Mundo de ficçãoIniciar sessãoAs luzes da Mansão Valla podiam ser vistas a três quarteirões de distância, uma pira de opulência queimando no coração negro de Londres. Centenas de velas de cera de abelha — as mais puras, que não soltavam fumaça nem o cheiro acre de sebo comum — queimavam nos candelabros de cristal de Baccarat, transformando o salão de baile em um oceano de luz dourada e trêmula. Para Arthur Valla, aquele brilho era meramente estratégico, uma ferramenta de iluminação para que o Juiz Thorne pudesse ver cada detalhe da "família perfeita". Para Lara Sterling, porém, aquele brilho era o incêndio que ameaçava consumir sua verdadeira identidade.
No andar de cima, diante do espelho de corpo inteiro com moldura de prata, Lara mal conseguia respirar. O espartilho de barbatana de baleia estava justo, forçando-a a uma postura de orgulho que ela não sentia, mas a verdadeira pressão vinha do que aconteceria quando ela descesse aquela escadaria. Ela usava um vestido de seda pura em tom champanhe, com sobreposições de renda francesa tão delicadas que pareciam tecidas por mãos etéreas, e não por costureiras exaustas sob lamparinas de óleo. O decote era ousado o suficiente para atrair olhares, mas contido o suficiente para sugerir a modéstia de uma futura esposa de um homem conservador.
— Você está parecendo uma rainha de verdade, Lara — sussurrou Sophie, sentada na beira da cama enorme, balançando as perninhas calçadas com meias de seda. A menina usava um vestido branco com uma fita de cetim azul, o rosto limpo e os olhos brilhando com uma admiração pura que fez o coração de Lara se apertar.
Lara forçou um sorriso e ajoelhou-se com cuidado, ignorando o risco de amassar a seda cara, apenas para ficar na altura dos olhos da menina.
— E você é a minha princesinha favorita nesta torre — disse Lara, ajeitando um cacho loiro de Sophie. — Escute bem: se você ficar cansada das pessoas grandes e suas conversas chatas, o Sr. Henderson tem ordens secretas de levá-la para o quarto com uma fatia extra de bolo de chocolate e aquele livro de piratas. É o nosso segredo, combinado?
Sophie riu e abraçou o pescoço de Lara. Naquele abraço pequeno e apertado, Lara sentiu o peso colossal da responsabilidade. Ela não estava mais ali apenas para liquidar as notas promissórias que seu pai deixara; ela estava ali como o escudo humano daquela criança. Se a farsa falhasse, Sophie seria entregue aos "lobos da Escócia".
Uma batida firme na porta anunciou que o tempo da preparação havia acabado. Arthur entrou.
Ele estava impecável. O traje de gala preto, cortado sob medida por Savile Row, acentuava seus ombros largos e sua postura dominante. O contraste com a camisa de linho branco e a gravata de seda perfeitamente atada conferia-lhe um ar de elegância perigosa. Ele parou na porta e, por um momento que pareceu durar uma eternidade, o silêncio reinou no quarto.
— Sophie, o Sr. Henderson está esperando por você no corredor com as lanternas — disse Arthur, sem desviar os olhos de Lara nem por um segundo.
A menina deu um beijo rápido na bochecha de cada um e saiu saltitante, sua inocência sendo a única coisa leve naquela casa. Arthur fechou a porta com um clique definitivo e caminhou lentamente até Lara. Ele parou a apenas um passo de distância, e Lara pôde sentir o calor de seu corpo emanando através do tecido fino de seu robe, antes mesmo de ele tocar sua mão.
— Se o objetivo era silenciar todos os críticos de Londres — começou ele, com uma voz num tom grave, quase um ronronar predatório que fez os pelos dos braços de Lara se arrepiarem —, você acaba de vencer a guerra antes mesmo de dispararmos a primeira bala.
— O senhor também não está nada mal, Sr. Valla — respondeu ela, tentando manter o tom leve, embora seu coração batesse contra as costelas como um pássaro enjaulado.
Arthur estendeu o braço, oferecendo o apoio que ela precisaria para enfrentar os leões.
— A partir deste momento, ao cruzarmos o limiar daquelas escadas, não somos mais patrão e empregada. Não somos o credor e a devedora. Somos o casal mais apaixonado, invejado e observado da cidade. Você consegue sustentar essa mentira, Lara?
