Estilhaços à Luz do Dia
O amanhecer não traz alívio.
Traz exposição.
Vidros quebrados brilham no chão como pequenos espelhos partidos.
A parede lateral, parcialmente destruída, deixa o interior vulnerável, escancarado, como uma ferida que ainda sangra.
Ana Luísa observa tudo sentada no degrau da varanda, envolta em um casaco emprestado pelos bombeiros.
O corpo dói em pontos específicos, a perna esquerda pulsa em intervalos regulares, o ombro arde, a cabeça lateja com um peso abafado, mas nada disso se compara ao cansaço que se instala atrás dos olhos.
Um cansaço que não vem da falta de sono.
Vem da consciência.
Ela não está mais invisível.
— Senhora Ana Luísa? Um policial se aproxima, bloco de anotações em mãos.
Ela levanta o olhar lentamente.
Percebe o cuidado excessivo no tom dele, o jeito calculado de manter distância.
Como se ela fosse frágil demais.
Ou perigosa demais.
— Sim.
— Precisamos que refaça o relato. Com calma.
Com calma.
Ela quase sorri.
Enquanto fala, Ana nota