03h17
03h17.
O relógio digital da cozinha emite um brilho azul frio, quase agressivo no escuro.
Ana Luísa está de pé há tempo demais para ainda se lembrar de quando se levantou.
O chão gelado sob os pés descalços já não incomoda.
Seu corpo entrou naquele estado estranho em que o medo não paralisa, afia.
A casa está em silêncio absoluto.
Não o silêncio habitual, mas um silêncio suspenso, como se até os insetos tivessem sido instruídos a não emitir som algum.
Ela respira devagar, contando mentalmente.
Inspira.
Expira.
Cada movimento é calculado. Cada músculo, atento.
Do corredor, vem o som quase imperceptível de um rangido.
A madeira antiga se acomoda, ou alguém pisa onde não deveria?
Ana não se move.
03h18.
O gravador está ligado sobre a mesa do escritório.
Não há fita rodando.
Ela o ligou apenas para ouvir o próprio chiado, um ruído constante que a impede de mergulhar no silêncio absoluto.
É uma âncora.
Uma prova de que ainda está acordada. Viva.
Rafael dorme no quarto ao