Mundo ficciónIniciar sesiónAna Clara Duarte está à beira do colapso. Entre dívidas médicas sufocantes e a ameaça ser despejada, sua vida já parece um desastre completo — até o momento em que um segundo de distração muda tudo. Em uma rua chuvosa, ela bate na traseira de um carro de luxo e descobre que o motorista é ninguém menos que Gabriel Monteiro, um CEO poderoso, frio e acostumado a controlar cada detalhe da própria vida. O prejuízo é enorme, muito maior do que Ana Clara poderia pagar em toda uma vida. Mas antes que a discussão termine, algo inesperado acontece: Leo, o filho pequeno de Gabriel, se machuca levemente no acidente — e Ana Clara é a primeira a correr para ajudá-lo. O cuidado natural com a criança chama a atenção de Gabriel de uma forma que ele não consegue ignorar. No dia seguinte, ele faz uma proposta tão absurda quanto irresistível. Casamento. Um casamento de verdade e prazo para acabar. Gabriel Rodrigo Monteiro precisa desesperadamente provar ao tribunal que pode oferecer uma família estável ao filho, ameaçado de ser levado pelos próprios avós. Ana Clara precisa de dinheiro para salvar sua casa e pagar suas dívidas. O acordo parece simples: eles fingem ser marido e mulher até a batalha pela guarda terminar. Sem sentimentos. Sem envolvimento. Sem expectativas. Mas viver sob o mesmo teto, dividir a rotina com Leo e sustentar a fachada de uma família perfeita começa a transformar o que deveria ser apenas um negócio frio. Entre olhares que duram tempo demais, discussões cheias de tensão e uma atração impossível de ignorar, Ana Clara e Gabriel percebem tarde demais que o maior risco do contrato não está nas cláusulas. Está no coração.
Leer másO cheiro de tinta fresca ainda impregna o ar dentro do carro, mas eu mal percebo. Está grudado em mim, nas minhas mãos, nas minhas roupas, na minha vida inteira. Azul ultramar e ocre queimado ainda mancham meus dedos, e as marcas aparecem vivas contra o volante gasto do meu velho Fiat Uno, que range discretamente sempre que faço uma curva mais fechada. Tamborilo os dedos no couro rachado, tentando controlar a ansiedade que lateja no meu peito, mas não adianta.
Nada adianta. A tela em branco que deixei no cavalete, lá em casa, continua me perseguindo mesmo estando a quilômetros de distância. Consigo vê-la com nitidez na minha mente, aquela superfície silenciosa e quase debochada esperando uma inspiração que simplesmente se recusa a vir. Mais uma tela vazia. Mais uma promessa de dinheiro que nunca chega. Mais uma tentativa desesperada de salvar uma vida que parece escorrer pelos meus dedos. lho rapidamente para o relógio no painel e meu estômago se revira. 17h30. A entrega dos bolos para a festa infantil deveria ter sido feita há meia hora. Meia hora. Consigo imaginar perfeitamente a cara da cliente, uma socialite conhecida por trocar fornecedores como quem troca de bolsa. Ela provavelmente já está furiosa, andando de um lado para o outro em um salão cheio de balões caros enquanto reclama no telefone sobre “a incompetência da confeiteira”. Perder esse cliente seria péssimo. Mas perdera moradia… isso seria o fim. A palavra volta a ecoar na minha cabeça como um sino fúnebre: banco. As dívidas médicas se acumulam como montanhas impossíveis de escalar. Cada ligação do hospital parece arrancar um pedaço da minha coragem. Cada boleto é mais pesado que o anterior. O banco não quer saber de histórias tristes, de diagnósticos, de promessas ou de lágrimas. O banco quer dinheiro. E a casa que pagava todo mês direitinho há anos, a única coisa que restou do tempo em que a vida parecia estável, está prestes a desaparecer. Outra carta de cobrança do aluguel chega. Outra ameaça silenciosa de despejo. Aperto o volante com mais