Lara colocou a mão enluvada sobre o braço dele. A firmeza de seus músculos sob a lã fina deu-lhe uma âncora de coragem.
— Eu sou uma Sterling, Arthur. Podemos ter perdido nossa fortuna e nossa dignidade para o vício, mas nunca perdemos nossa capacidade de dar um espetáculo impecável. Vamos ao palco.
A descida da escadaria de mármore foi o momento em que o "Primeiro Limiar" foi oficialmente cruzado. A conversa borbulhante no salão de baile cessou de forma tão abrupta que o som do quarteto de cordas pareceu subitamente alto demais. Centenas de rostos voltaram-se para cima, as joias das matronas refletindo a luz das velas enquanto elas tentavam decifrar quem era a mulher que domara o Lobo de Mayfair.
Arthur mantinha o queixo erguido e um olhar de posse absoluta. Ao chegarem ao pé da escada, o mar de convidados abriu-se, e eles foram imediatamente interceptados.
— Valla! Que surpresa deliciosa e... inesperada — exclamou o Duque de Sussex, um homem cujo apoio político era o oxigênio de que Arthur precisava no Parlamento. — Então é esta a jovem que o fez abandonar o isolamento de sua torre de marfim e leis?
— Vossa Graça, permitam-me apresentar a Srta. Lara Sterling — disse Arthur, sua mão cobrindo a de Lara sobre seu braço em um gesto possessivo que não passou despercebido por ninguém. — A mulher que me ensinou, contra todos os meus instintos, que a vida é muito mais do que balanços financeiros e vitórias judiciais.
Lara sorriu com a perfeição de uma veterana dos salões de Versalhes.
— Arthur é muito modesto, Vossa Graça. Ele apenas precisava de alguém que soubesse exatamente onde ele guardava a chave do próprio coração. Foi uma busca longa, mas recompensadora.
Uma rodada de risadas polidas e elogios seguiu-se, mas Lara sentia os olhos de Thorne sobre ela. O Juiz estava no canto do salão, segurando um copo de xerez, observando-os com a precisão de um falcão. Ele não parecia convencido pela seda champanhe ou pelo sorriso dela.
— Ele está nos caçando com o olhar — sussurrou ela, enquanto Arthur a conduzia para o centro do salão para a primeira valsa.
— Eu sei — respondeu Arthur, puxando-a para mais perto do que a etiqueta vitoriana considerava adequado. — Por isso, dance como se este fosse o último momento de sua vida e como se o ar entre nós fosse feito de pólvora.
A música começou. A valsa é uma dança de absoluta confiança, onde o equilíbrio de um depende do movimento do outro. Arthur dançava com uma competência surpreendente, guiando Lara pelo salão com uma força fluida. Ela sentia o mundo girar — o borrão das cores dos vestidos, o brilho dos diamantes, as fofocas sibilantes —, mas seu foco estava inteiramente preso no cinza profundo e gélido dos olhos dele, que agora pareciam mais quentes.
— Onde um homem tão focado em contratos aprendeu a se mover assim? — perguntou ela, ligeiramente sem fôlego.
— Um homem de negócios deve saber se mover em todos os terrenos, Lara. Especialmente naqueles onde as armadilhas são invisíveis e a música é usada para esconder o som das adagas sendo afiadas.
— O senhor sempre fala de batalhas. Alguma vez relaxa e simplesmente sente o momento?
Arthur inclinou-se, sua boca roçando a orelha dela, o que causou um murmúrio coletivo entre as matronas nas laterais.
— Só quando tenho a certeza absoluta de que venci. E esta noite, Lara, sinto que estamos ganhando terreno.
De repente, o quarteto de cordas pareceu diminuir de volume quando o Juiz Thorne aproximou-se deles no final da música, interrompendo a saída para os refrescos. Sua presença era como uma sombra fria em um dia de sol.
— Um momento, Valla — disse Thorne, a voz cortante. — Uma exibição de dança e beleza é encantadora para os jornais de fofoca, mas a vida doméstica é feita de substância, não de seda. Diga-me, Srta. Sterling, como pretende conciliar sua óbvia juventude com a educação de uma órfã tão... complexa quanto a pequena Sophie?
