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3 - O Encontro de Dois Mundos

 

O sol de Londres parecia ter decidido, por um breve momento de ironia meteorológica, cooperar com a farsa que se desenrolava. Através das janelas em arco do ateliê de Madame Beaumont — o epicentro da moda para as damas de Mayfair —, a luz incidia sobre os metros de seda, cetim e renda que agora rodeavam Lara Sterling. No entanto, para ela, aquela opulência não era um sonho de Cinderela; era uma jaula dourada, pesada e claustrofóbica.

— Mantenha as costas eretas, mademoiselle — solicitou a modista, uma mulher de gestos rápidos e olhos que julgavam tecidos e linhagens com a mesma precisão. Ela falava com a boca cheia de alfinetes, o que dava à sua voz um tom metálico. — Uma futura Sra. Valla não se curva sob o peso de um vestido, ela o domina. Ele deve ser uma extensão de sua vontade, não apenas uma cobertura para sua pele.

Lara suspirou, tentando não se mover enquanto o tecido azul-celeste, da cor do gelo sob o sol, era ajustado à sua cintura com uma força que quase lhe roubava o fôlego. O espelho de moldura dourada devolvia a imagem de uma mulher que ela mal reconhecia. Onde antes havia o cansaço das noites em claro, o pavor constante dos cobradores e a palidez da fome, agora havia o brilho da seda e o reflexo de um colar de safiras que Arthur insistira que ela usasse para "ancorar o personagem".

Arthur Valla, o arquiteto daquela fraude, estava sentado em uma poltrona de veludo no canto da sala. Ele folheava um jornal financeiro com uma indiferença calculada, como se estivesse em seu próprio escritório e não cercado por babados e espartilhos. Ele mal olhava para ela, mas Lara sentia a pressão de sua vigilância sobre cada um de seus poros.

— Sr. Valla — chamou ela, a voz carregada de uma ironia que só ele entenderia. — Se o objetivo é me transformar em uma noiva capaz de enganar o homem mais rigoroso da Inglaterra, creio que o senhor deveria ao menos fingir que está interessado no processo de produção.

Arthur baixou o jornal lentamente. Seus olhos percorreram Lara de baixo para cima, não com a luxúria de um amante, mas com a frieza analítica de um inspetor de alfândega. No entanto, houve um breve segundo — um milésimo de pulsação — em que as pupilas dele se dilataram, traindo uma reação que sua mente tentava suprimir.

— O resultado é funcional — disse ele, voltando ao jornal. — Madame Beaumont é a melhor de Londres. Eu não pagaria uma pequena fortuna se esperasse algo menos que a perfeição estética.

— Funcional? — Lara riu, uma nota de indignação escapando. — Eu me sinto como um cavalo de raça sendo preparado para um leilão de elite. O senhor está verificando se os dentes estão brancos e os cascos polidos?

— De certa forma, você é — respondeu ele, sem desviar os olhos das notícias sobre o mercado de ações. — Estamos vendendo uma imagem ao Juiz Thorne e à sociedade. E, em um leilão de alta classe, a apresentação é o único fator que impede o comprador de fazer perguntas inconvenientes sobre a origem da mercadoria.

Madame Beaumont, sentindo a tensão elétrica que poderia incendiar as rendas caras, pigarreou e retirou-se com suas assistentes, deixando o casal sozinho no meio do mar de tecidos inacabados.

 

Lara desceu do pedestal de madeira com um movimento fluido, apesar do peso da saia. O farfalhar da seda era o único som na sala, um ruído que parecia excessivamente alto no silêncio entre eles. Ela parou diante dele, bloqueando a luz do jornal, forçando-o a encará-la.

— O senhor fala de negócios, Arthur, mas esquece que eu tenho que interpretar um papel humano. Amanhã teremos o nosso primeiro jantar "íntimo" com o Lorde e a Lady Harrington. Se eu agir como sua propriedade silenciada e o senhor agir como meu mestre, Thorne saberá em cinco minutos que isso é uma fraude de baixo nível.

Arthur fechou o jornal com um estalo seco, o som de uma porta se trancando. Ele se levantou, sua altura imponente obrigando Lara a inclinar a cabeça para trás para sustentar o contato visual.

— O que você sugere, Srta. Sterling? Que eu recite poemas de Byron ao seu ouvido e segure sua mão como um adolescente com os hormônios em fúria?