força, sentindo a tensão subir pelos meus braços. — Eu vou dar um jeito — murmuro para mim mesma, embora não tenha a menor ideia de como. A chuva começa a cair. Primeiro tímida, como se estivesse testando o terreno. Depois mais insistente. As gotas batem no para-brisa e transformam a rua em um borrão de luzes e reflexos. Os limpadores se movem de um lado para o outro com um rangido irritante, lutando uma batalha perdida contra a água que insiste em se acumular. Acelero um pouco mais, ignorando o limite de velocidade. Eu sei que não deveria, mas o relógio continua correndo e o pânico dentro de mim também. Minha mente está tão cheia de pensamentos que o mundo ao redor parece desaparecer. Penso na conta do hospital. Penso na carta do banco e então tudo acontece rápido demais. Eu não vejo o semáforo mudar para vermelho. Não vejo o carro parar à minha frente. Não vejo absolutamente nada. Eu só sinto. O impacto explode no ar com um baque seco que faz meu corpo ser empurrado violentamente contra o cinto de segurança. Metal contra metal. Um rangido horrível, como se o mundo estivesse sendo amassado junto com os carros. O Fiat treme inteiro antes de finalmente parar. Por um segundo que parece durar uma eternidade, fico ali parada, tentando entender o que aconteceu. O silêncio que se segue é estranho. Pesado. Irreal. A chuva continua caindo, agora mais forte, batendo no teto do carro como pequenos martelos. Meu coração dispara tão rápido que sinto o pulso latejar na garganta. Pisco algumas vezes, tentando focar a visão. Olho para frente e vejo a traseira de um SUV preto brilhante. Luxuoso. Caríssimo. E agora com um amassado claro bem no meio. — Não… — sussurro, levando a mão à testa. — Não, não, não… Desligo o motor e abro a porta com as mãos tremendo. A chuva fria me atinge imediatamente quando saio do carro. O ar cheira a asfalto molhado, borracha queimada e metal quente. Dou alguns passos até o SUV, já imaginando o tamanho do prejuízo que eu causei. E então a porta do motorista se abre. O homem que sai parece ter sido desenhado para capas de revista. Alto, postura impecável, terno cinza-chumbo perfeitamente ajustado ao corpo. Os cabelos escuros estão penteados com precisão e o olhar é frio, calculista. Eu reconheço aquele rosto imediatamente, mesmo na chuva. Gabriel Rodrigo Monteiro. O CEO da Monteiro Tech. O tipo de homem que aparece em revistas de negócios falando sobre bilhões e estratégias globais. O tipo de homem que definitivamente não deveria estar sendo atingido pelo meu Fiat Uno velho. Ele olha primeiro para o carro. Depois para mim. — Você está bem? A voz dele é grave, controlada, mas distante, como se estivesse avaliando um problema corporativo em vez de um acidente. Cruzo os braços, sentindo a irritação subir. — Eu estou ótima, obrigada por perguntar. Já o seu carro… parece que ele teve um dia ruim. Ele ignora completamente meu comentário e passa a mão pelo metal amassado. A testa se franze. — Isso vai custar caro. Meu estômago afunda. — Muito caro. — Eu sinto muito — digo, tentando recuperar um pouco da dignidade. — Eu estava distraída… — Distraída? Ele se vira para mim com um olhar afiado. — Senhorita, dirigir distraída não é desculpa. É irresponsabilidade. Sinto o sangue ferver. — Eu sei o que eu fiz! Não preciso de sermão! — Poderia ter causado algo muito pior. — Eu tenho problemas, ok?! Problemas de verdade! Ele ergue uma sobrancelha. — Todos nós temos problemas. Isso não nos dá o direito de colocar outras pessoas em risco. A discussão começa a esquentar, cada frase mais afiada que a anterior. A chuva aumenta, mas nenhum de nós parece notar. O mundo ao redor desaparece, reduzido apenas a dois estranhos irritados no meio da rua. Até que uma pequena porta no banco