Ecos que se Cruzam
Ana
O arquivo não dorme.
Mesmo à noite, o prédio antigo parece respirar.
Ana percebe isso assim que atravessa a porta lateral, usando a chave emprestada que pesa no bolso como um pacto silencioso.
O corredor estreito está mal iluminado, e cada lâmpada lança sombras irregulares nas paredes bege manchadas pelo tempo.
O som dos próprios passos ecoa mais do que deveria.
Ela gosta disso.
O eco a lembra de que não está invisível, apenas escolhendo quando aparecer.
O relógio no pulso marca 22h17.
Ana calcula o tempo com precisão quase automática.
Sabe exatamente quanto pode ficar ali sem levantar suspeitas.
Abre a sala de registros especiais e fecha a porta com cuidado, girando a chave até ouvir o clique suave.
As estantes de metal formam corredores estreitos, cheios de caixas numeradas.
O cheiro é uma mistura de papel antigo, ferrugem e poeira comprimida por décadas.
Ana respira fundo, não para se acalmar, mas para se concentrar. Seu corpo inteiro entra em estado