— Sugiro que o senhor aprenda quem eu sou. Que saiba o meu nome do meio sem precisar olhar em uma ficha. Que saiba qual é a minha flor favorita e por quê. Que consiga olhar para mim sem parecer que está calculando o valor de depreciação de uma máquina — rebateu ela, os olhos brilhando com um fogo que o dinheiro dele não podia comprar. — Se vamos mentir para o mundo, precisamos, ao menos, acreditar na mentira por algumas horas.

Arthur deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela com uma confiança predatória. O cheiro dele — tabaco de latakia, sândalo e o frescor metálico da chuva de Londres — envolveu Lara.

— Seu nome do meio é Elizabeth. Sua flor favorita... — ele hesitou por um segundo, os olhos cinzentos fixos nos lábios dela — é o lírio do vale. E eu não calculo dotes, Lara. Eu calculo riscos. E, neste momento, o maior risco é você ser esperta demais e acabar gostando do brilho dessas pedras no seu pescoço.

Lara sentiu a respiração falhar. Ele não apenas pesquisara sua dívida; ele escavara sua vida.

— Como o senhor sabe da flor? — sussurrou ela, sentindo-se subitamente despida, apesar das camadas de seda.

— Eu sou um homem de detalhes. Notei o pequeno broche de prata que você usava no dia da entrevista. Estava desgastado, mas polido com um cuidado obsessivo. Era a única coisa de valor sentimental que você carregava em sua bolsa de misérias. Deduzi que era um símbolo. Lírios do vale significam o retorno da felicidade. Uma escolha irônica para alguém na sua situação, não acha?

Lara sentiu uma pontada no peito. O broche fora a última lembrança de sua mãe. Pela primeira vez, ela viu uma fresta na armadura de Arthur: ele não era apenas frio; ele era um observador implacável, capaz de enxergar a alma através das cicatrizes.

— Se quer que o mundo acredite — continuou Arthur, a voz agora mais baixa, vibrando no peito dele — amanhã à noite, você não será a governanta que deu um golpe de sorte. Você será a mulher que finalmente domou o lobo que nenhum tribunal conseguiu encoleirar.

Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava brutalmente com sua postura rígida, tocou o queixo de Lara, erguendo o rosto dela para a luz.

— Pratique seu sorriso de triunfo, Lara. Amanhã, o palco é nosso. E eu não aceito críticas negativas.

 

O dia seguinte chegou com a urgência de uma sentença final. A mansão Valla fora transformada por um exército de criados sob as ordens de Henderson. Flores frescas de estufa preenchiam os vasos de cristal, e a prataria da família brilhava sob a luz de cem velas.

Lara estava exausta, mas sua mente trabalhava a mil por hora. Passara a tarde ensaiando com Sophie, transformando a mentira em uma brincadeira de faz-de-conta. "Vamos fingir que o tio Arthur é um rei muito sério que esqueceu como se brinca, e nós somos as espiãs que vão mostrar a ele como ser humano", dissera ela, ganhando a cumplicidade da menina.

Quando os Harringtons chegaram, a tensão era quase sólida. Lorde Harrington era um aliado político do Juiz Thorne, e cada palavra dita ali seria pesada em uma balança invisível.

— Srta. Sterling — disse Lady Harrington, analisando Lara através de suas lentes de aumento com o escrutínio de um entomologista estudando um espécime raro. — Ouvimos que o noivado foi... impetuoso. Arthur nunca foi homem de se deixar levar por sentimentos que não podem ser quantificados em libras esterlinas.

Lara sentiu a mão de Arthur envolver sua cintura. O toque era firme, possessivo, e enviou um calor inesperado por sua espinha, desarmando sua guarda por um segundo.

— Algumas coisas na vida não podem ser planejadas, Lady Harrington — disse Arthur, com um tom de voz que Lara nunca ouvira: era terno, quase vulnerável. — Quando conheci Lara, percebi que todos os meus contratos eram apenas papéis sem vida diante da vivacidade dela. Ela é o único argumento para o qual eu não tenho réplica.

Lara sorriu, encostando-se levemente no ombro dele, sentindo os músculos rígidos do homem sob o tecido do fraque.

— Arthur gosta de fingir que é um monólito de lógica — disse ela, rindo suavemente —, mas ele tem um coração muito mais complexo do que deixa transparecer. Foi a sua... persistência que me conquistou. Não foi, querido?