traseiro do SUV se abre. Um menino sai do carro. Cabelos castanhos, olhos enormes e curiosos, usando um casaco de chuva amarelo que parece brilhar no meio daquele cenário cinza. — Papai? O que aconteceu? Sua voz é pequena, assustada. Ele dá um passo, tropeça em uma poça d'água e cai, raspando o joelho no asfalto molhado. Um pequeno gemido escapa de seus lábios. Eu não penso. Meu instinto, adormecido sob camadas de preocupação e desespero, acorda com um sobressalto. Corro até o menino, ajoelhando-me ao lado dele. — Oh, meu amor, você está bem? Minha voz é suave, cheia de carinho, um contraste gritante com o tom que eu usava com Gabriel. —Ei, calma… deixa eu ver. Examino o joelho do garotinho, que já começa a avermelhar. — Não foi nada, um pequeno arranhão. Vamos limpar isso. Tiro um lenço de papel do bolso, um que eu uso para limpar meus pincéis, e gentilmente o pressiono contra o joelho do menino. — Você é um garoto muito corajoso, sabia? Sorrio, um sorriso genuíno que ilumina meu rosto, e Leo, que estava prestes a chorar, solta uma risadinha. — Eu sou? Ele pergunta, os olhos brilhando. —Sim. Os mais corajosos são os que levantam rápido. Sinto um olhar pesado sobre mim. Levanto a cabeça e encontro Gabriel parado, a poucos centímetros de distância. Ele não diz nada por um momento. Sua expressão é indecifrável, uma máscara de gelo que parece ter sofrido uma rachadura imperceptível enquanto me via com o filho. Mas a rachadura se fecha rápido demais. Ele estende a mão para Leo, ajudando-o a se levantar, mas seus olhos permanecem fixos nos meus. — Leo, entre no carro agora. A voz dele sai mais baixa, mas ainda com aquele tom de comando que me irrita. O menino obedece, lançando-me um último olhar curioso antes de desaparecer atrás da porta pesada. Gabriel se vira para mim, a postura rígida, a chuva escorrendo pelo seu rosto sem que ele sequer pisque. — Você tem um jeito interessante com crianças, senhorita... Ele faz uma pausa, esperando que eu complete. — Ana Clara — digo, limpando a água das minhas mãos na saia já encharcada. — Pois bem, Ana Clara. Eu não sou um homem que aceita prejuízos por incompetência alheia. Você foi inconsequente. Atravessou um sinal vermelho e destruiu a traseira de um carro que vale mais do que esse seu... — ele olha para o meu Uno com um desdém que me faz querer sumir — ...veículo. — Eu já pedi desculpas! Retruco, sentindo a raiva borbulhar novamente. — Desculpas não pagam a franquia do meu seguro, Ana Clara. E elas certamente não consertam o susto que você deu no meu filho. Você precisa aprender a lidar com as consequências de ser uma inconsequente. Ele tira um cartão do bolso interno do terno e o estende para mim, e eu faço o mesmo, dou o meu. Seus dedos tocam os meus por um segundo, e eu sinto uma descarga elétrica que me faz recuar. — Esteja no meu escritório nesta quarta, às nove da manhã. Vamos discutir como você vai pagar por isso. E não pense em fugir. Eu tenho a sua placa e vou acionar meus advogados se você não aparecer. Ele tira uma foto do meu carro e do dele e então da minha cara de rabo de cavalo toda molhada e entra no SUV sem esperar por uma resposta. O motor ruge e o carro se afasta, deixando-me sozinha na chuva, com um cartão dourado na mão e o peso de uma dívida que eu sei que não posso pagar. O desastre aconteceu, mas o que vem a seguir parece ser muito mais perigoso. Gabriel Monteiro não sabe quem eu sou, mas ele quer que eu pague. E eu não tenho ideia de como vou sair dessa.POV GABRIEL O salão ainda ecoa com os aplausos. Ana Clara me olha com uma mistura de choque e desconfiança, seus olhos questionando a intensidade do beijo que acabamos de compartilhar. "Bom trabalho", seus olhos dizem. "Eles acreditaram". E a pior parte