O Primeiro Corpo Político.
A notícia chegou sem alarde, como tudo que é cuidadosamente preparado para não fazer barulho demais.
Ana soube por Rafael, ainda antes do café da manhã.
Ele entrou na cozinha com o celular na mão, o rosto tenso, os olhos mais escuros do que o normal.
O cheiro de café recém-passado contrastava com a rigidez do ambiente, criando uma sensação estranha de normalidade forçada.
— Encontraram o Álvaro. Disse, sem rodeios.
Ana congelou por um segundo, a xícara suspensa a meio caminho da boca.
— Como assim, encontraram?
Rafael respirou fundo antes de responder.
— Oficialmente, foi um mal súbito.
—Um infarto enquanto caminhava pela praça, perto do coreto.
—Caiu. Bateu a cabeça. Morreu antes da ambulância chegar.
O nome ecoou dentro dela como um golpe seco.
Álvaro Menezes.
Arquivista aposentado.
O homem que, dois dias antes, havia aceitado conversar.
Ana apoiou a xícara na mesa com cuidado excessivo, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo invisível