quentes e firmes, um contraste absoluto com o metal gelado da joia. Ao deslizar o anel pelo dedo anelar de Lara, o contato pareceu selar mais do que um acordo financeiro. Houve um momento de silêncio absoluto na sala, onde apenas o tique-taque do relógio de pêndulo e o som da chuva preenchiam o espaço entre seus corpos, perigosamente próximos.

— Agora — disse ele, quebrando o transe e soltando a mão dela como se tivesse se queimado — precisamos discutir a logística do nosso "mundo ordinário". O Juiz Thorne não se contentará com encenações domésticas. Ele espera nos ver na ópera, nos bailes e nos passeios à tarde. Você está preparada para o escrutínio? As mulheres da sociedade vão tentar destruir você apenas por esporte, procurando uma falha na sua armadura de seda.

Lara endireitou os ombros, um pequeno sorriso desafiador surgindo em seus lábios — o sorriso de quem já viu o fundo do poço e não teme mais a queda.

— Arthur... eu vivi os últimos meses fugindo de homens que queriam quebrar minhas pernas por causa das dívidas de meu pai. Acredite em mim, uma condessa com um leque de plumas e uma língua afiada não me assusta nem um pouco. Elas usam palavras; meus antigos perseguidores usavam facas.

Arthur soltou um riso seco, quase uma nota de admiração genuína.

— Gosto da sua coragem. Mas lembre-se: a mentira mais perigosa é aquela que se aproxima demais da verdade. Se começarmos a acreditar nisso, o tombo será fatal para ambos.

 

O passeio no Hyde Park foi o primeiro teste de fogo público. Era o lugar onde as reputações eram feitas ou destruídas entre um aceno de chapéu e uma curva do caminho. Arthur e Lara caminhavam braço dado, com Sophie entre eles, segurando a mão de cada um. Era a imagem perfeita: a redenção do lobo de Londres, transformado em homem de família por uma mulher misteriosa.

— Sorria, Arthur — sussurrou Lara por trás de um leque de seda que combinava com seu traje. — Você parece que está indo para um funeral em Westminster, não para um passeio romântico com sua noiva.

— Eu não sorrio sem um motivo jurídico ou financeiro — resmungou ele, cumprimentando um barão com um aceno de cabeça tão rígido que parecia doloroso.

— O motivo é a sua sobrinha. Olhe para ela.

Arthur baixou o olhar. Sophie estava pulando, apontando para os patos que deslizavam pelo lago Serpentine, o rosto radiante, as faces rosadas pelo frio. Ele nunca a vira assim desde o acidente. Pela primeira vez em anos, a bússola moral de Arthur vacilou. Ele não estava fazendo aquilo apenas para manter o controle ou vencer Thorne. Estava fazendo por aquele lampejo de vida no rosto da menina.

— Ela gosta de você — disse Arthur, a voz subitamente desarmada.

— E eu gosto dela. Ela é uma alma maravilhosa que só precisa de um solo firme sob os pés. — Lara olhou para ele, e a dureza em sua expressão suavizou-se. — Talvez o senhor devesse tentar ser um pouco mais "tio" e menos "tutor acadêmico".

Antes que ele pudesse elaborar uma resposta lógica, foram cercados por um grupo de damas da alta sociedade, liderado pela temível Lady Danbury.

— Sr. Valla! Então os rumores do Gazette eram verdadeiros e não um delírio do editor? — a mulher exclamou, seus olhos de lince percorrendo Lara com o escrutínio de quem avalia a qualidade de um tecido em um mercado de pulgas. — E quem seria esta jovem encantadora que conseguiu o impossível: colocar uma coleira no solteiro mais arredio da cidade?

Arthur apertou levemente o braço de Lara contra o seu corpo. Foi um gesto instintivo de proteção, um "fechar de fileiras" que não passou despercebido pelas fofoqueiras.

— Esta é a Srta. Lara Sterling, minha noiva — disse ele, a voz firme, carregada daquela autoridade de tribunal que silenciava multidões. — E em breve, a senhora da minha casa e do meu coração.

Lara fez uma reverência que teria orgulhado a melhor escola de etiquetas de Paris.

— É um prazer, milady. Arthur me falou muito sobre a elegância desta vizinhança, embora ele tenha omitido que a beleza das damas superava a dos jardins.