é que eu também acreditei. Eu, o homem que jurou nunca mais ser enganado por uma mulher, estou caindo na minha própria armadilha. Melissa estava errada sobre muitas coisas. Mas em uma ela tinha razão. Eu sempre escolho estratégias. Sempre calculo. Sempre controlo. Nunca entro em um jogo sem saber exatamente quais são as regras. Nunca permito que alguém tenha vantagem sobre mim. Pois um dia eu caí como um patinho na mão da minha esposa e prometi a mim mesmo que nunca mais faria isso, mas olhando para Ana Clara agora, eu percebo uma coisa extremamente inconveniente. Eu subestimei completamente a mulher com quem estou prestes a me casar. E a pior parte não é isso. A pior parte… é que essa constatação deveria me deixar irritado. Deveri
POV GabrielQuando fecho a porta percebo que estou sem ar. Eu já vi mulheres bonitas. Muitas. Modelos, atrizes, socialites que passam metade da vida sendo fotografadas. Mas nenhuma delas me preparou para o momento em que Ana Clara entra no salão. A música para. Ou talvez seja apenas a minha cabeça que fica em silêncio. O salão da mansão está iluminado por lustres gigantes de cristal. Centenas de convidados conversam, champanhe nas mãos, vestidos caros e ternos impecáveis criando uma atmosfera de riqueza e poder. Mas quando ela aparece no topo da escada, tudo perde importância.O vestido de seda marfim desliza pelo corpo dela como água. A cintura fina, a curva suave dos quadris, os ombros delicados iluminados pela luz dourada. O cabelo cai em ondas perfeitas pelas costas. E o rosto… calmo, sereno, indecifrável. Ela parece uma rainha entrando em seu próprio reino.Leo é o primeiro a reagir.— Ana Clara!Ele corre até a escada. Ela se inclina e abre os braços.— Ei, campeão.Leo a abraça
Pov Ana ClaraO dia do noivado amanhece com um sol que parece brilhante demais para algo que, no fundo, não passa de uma encenação cuidadosamente ensaiada. A luz invade o quarto através das cortinas claras, espalhando um brilho suave sobre o caos elegante que tomou conta do ambiente. Meu quarto virou um camarim, com maletas de maquiagem abertas sobre a mesa, sprays de cabelo, pincéis, grampos e tecidos delicados espalhados como se fossem ferramentas de um ritual. E, de certa forma, são. A equipe ao meu redor trabalha com a eficiência silenciosa de quem está acostumada a preparar pessoas para eventos que precisam parecer perfeitos. Cada gesto é calculado, cada pincelada é estratégica.— Olhe um pouquinho para cima, senhorita — pede a maquiadora com delicadeza.Obedeço, sentindo o toque macio do pincel sobre minha pálpebra. Camadas de base, iluminador e blush se transformam em uma armadura feita de beleza.— Esse vestido é simplesmente maravilhoso — comenta a cabeleireira enquanto prend
Pov GabrielObservo Ana Clara se afastar, e cada fibra do meu corpo parece entrar em colapso. O vestido de algodão branco, agora transparente, é uma tortura refinada. Ele desenha o contorno dos seus seios, a curva do seu quadril, a linha das suas pernas… é como se ela estivesse nua, mas envolta em uma névoa que torna tudo ainda mais erótico.Droga.Respiro fundo, mas o ar parece faltar. Eu a contratei para ser uma fachada, uma solução pragmática para um problema jurídico. Não para destruir meu autocontrole com um maldito baldinho de água.— Papai… — Leo me chama, tirando-me do transe.— O quê?— A Ana Clara ficou brava?Passo a mão pelo rosto, tentando limpar a água e os pensamentos pecaminosos.— Não, filho. Ela só foi se secar.— Então por que você está com essa cara de quem comeu limão azedo?Eu quase sorrio, mas a tensão no meu baixo ventre não permite.— Estou apenas pensando, Leo. Vá brincar com a sua babá. Preciso resolver uma coisa.Sigo para dentro da casa. Meus passos são pe
Último capítulo