Vozes do Vento
A manhã amanheceu tímida, como se até mesmo o sol hesitasse em tocar o velho casarão.
A neblina encobria as copas das árvores ao redor, e o som do vento fazia as janelas tremerem como se guardassem segredos em seus vidros empoeirados.
Ana permaneceu alguns minutos sentada na beira da cama, os dedos entrelaçados, encarando o chão como se pudesse encontrar ali as respostas que tanto buscava.
A descoberta dos documentos na noite anterior ainda latejava em sua mente como uma ferida recém-aberta.
Rafael estava na cozinha, mexendo lentamente o café na chaleira de ferro, com os olhos fixos na chama azul do fogão a lenha.
O cheiro de café fresco e pão aquecido preenchia o ambiente, contrastando com o silêncio tenso entre eles.
Quando Ana entrou, ele levantou os olhos e, por um instante, ela viu neles algo diferente.
Uma espécie de vulnerabilidade crua, como se ele também estivesse à beira de um abismo interno.
— Dormiu bem? Ele perguntou com a voz baixa, quase receosa.