A conversa seguiu, cheia de armadilhas gramaticais e perguntas sobre linhagem que Lara desviou com uma habilidade que deixou Arthur secretamente impressionado. Ela não estava apenas jogando; ela estava dominando o tabuleiro.

No entanto, a tensão atingiu o ápice quando um homem de casaco surrado e aparência descuidada, parado à sombra de um carvalho próximo, fixou os olhos em Lara. Ela empalideceu instantaneamente, o sangue fugindo de seu rosto como se uma ferida invisível tivesse sido aberta. Era um dos "cães" de agiota a quem seu pai devia.

Ela tropeçou levemente no cascalho, e Arthur a segurou pela cintura com uma força possessiva.

— O que houve? — ele perguntou em um sussurro, sentindo o tremor que percorria o corpo dela.

— Nada — mentiu ela, o coração martelando contra as costelas. — Apenas o sapato novo... um desequilíbrio.

Arthur seguiu o olhar dela e viu o homem se afastando entre as carruagens. Ele não disse nada, mas seus olhos cinzentos tornaram-se duas fendas de aço. Ele conhecia o olhar de uma presa que acaba de ver o predador.

 

Ao voltarem para a mansão, o silêncio no interior da carruagem era tão denso que parecia sufocar. Sophie havia adormecido, exausta de tanta felicidade, com a cabeça apoiada no colo de Lara. Arthur observava a cena — a luz dos lampiões de rua passando ritmicamente pelo rosto de Lara, revelando o rastro de uma lágrima que ela tentava esconder.

— Quem era ele? — perguntou Arthur, direto como um promotor em um interrogatório final.

Lara tentou desviar o olhar para a janela. — Não sei do que o senhor está falando. Deve ter sido o cansaço.

— Não minta para mim, Lara. Temos um contrato de exclusividade e, dentro destas quatro paredes, de honestidade mútua. Você viu alguém no parque. Alguém que a aterrorizou a ponto de você quase desmaiar.

Lara suspirou, os ombros caindo. — É um dos credores do meu pai. Um dos homens que não aceitam "não" como resposta. Ele deve ter me reconhecido, apesar da seda e das safiras. Se eles souberem que estou aqui... se pensarem que tenho acesso ao seu dinheiro...

Arthur inclinou-se para a frente, invadindo o espaço dela e pegando as mãos trêmulas de Lara entre as suas. O gesto, embora nascido do pragmatismo, tinha uma intensidade elétrica que a fez estremecer.

— Escute bem — disse ele, a voz baixa e perigosa. — Ninguém vai tocar em você. Eu sou Arthur Valla. Eu possuo metade das notas promissórias desta cidade e conheço o nome de cada magistrado e chefe de polícia de Londres. Se esse homem, ou qualquer outro, se aproximar de você de novo, ele não terá que se preocupar com libras, mas com o tempo que passará em uma cela tão escura que esquecerá a cor do sol.

Lara olhou para ele, chocada com a ferocidade daquela proteção. Não era apenas o advogado falando; era o homem.

— Por que está fazendo isso? O contrato previa que eu cuidasse de Sophie e fingisse ser sua noiva. Não dizia nada sobre me proteger de fantasmas que o senhor nem conhece.

Arthur soltou as mãos dela e recostou-se no banco, a sombra voltando a cobrir seu rosto enquanto a carruagem entrava no pátio da mansão.

— Porque você é o meu investimento mais valioso no momento, Lara. E uma regra fundamental dos Valla é: eu nunca permito que ninguém danifique ou ameace aquilo que é meu.

A palavra "meu" ecoou na carruagem, carregada de um possessivismo que ia muito além de um contrato de seis meses. Lara sentiu um arrepio. Ela viera para aquela casa em busca de um emprego para fugir de seus medos, mas estava percebendo que o maior perigo não vinha dos becos escuros de Londres... mas do homem sentado à sua frente, que agora a via como sua propriedade mais preciosa.

— O baile de apresentação será em três dias — anunciou Arthur, voltando ao tom profissional. — Será o nosso xeque-mate oficial para a sociedade. Prepare-se, Lara. A partir de agora, as pontes atrás de nós foram queimadas.

Lara olhou para o anel de safira em seu dedo. Ela estava deixando de ser Lara Sterling para se tornar uma peça em um jogo de xadrez onde o coração era o único prêmio que ninguém ousara colocar na mesa.

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