Não Dorme.
O primeiro sinal não veio como ameaça, nem como descoberta explícita.
Veio como um desconforto persistente, desses que não se explicam, mas se instalam no corpo antes mesmo de alcançarem a razão.
Ana Luísa percebeu isso numa manhã comum demais para justificar a inquietação que a acompanhava.
O sol entrava oblíquo pela janela do escritório, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar como pequenos fragmentos do passado em suspensão.
A casa estava silenciosa, exceto pelo estalo eventual da madeira antiga, que reagia às mudanças de temperatura como se respirasse junto com ela.
Sobre a mesa, os documentos estavam organizados em pilhas criteriosas.
Datas cruzadas.
Nomes sublinhados. Setas feitas à lápis conectando eventos separados por décadas.
Tudo parecia sob controle.
E, ainda assim, algo estava errado.
Ana passou os dedos pela borda de uma pasta azul e sentiu um arrepio leve, quase imperceptível.
Não era medo.
Era antecipação.
Como se tivesse esquecido algo ó