Ela sentiu Arthur ficar tenso sob sua mão, mas ele manteve o olhar de adoração fingida. Era uma dança perigosa.

O jantar foi um campo minado. Lara criou uma narrativa impecável: uma família de pequena nobreza rural arruinada por investimentos em ferrovias que nunca foram construídas. Uma verdade parcial, vestida com a elegância de uma tragédia romântica.

De repente, a porta da sala de jantar abriu-se. Sophie, fugindo do banho, entrou correndo. Ela não foi para o tio; ela correu direto para Lara, escondendo o rosto em suas saias de seda.

— Lara, eu não consigo dormir... o pirata Barnaby está com medo do escuro — choramingou a menina.

Um silêncio sepulcral caiu sobre a mesa. Lara olhou para os convidados e sentiu o peso da farsa. Ela se inclinou, pegando Sophie no colo com uma naturalidade que nenhuma atriz poderia imitar, ignorando o fato de que o vestido de centenas de libras estava sendo amassado por mãos pequenas e úmidas.

— Peço mil desculpas, Lorde e Lady Harrington — disse Lara, com uma doçura que era 100% real. — Mas há assuntos que um contrato de noivado ou um jantar de Estado não podem adiar. O bem-estar de uma criança é o nosso bem mais precioso, não é, Arthur?

Arthur observou a cena. A mulher que ele contratara como um recurso técnico estava ali, segurando sua sobrinha com um carinho que ele nunca soube oferecer. Algo mudou em sua percepção. O Juiz Thorne, se estivesse ali, veria o ambiente familiar perfeito. Mas Arthur estava vendo algo que o assustava mais: ele estava vendo a possibilidade de um lar onde antes só havia uma estrutura.

— Certamente — disse Arthur, levantando-se. Ele colocou a mão sobre a cabeça de Sophie por um breve momento. — Vá. Eu cuidarei dos nossos convidados.

Mais tarde, após o som das carruagens dos convidados ter desaparecido na noite, Lara encontrou Arthur na biblioteca. Ela já havia trocado o traje de gala por um robe de seda simples, e seu cabelo caía em ondas desordenadas sobre os ombros.

— Eles acreditaram — disse ela, encostando-se no batente da porta.

Arthur estava parado junto à lareira, o conhaque na mão. Ele parecia exausto, a máscara de frieza ligeiramente torta.

— Sim. Harrington me garantiu que o relatório para Thorne será impecável. Sophie foi o toque de mestre que eu não planejei.

— Ela não estava atuando, Arthur. Ela realmente precisava de mim. Às vezes as pessoas precisam de mais do que contratos de custódia.

Arthur virou-se para ela. A luz das brasas esculpia seu rosto, revelando linhas de cansaço que ele normalmente escondia com perfeição.

— Você foi excepcional hoje, Lara. Por um momento, até eu comecei a me perguntar onde terminava a Srta. Sterling e onde começava a noiva.

— Esse é o perigo de contratar uma mulher que não tem nada a perder — ela sorriu, caminhando para dentro da sala. — Eu sou muito boa em ser o que os outros precisam que eu seja.

— Esse é o problema — murmurou ele, dando um passo em direção a ela, encurtando a distância. — Você é tão boa em mentir que começo a temer o que acontecerá quando o contrato acabar e a verdade for a única coisa que sobrar nesta casa.

— A verdade é que eu cumpri minha parte — respondeu ela, desafiadora, embora seu coração estivesse acelerado.

Arthur parou a poucos centímetros dela. O silêncio da biblioteca era denso, preenchido apenas pelo estalar da lenha.

— A verdade é que, quando você pegou aquela menina no colo... eu esqueci, por um segundo, que assinei um cheque para você estar ali. E isso, Lara, é o risco mais alto que já corri em toda a minha carreira.

Lara sentiu a respiração travar. A farsa estava vazando para a realidade.

— Não esqueça, Arthur — sussurrou ela. — No final de tudo, eu ainda sou apenas uma babá com dívidas. E você ainda é o homem que me comprou por seis meses.

— Eu não compro pessoas, Lara — disse ele, a voz rouca, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que prometia tempestade. — Eu faço investimentos de alto risco.

— E qual é o retorno esperado para este, Sr. Valla?

Arthur não respondeu. Ele apenas a observou, um olhar que deixava claro que, naquele jogo de mentiras, o coração seria o único juiz que nenhum deles poderia subornar.

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