Lara sentiu a mão de Arthur tensionar-se instantaneamente em suas costas. Era o teste final. O xeque-mate.
— Meritíssimo — disse Lara, soltando-se levemente do braço de Arthur para encarar o juiz de frente. — A educação de uma criança não é uma questão de cronologia ou idade, mas de empatia. Sophie não precisa de uma tutora que lhe ensine apenas o alfabeto ou como se portar à mesa; ela precisa de alguém que entenda o peso do silêncio que a perda deixa em uma casa. Eu perdi meu pai recentemente, senhor. Sei o que é olhar para uma mansão cheia de luxo e sentir-se completamente sozinha no mundo.
Ela deu um passo à frente, sua voz ganhando uma força que silenciou os convidados ao redor.
— Eu não vou apenas criar Sophie, Sr. Thorne; eu vou garantir que ela nunca se sinta como uma cláusula em um processo judicial ou um fardo administrativo. Ela será amada, e isso, creio eu, é algo que nenhum primo distante na Escócia pode garantir por contrato.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Arthur olhou para Lara, e pela primeira vez naquela noite — talvez pela primeira vez na vida —, não havia estratégia em seus olhos. Havia uma admiração crua, uma vulnerabilidade que o assustava mais do que qualquer derrota no tribunal.
O Juiz Thorne arqueou uma sobrancelha, o olhar severo suavizando-se milimetricamente.
— Uma resposta apaixonada, senhorita. Espero que suas ações futuras sejam tão eloquentes quanto suas palavras presentes. Valla, você tem sorte. Muita sorte.
Thorne afastou-se, e o peso nos ombros de Arthur pareceu evaporar. Ele voltou a envolver a cintura de Lara, mas o toque era diferente agora. Não havia mais a rigidez do contrato; havia uma conexão elétrica.
Arthur não a levou de volta para o salão. Ele a conduziu por uma porta lateral para a varanda isolada, onde o ar frio da noite de Londres contrastava violentamente com o calor abafado do baile. A lua prateada iluminava os jardins, criando sombras longas entre as estátuas de mármore.
— Você o venceu — disse ele, as mãos apoiadas no parapeito de pedra fria. — Você o venceu com a única arma que eu nunca poderia comprar ou forjar: a humanidade pura.
Lara aproximou-se, sentindo a adrenalina do confronto baixar e dar lugar a um cansaço emocional profundo.
— Eu não estava interpretando um papel lá dentro, Arthur. Eu realmente me importo com aquela menina. Eu me vejo nela.
Arthur virou-se para ela. A luz da lua esculpia seu rosto em ângulos dramáticos, iluminando as safiras no pescoço de Lara, mas era o brilho úmido nos olhos dela que o prendia. O contrato entre eles era explícito: "Sem intimidades. Sem envolvimento emocional. Apenas uma transação de seis meses".
Mas quando Arthur deu um passo à frente, invadindo o espaço dela, e Lara não recuou, todas as cláusulas do mundo tornaram-se pó.
— Lara — sussurrou ele, o nome dela soando como uma confissão vinda de um homem que passara a vida em silêncio.
Ele levou a mão ao rosto dela, o polegar acariciando a maçã de sua bochecha com uma ternura que ele mesmo desconhecia possuir. O mundo ordinário da necessidade financeira ficara para trás. Eles haviam cruzado o limiar da farsa para algo muito mais perigoso: o desejo genuíno.
— Arthur, o contrato... — ela tentou alertar, mas sua voz falhou.
— O contrato não previu isso — murmurou ele.
Inclinando a cabeça, Arthur selou aquele momento com um beijo. Não foi um beijo de "noivos" para a plateia ver; foi um beijo carregado de fome, de descoberta e da promessa de que, a partir daquela noite, nenhum deles voltaria a ser o mesmo. Lara correspondeu, enroscando os dedos no cabelo dele, esquecendo-se das dívidas, do juiz e da mentira.
Naquele instante, no terraço de uma mansão construída sobre lógica e lucro, o coração de Arthur Valla finalmente entendeu o que nenhuma lei conseguira explicar: a rendição total é a única vitória que realmente importa.







